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Edição 2061

21 de maio de 2008
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O que só a ficção vê

As razões que levaram um psicanalista e um
cientista político a tentar a sorte como romancistas


Jerônimo Teixeira

Oscar Cabral
Wanderley Guilherme dos Santos: trabalho com a linguagem e investigação do mal

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Trechos dos livros

O Conto do Amor
Acervo de Maldizer

Duas estréias tardias na ficção chegaram recentemente às livrarias brasileiras. O psicanalista Contardo Calligaris, 60 anos, lançou O Conto do Amor (Companhia das Letras; 136 páginas; 34 reais), e o cientista político Wanderley Guilherme dos Santos, 72, publicou Acervo de Maldizer (Rocco; 128 páginas; 19 reais) – romances muito diferentes, mas que têm em comum a brevidade e certa cor autobiográfica. Reconhecidos em suas respectivas áreas de atuação, Santos e Calligaris também contam com trânsito junto ao público geral, pelos artigos que escrevem na imprensa. Intelectual próximo ao petismo, Santos colabora regularmente com o Valor Econômico (foi um dos defensores da tese natimorta segundo a qual o mensalão foi inventado pela imprensa para dar um "golpe branco" no governo Lula). Calligaris é colunista da Folha de S.Paulo. A ficção dificilmente renderá popularidade: artigos de jornal alcançam centenas de milhares de leitores, enquanto um romance, no Brasil, pode se considerar bem-sucedido se vender 10.000 exemplares. Por que então um intelectual consagrado se aventura a escrever uma história de faz-de-conta? Existem boas razões. Será que uma porção considerável da experiência humana permanece inacessível à psicologia, à filosofia, às ciências humanas, e que só pode ser iluminada pelo romance?

Acervo de Maldizer responde ao desejo do autor de usar a linguagem com uma liberdade que o ensaio acadêmico já não permitia. "Senti que havia alcançado meu limite dentro da linguagem científica", diz Santos. Há um tema central do romance que é, segundo Santos, difícil de ser apreendido pelo estudo acadêmico: o mal. O romance, porém, ficou a meio caminho no exame do tema. É um livro raivoso, vitriólico, contaminado pelo que o narrador – um velho mesquinho que conserva uma fixação erótica na própria mãe – chama de "vômito do ressentimento". A juventude suburbana do personagem, com suas sórdidas experiências sexuais e suas brigas de rua, responde pelos momentos mais fortes do livro. Os capítulos finais, mais digressivos, são menos convincentes – a longa peroração do personagem sobre a propensão humana para o mal soa meramente retórica quando o pior que ele tem a contar são fantasias sexuais, ainda que incestuosas.

Fabiano Accorsi
Contardo Calligaris: o romance fornece uma "poética da vida"

O livro de Calligaris é mais generoso com o gênero humano. De certo modo, o autor tentou a mão como romancista para falar do pólo oposto ao mal – o amor que vai no título de sua obra. Só a ficção, acredita Calligaris, fornece uma "poética da vida". "É o grande repertório moderno de todas as nossas sabedorias", diz. O protagonista de O Conto do Amor é Carlo Antonini, um psicanalista nascido na Itália (como o autor) e radicado em Nova York que retorna ao país natal para investigar uma passagem obscura da juventude de seu pai. A investigação parte da paixão que o pai cultivava pela arte renascentista – em particular pelos afrescos do pintor Giovanni Antonio Bazzi, o Sodoma – e chega até episódios de terrorismo na Itália dos anos 70. Calligaris às vezes escorrega em um didatismo primário. Antonio e Nicoletta – a historiadora da arte por quem ele se apaixona – não conversam entre si: falam para instruir o leitor sobre a arte de Sodoma ou a arquitetura de Florença. Mas a narrativa é envolvente – o leitor sempre tem vontade de saber o que vem adiante.

"Nós, artistas, não desprezamos ninguém tão profundamente quanto o amador, aquele que ocasionalmente pensa que pode ser artista", diz o personagem-título da novela Tonio Kröger, de Thomas Mann. Kröger exemplifica uma atitude típica do modernismo. Desejava ser o escritor absoluto, que vive exclusivamente para a sua arte. Não é o caso de Santos ou Calligaris. Mas a literatura não vive só de artistas "puros". O romance, em particular, é uma forma impura, suja e democrática – acessível a um grande contingente de leitores e, por que não?, de autores. "A grandiosidade desse gênero tem sido apresentar-nos vidas que poderiam ser iguais a nossas vidas, desejos semelhantes a nossos próprios desejos", diz o crítico americano Roberto Alter em um ensaio que discute justamente os "motivos para a ficção". Calligaris chegou a uma constatação parecida a partir de sua experiência como psicanalista. Ao começarem a terapia, seus pacientes freqüentemente diziam ter vida aborrecida e sem interesse. Nas sessões seguintes, porém, contavam histórias extraordinárias. "Toda vida vale um romance", constata Calligaris. Ainda que fale para um público reduzido, a literatura diz o que só a literatura pode dizer.



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