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Edição 2061

21 de maio de 2008
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Televisão
Mil domingos brasileiros

O que explica o reinado de quase vinte anos
de Fausto Silva no dia mais concorrido da TV


Marcelo Marthe

Reprodução/ TV Globo
Fausto Silva (à esq.) no quadro Dança dos Famosos: para ele, a Globo só dá bola para a dramaturgia


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Nesta reportagem
Quadro: O que mudou na TV desde a estréia do programa e o que mudou para Faustão

Em 1989, ao estrear seu programa nas tardes de domingo da Rede Globo, Fausto Silva ouviu um conselho do então responsável pela programação da emissora, José Bonifácio de Oliveira Sobrinho. "O Boni me disse: ‘Não se deixe levar pela ansiedade. Isso aqui é uma corrida de longa distância’ ", lembra. A observação estava correta – e ganha sua demonstração cabal agora. Neste domingo, 18, a atração comandada pelo apresentador chega à sua edição de número 1.000. Outros programas da Globo podem até ter ultrapassado essa marca. Mas nenhum que se apóie de forma ostensiva num âncora-animador. Em dezenove anos, o Domingão do Faustão ficou no ar por 230.000 minutos, ou 160 dias corridos. Das pegadinhas dos primeiros tempos ao Dança dos Famosos, exibiu um total de 180 quadros. Foram 73.000 videocassetadas e 3.900 atrações musicais. Mas chegar até aqui não foi brincadeira. Entre o fim dos anos 90 e o início da década atual, o Domingão esteve perto de ser nocauteado pelo concorrente Gugu Liberato, do SBT. Na semana passada, Faustão falou a VEJA – inclusive sobre aqueles tempos difíceis. "A certa altura, eu vivia irritado e não sentia vontade de fazer o programa. Mas hoje voltei a ter prazer pelo que faço", diz ele.

Quando o Domingão estreou, em março de 1989, o Brasil amargava a hiperinflação e em breve teria suas primeiras eleições diretas para presidente depois do fim da ditadura militar. Nos anos seguintes, mudanças econômicas e sociais tiveram impacto sobre os hábitos dos espectadores. Até então, os shopping centers não abriam aos domingos, o controle remoto ainda não era disseminado, não havia celular no Brasil nem internet ou TV por assinatura. Com essas novidades, a TV aberta passou a enfrentar concorrência em diversas frentes. As diferenças entre o público do Domingão de ontem e o de hoje explicitam isso. Há menos jovens vendo o programa, pois parte deles busca outras formas de lazer, como a internet. E a classe C já responde por 45% da audiência – reflexo de sua expansão.

Divulgação/TV Record
PEDE PARA SAIR, FAUSTÃO – O humorista Tom Cavalcante (de óculos) no quadro Bofe de Elite: uma das armas da Record para disputar a audiência dos domingos com a Globo e o SBT

Nos domingos, toda a família está diante da TV, o que faz do programa uma vitrine cobiçada pelos anunciantes. O Domingão responde por 7% do faturamento bruto da Globo. E também é lucrativo para Faustão: entre salário e ganhos com publicidade, seus rendimentos mensais batem nos 4 milhões de reais. Durante a semana, participa de reuniões com anunciantes e executivos de agências. O fato de ter amizade com publicitários (como Washington Olivetto, da W/Brasil) ajuda nos negócios. Esse Faustão que cuida de seus interesses é também um Faustão mais maduro – ou, como ele mesmo diz, menos irreverente do que no passado. Em entrevista nos anos 80, ao lhe perguntarem se era a favor de quatro ou cinco anos para José Sarney, respondeu: "Perpétua". Ele não repete a piada sobre a hipótese de um terceiro mandato para o presidente Lula. "Me tira dessa, o cara é meu amigo. Não saía do meu programa, o Perdidos na Noite, quando ninguém dava espaço para ele", diz. O presidente agora retribui: gravou uma mensagem de parabéns pela milésima edição do Domingão.

Numa era em que os artistas escancaram sua intimidade nas revistas de celebridades, Faustão fez um voto de reclusão. "Quando estou com um microfone na mão, falo pelos cotovelos. Mas, no fundo, sou tímido", diz ele. E completa: "Não bebo, não fumo e não nasci para ser arroz-de-festa". Essa opção tem algo de estratégico. Nas pesquisas sobre sua imagem, dois itens ficam nítidos. Por seu jeito simples e espontâneo, Faustão consegue falar com todos os estratos do público. O outro pilar de sua credibilidade é o fato de manter sua vida longe dos holofotes. "Ele não aparece onde não deve e não se mete em roubadas. E um perfil discreto é tudo que as marcas desejam", diz o publicitário (e amigo, para variar) Sergio Amado, da Ogilvy. Casado pela terceira vez e pai de uma garota de 10 anos e de um menino de 4 (o terceiro rebento virá em semanas), o máximo de exposição que o apresentador se permite são as chamadas "pizzas do Faustão", reuniões em sua casa com artistas e figurões. Sua mulher, a ex-modelo Luciana Cardoso, anda ensaiando uma carreira de compositora. Mas Faustão desconversa sobre o assunto. "Ela não leva isso a sério. É puro diletantismo."

Fernando Pereira/AE

PASSARINHO QUE PERDEU AS ASAS
Gugu: depois de cair no ibope, o loiro já não ameaça Faustão


Recentemente, o apresentador concedeu-se um fim de semana de folga (não sem pagar pedágio: deixou um Domingão pré-gravado) para curtir seu 58º aniversário na Itália, país que idolatra. Foi em viagens assim que descobriu os formatos estrangeiros em que se baseiam quadros como o Dança dos Famosos. Essa fase de calmaria contrasta com o inferno enfrentado por ele, grosso modo, entre 1998 e 2002. Depois de uma transição bem-sucedida de apresentador de um programa alternativo (o extinto Perdidos na Noite) para o grande público da Globo (pela qual foi contratado com a missão de quebrar a hegemonia dominical de Silvio Santos), trombou com a maior pedra em seu sapato: o loiro Gugu. No esforço de estancar a queda no ibope, cometeu seus erros capitais: o Sushi Erótico, quadro em que atores degustavam comida japonesa sobre o corpo de modelos nuas, e o caso Latininho, quando o Domingão explorou a imagem de um deficiente de forma grotesca. A queda de prestígio provocada por tais baixarias, somada às derrotas sucessivas para Gugu (houve momentos em que a audiência do Domingão desceu ao poço de 11 pontos no ibope), tornou Fausto Silva um sujeito mal-humorado. Também lhe rendeu desafetos – como Alberto Luchetti, diretor de seu programa de 1998 a 2000. "O problema do Faustão é que ele nunca gostou do que faz. Só promove aquelas pizzas na casa dele para mostrar aos outros que tem cérebro", diz Luchetti.

O apresentador faz lá seu mea-culpa. Sustenta que não soube de antemão do Sushi Erótico, do Latininho e, mais tarde, da malfadada entrevista em que o pagodeiro Belo usou seu programa para tentar limpar a barra num crime. Mas admite que, em última instância, a responsabilidade pelos tropeços é dele. "O injusto é que muita gente acha que a história do programa se resume a esses poucos erros", afirma. A lição que ele tirou daí é que um apresentador de programa de auditório não pode abdicar de imprimir suas idéias ao que vai ao ar. "Antes, eu deixava as coisas correr soltas e só no domingo ia ver o que tinha na pauta. Agora, mergulho na produção", diz. Palavras de um apresentador de peso – atualmente, 120 quilos distribuídos por 1,88 metro de altura.

 

"Não procurei a fama de forma obcecada"

Nesses quase vinte anos, houve algum momento em que o senhor pensou: "não dá mais"? Houve um momento complicado, em 2001. Depois de várias tentativas de recuperar nosso ibope, tentaram me convencer de que um grupo de jornalistas deveria assumir a direção. Só que eles descaracterizaram o programa. Aí foi o fim do mundo, a audiência desabou de vez. Falei para a Marluce (a manda-chuva da Globo no período, Marluce Dias da Silva): é melhor rescindir o contrato. Ainda bem que a crise não durou tanto.

Reprodução
O episódio do "Latininho", nos anos 90: um dos erros de Faustão


Esse momento ruim coincidiu com seu embate pesado com Gugu. Aquela fase ainda lhe dá pesadelos?
Não foi nem uma fase, nem um programa inteiro. De 1000 programas, tivemos três momentos trágicos: o sushi erótico, o Latininho e a entrevista com o Belo. O Sushi era um quadro de dois ou três minutos e aí ficaram esticando – eu até falei no ar: eu não estou à vontade. O problema do Latininho (deficiente explorado de forma grotesca no programa) é que ele passou o dia inteiro lá na produção e ninguém notou que havia algo errado. Na hora em que eu o vi no ar é que percebi que o rapaz estava totalmente sem condição. Agora, são problemas internos que só têm essa repercussão porque se trata da Globo. Houve tantos Latininhos em outros programas e ninguém reclamou.

Há alguma parcela de culpa sua nesses episódios? Em todos. Afinal de contas, minha cara estava lá. Naquela época eu não estava envolvido na produção como hoje. Talvez eu tivesse evitado ou amenizado se fosse assim.

Na contramão da era das celebridades, o senhor optou por não expor sua vida pessoal. Por quê? No fundo, sou tímido. É claro que se eu não gostasse de ser reconhecido eu ia ser guarda-noturno, não é verdade? Mas não vivo em função disso. Não procurei a fama de forma obcecada, neurótica. E os artistas às vezes se acham. É preciso ter consciência do país em que a gente vive, a pessoa não pode afrontar ninguém só porque tem fama, dinheiro ou poder.

Qual o efeito da fama na vida das pessoas? O que deveria ser decorrência natural de um bom trabalho acaba tendo o efeito de um tsunami para quem se expõe publicamente. E só alguns sabem lidar com isso. Se o sujeito alcança o sucesso cedo demais, ele se perde. Se demora para chegar, ele fica recalcado e amargo. O problema às vezes não é nem a pessoa saber administrar a fama. O problema é quem a rodeia.

Como é lidar com o ego dos artistas? Quando estão no meu terreiro, eles são afáveis. Mas muitos dão coice no porteiro, no garçom, nos cabeleireiros e maquiadores. Tem um time grande que faz isso na Globo. É um negócio maluco: eles descarregam seu recalque para cima dessas pessoas.

Muitos atores profissionais olham de forma enviesada para os ex-participantes do Big Brother. Qual a sua opinião sobre isso? Eu entendo. Os grandes atores sabem quanto é difícil essa profissão. E hoje basta ser bonito e engraçadinho e se destacar num reality show para subir na vida. A ascensão social e econômica no Brasil se dá por meio da fama. Não se premia o sujeito porque ele estuda. Quando comecei, nos anos 70, ser artista, jogador de futebol, modelo ou miss era o apogeu do lixo. Hoje, é o contrário. Existe estímulo para essas carreiras fugazes. Às vezes, a gente vê mães tentando emplacar na carreira de modelo suas filhas de 1,50 metro de altura e cara de abacaxi. Parece que o único caminho é o sucesso na TV, seja por vias musicais ou sexuais.

O senhor é contra o assistencialismo na TV. Por quê? Assistencialismo é aquele negócio que você leva lá e dá dinheiro de mão beijada. Para mim, esse assistencialismo barato não é bom. Acho ruins, inclusive, as medidas do governo nesse sentido. Eu me lembro da música do Luiz Gonzaga: a esmola vicia o cidadão.

Está se referindo ao Bolsa Família? É, todos os programas assim. Há vários exemplos de gente que não quer trabalhar mais por causa dessa ajuda fácil. É preciso ensinar o sujeito a trabalhar, criar cursos técnicos, oferecer educação. O governo tem de criar a estrutura, e a vida se encarrega de selecionar os mais inteligentes e batalhadores. O assistencialismo é uma praga de país subdesenvolvido.

Por que o senhor acredita que falta ousadia à televisão? É o seguinte: se uma emissora faz novela, todo mundo faz novela. Mas o que dá certo nas outras emissoras são programas diferentes do que os que a Globo exibe. E a própria Globo não inova. O problema é que o cachimbo entorta a boca. Durante muitos anos, a Globo só investiu em dramaturgia. Então, virou uma emissora que sabe fazer apenas novelas e sitcoms.

O senhor foi pai tardiamente, aos 48 anos. O Brasil o deixa ansioso como pai? Sem dúvida. Um país que tem violência, que não investe em educação, não oferece o básico de habitação e saúde, um país que tem de ter cota de tudo. É um país que caiu no real, mas não na real. E a elite brasileira é muito burra. Fica todo mundo dentro de seu condomínio, de seu carro blindado.

Seus filhos vêem televisão livremente? Não, ô louco. Eles têm de seguir regras, só podem ver TV em alguns horários que achamos adequados.

Eles assistem ao Domingão? Só por castigo.


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