Edição 1 654 -21/6/2000

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Sexo sem culpa

Pesquisadora americana diz que dobrou
o número de mulheres que vão para a cama
por prazer, sem compromisso

Anna Paula Buchalla

 
Michael Germana
"Para as mulheres, sexo de uma só noite não é mais visto como algo negativo ou alguma coisa que as faça sentir vergonha"

Conversar sobre sexo com a psicóloga americana Pamela Regan, professora da California State University, é uma experiência rica. Diretora do Laboratório de Relações Sociais da universidade e Ph.D. em psicologia e em estatísticas, Pamela não fala sobre o assunto com palpites ou impressões. Ela mostra as suas idéias com números. A psicóloga já publicou mais de quarenta artigos em revistas científicas sobre o tema. Recentemente, lançou o livro Lust – What We Know About Human Sexual Desire (algo como Luxúria – O que Sabemos sobre o Desejo Sexual Humano), ainda sem tradução no Brasil. Para concluir o trabalho, a especialista entrevistou 1 000 homens e 1 000 mulheres. O levantamento foi feito nos Estados Unidos, mas, informa Pamela, os resultados valem para muitos outros países do mundo ocidental. Segundo os estudos conduzidos por ela, 50% das mulheres admitiram que praticam o sexo casual por uma noite apenas, o dobro do que há vinte anos. A pesquisa feita pela psicóloga mostrou também que, no sexo casual, a esmagadora maioria das entrevistadas escolhe o parceiro pela aparência. Ou seja, na hora da aventura, a boa forma física conta muitos pontos.

Veja – As mulheres sempre criticaram a compulsão dos homens para o sexo sem compromisso e agora seu estudo mostra que até as americanas aderiram a isso. Como aconteceu?
Regan –
Mudou a cultura. A busca do prazer é uma atitude humana. Homens e mulheres flertam da mesma forma, com igual intensidade. Não importa se estão num bar, numa danceteria, numa festa. O desejo é o mesmo para os dois. Ambos querem ter prazer na cama. Em 1980, cerca de 25% das mulheres afirmavam ter relações sexuais sem compromisso. Fizemos uma pesquisa no ano passado com 1.000 mulheres e pudemos constatar que o panorama atual é outro. Dobrou o número de mulheres que responderam sim a essa pergunta. O número de homens que se envolvem sem compromisso ainda é maior. Mas hoje as mulheres deixaram de se limitar à fantasia. Criaram coragem e decidiram consumar seus desejos, ainda que por apenas uma noite.

Veja – E como aconteceu essa mudança no comportamento feminino?
Regan –
A sociedade aqui nos Estados Unidos e em muitas outras partes do mundo está em transformação. Podemos notar que, de modo geral, as mulheres estão mais abertas no campo sexual. Diferentemente do que acontecia no passado, elas já não se sentem tão vigiadas pelos outros e tampouco sentem tanto medo de uma punição. Para as mulheres, principalmente as que vivem nas sociedades ocidentais, uma aventura sexual de uma só noite não é vista como algo negativo ou alguma coisa que as faça sentir vergonha. Outras duas mudanças estão ligadas ao casamento e ao divórcio.

Veja – O que o casamento tem a ver com isso?
Regan –
Não é o casamento em si, mas a idéia de casamento, que não é mais o sonho dourado das meninas. Muitas mulheres querem primeiro se estabelecer na carreira para só então pensar em matrimônio. Quando pensam. Basta observar a presença feminina no mercado de trabalho. É cada vez maior. Houve uma inversão de prioridades muito acentuada. Acabou a fase da preocupação exclusiva com o lar. O que conta é vencer na carreira, ter um bom salário e ser reconhecida por isso. Uma parte dessas mulheres não tem parceiro fixo porque precisa dedicar-se com afinco a seu projeto profissional. Outra força que contribui para o sexo casual é o divórcio.

Veja – Como o divórcio interfere na vida sexual das mulheres entrevistadas por sua equipe?
Regan –
Como o número de mulheres divorciadas cresceu muito da década de 80 para cá, é natural que algumas dessas mulheres pratiquem sexo sem compromisso de vez em quando. O próprio trauma da separação faz com que elas passem a ter um comportamento diferente na vida íntima. Em nossas entrevistas, pude perceber que muitas mulheres estão mais preocupadas em ter prazer do que em apostar na construção de uma nova relação. É uma experiência que pode ser boa ou não.

Veja – O que é preciso para que elas considerem o sexo casual uma experiência positiva?
Regan –
Se o encontro eventual proporciona prazer aos parceiros e faz com que eles se sintam atraentes e sexualmente liberados, o sexo casual pode ser uma experiência extremamente positiva. Em geral, as pessoas sentem-se desejáveis, o que faz muito bem ao ego e à auto-estima. Mas é importante ter em mente que o sexo casual também pode ter um lado muito ruim. Primeiro, porque muita gente que se relaciona dessa forma o faz como meio de estabelecer em seguida um compromisso sério. Para esses, a experiência é quase sempre desapontadora. São enormes as probabilidades de encontrar na cama um parceiro que só queira diversão. Outro problema, esse menos psicológico e mais objetivo, é que o sexo casual também pode resultar em doenças, gravidez indesejada e outras conseqüências danosas. Não sou moralista, mas o sexo é realmente melhor quando as pessoas se conhecem, se amam e estão dispostas a ficar juntas. Nem que seja apenas por um período.

Veja – Em especial, qual é o fascínio que o sexo casual exerce sobre as pessoas?
Regan –
Basicamente, o sexo sem compromisso é movido pelo trinômio desejo sexual, experimentação sexual e prazer físico. Na pesquisa, 88% das entrevistadas disseram que queriam satisfazer seus desejos, experimentar, explorar a sexualidade, sentir-se livres e sexualmente liberadas. São pessoas que, em algum momento da vida, querem dar vazão a um impulso. No caso dos homens, o sexo casual ainda é sinônimo de status e de poder perante os amigos. Nada como se afirmar contando um pouco sobre as `róprias aventuras. As mulheres que participaram de meus estudos dizem que sexo casual é excitante, que elas encontraram nele um grande prazer físico.

Veja – As mulheres consideram o sexo eventual fascinante, mas não perdem de vista o objetivo de se casar. Como esses dois impulsos se combinam?
Regan –
Se o desejo sexual é a única coisa que você tem em uma relação, ela tem grandes riscos de sucumbir. O desejo é apenas um entre vários pontos importantes de um romance. Outros sentimentos, como amor, compromisso, afeição e confiança, são igualmente significativos. Isso não quer dizer que um casamento não possa ou não deva ser quente. A maioria das pessoas que se casam quer se realizar por intermédio do sexo também. Quase 65% das pessoas pesquisadas em nosso estudo apontaram o desejo sexual como muito importante na relação duradoura. As pessoas que manifestaram um baixo desejo sexual por seu parceiro também mostraram baixos níveis de paixão e admitem já ter pensado em encerrar a relação e buscar novos companheiros.  

Veja – O sexo casual com parceiros fora de casa pode funcionar como combustível para um casamento morno?
Regan –
Não creio. Muitas pessoas agem dessa forma e, na minha opinião, estão equivocadas. Nesse caso, a traição do marido ou da mulher produz quase sempre um impacto negativo na relação. Aliás, é uma estupidez achar que as relações fora do casamento podem salvá-lo. Se você já esgotou o que tinha de viver com uma pessoa, a melhor coisa a fazer é acabar com a relação. Mesmo naqueles casos raros em que se pratica sexo casual com o consentimento do parceiro, as chances de esquentar o casamento são reduzidas. Em geral, os problemas domésticos não se dissolvem por meio desse expediente. Continuam os mesmos. Nos anos 70, muitos casais pregavam a liberdade sexual e se diziam adeptos do casamento aberto. Havia mesmo quem defendesse a prática da troca de casais, o chamado swing. O tempo mostrou que isso não torna as pessoas mais felizes. Eu, particularmente, não recomendo o sexo casual como forma de esquentar um casamento. Dificilmente o resultado é positivo.

Veja – Não é curioso que esse comportamento feminino mais livre tenha ganho força depois do aparecimento da Aids?
Regan –
Não há dúvida de que a Aids esfriou durante muito tempo o espírito aventureiro tanto de homens como de mulheres. Mas, depois do impacto inicial, as pessoas já aprenderam a lidar com os perigos que essa doença terrível acarreta. Hoje, elas se previnem muito mais. Veja, por exemplo, a explosão da venda de camisinhas em muitas partes do mundo. A Aids assustou e diminuiu esse tipo de comportamento menos comprometido, mas hoje as pessoas sabem como evitá-la. Além do mais, o sexo casual não implica necessariamente sexo com uma pessoa totalmente estranha. Ele acontece, às vezes, entre dois amigos, um homem e uma mulher, ambos casados, que já se conhecem e resolvem experimentar uma noite de prazer em comum. Eles sabem que o risco de contágio numa relação desse tipo é mínimo.  

Veja – Quem tem mais parceiros: o homem ou a mulher?
Regan –
As pesquisas que fizemos mostram que ambos os sexos têm um número de parceiros semelhante. Mas existe uma particular diferença entre homens e mulheres. Homens, principalmente os jovens, praticam o sexo casual porque eles ainda querem parecer "machos". É muito comum o homem tagarela que na mesa de bar sai contando aos outros homens as conquistas da noite anterior. As mulheres, por seu lado, sempre que praticam sexo sem compromisso têm no fundo a esperança de que o parceiro irá querer um relacionamento duradouro. Não um casamento em si. Mas algo um pouco mais consistente. Quase 45% das entrevistadas disseram ter-se envolvido em sexo casual na tentativa de estendê-lo para um relacionamento de longa duração.

Veja – Suas entrevistadas disseram ter esperanças de encontrar seu "príncipe encantado" numa noitada qualquer?
Regan –
Apenas uma ínfima porcentagem dos relacionamentos de sexo casual se transforma em romance. Isso acontece mais ou menos com 10% das mulheres. Em outras palavras, essas mulheres fizeram sexo casual com o homem que escolheram na tentativa de iniciar um relacionamento sério e isso funcionou. Mas eu não recomendo sexo casual como um caminho para ter um relacionamento duradouro. E isso porque, lembre-se, a maioria dos homens não está buscando romance em um primeiro encontro. Logo, a mulher que tem a esperança de encontrar por esse meio seu verdadeiro amor certamente ficará desapontada.  

Veja – Em suas pesquisas, apareceu a tendência clara de que os homens se sentem à vontade tendo sexo casual com uma mesma mulher. E elas, como se comportam?
Regan –
Funciona mais ou menos assim: ele sai com aquela moça conhecida três, quatro vezes. Por ele, sairia até mais. Sempre com o rótulo: relação casual. Elas seriam quase namoradas, mas eles não assumem isso porque não querem os compromissos resultantes desse tipo de relação. Ela se irrita com o comportamento dele e corta as próximas investidas. Já com as mulheres é diferente. Se é para ficar se relacionando com o mesmo homem, então elas exigem que a relação ganhe status de namoro. Caso contrário, partem para outro.

Veja – Os valores femininos usados para estabelecer uma relação estável são os mesmos usados no sexo casual?
Regan –
Se você quer estar por uma noite com alguém com quem não pretende comprometer-se, nem ter filhos ou estender-se numa longa conversa, o que conta são os sinais exteriores. Ou seja: a aparência física. A boa forma é apontada como primordial para 86% das pessoas. Por isso, não adianta o gordinho do escritório achar que só porque as mulheres estão fazendo mais sexo sem compromisso ele pode se tornar um casanova. Para esse tipo de relação, as mulheres querem homens com corpo bem delineado. Elas querem alguém nem muito gordo nem muito magro e com uma aparência saudável.

Veja – Como elas lidam com a culpa?
Regan –
Muitos encontros desse tipo começam em bares, festas, férias ou outros lugares que favorecem o anonimato. São territórios neutros, desconhecidos, onde as pessoas não sabem quem você é e onde não há riscos de constrangimento. Isso permite fazer coisas que normalmente não se fariam e o melhor: sem nenhuma conseqüência. Bebidas alcoólicas são freqüentemente comuns nessas situações. Tanto o álcool como as drogas estimulam um comportamento menos conservador em relação ao sexo. Muitas pessoas bebem ou usam drogas porque encontram nesses dois instrumentos uma ótima desculpa para sua conduta. Elas sabem que o que estão fazendo não é socialmente aceitável e então bebem para poder colocar no álcool as próprias culpas. É aquela história do "bebi tanto na noite passada que nem acredito que fui para a cama com aquela pessoa..."  

Veja – O local de trabalho não acaba se tornando um ambiente ainda mais estimulante que todos esses outros?
Regan –
Todos os estudos mostram que o ambiente de trabalho funciona como um poderoso motor sexual. Mas há um detalhe que não pode ser esquecido. É muito mais fácil encontrar no bar alguém para uma aventura casual do que no local de trabalho. Motivo: todos nós tendemos a casar, namorar ou nos envolver com pessoas que se assemelham a nós em sua conduta e seus valores. É muito mais fácil encontrar alguém para uma relação duradoura no escritório. Se você vai para a cama com alguém do trabalho, vai ter de encontrá-lo no dia seguinte. Costuma, no mínimo, ser uma situação muito constrangedora se não há a intenção de dar continuidade ao relacionamento.