Em 1989, ao estrear
seu programa nas tardes de domingo da Rede Globo, Fausto Silva
ouviu um conselho do então responsável pela programação
da emissora, José Bonifácio de Oliveira Sobrinho.
"O Boni me disse: Não se deixe levar pela
ansiedade. Isso aqui é uma corrida de longa distância ",
lembra. A observação estava correta e ganha
sua demonstração cabal agora. Neste domingo, 18,
a atração comandada pelo apresentador chega à
sua edição de número 1.000. Outros programas
da Globo podem até ter ultrapassado essa marca. Mas nenhum
que se apóie de forma ostensiva num âncora-animador.
Em dezenove anos, o Domingão do Faustão
ficou no ar por 230.000 minutos, ou 160 dias corridos. Das pegadinhas
dos primeiros tempos ao Dança dos Famosos, exibiu um
total de 180 quadros. Foram 73.000 videocassetadas e 3.900 atrações
musicais. Mas chegar até aqui não foi brincadeira.
Entre o fim dos anos 90 e o início da década atual,
o Domingão esteve perto de ser nocauteado pelo
concorrente Gugu Liberato, do SBT. Na semana passada, Faustão
falou a VEJA inclusive sobre aqueles tempos difíceis.
"A certa altura, eu vivia irritado e não sentia
vontade de fazer o programa. Mas hoje voltei a ter prazer pelo
que faço", diz ele.
Quando o Domingão
estreou, em março de 1989, o Brasil amargava a hiperinflação
e em breve teria suas primeiras eleições diretas
para presidente depois do fim da ditadura militar. Nos anos
seguintes, mudanças econômicas e sociais tiveram
impacto sobre os hábitos dos espectadores. Até
então, os shopping centers não abriam aos domingos,
o controle remoto ainda não era disseminado, não
havia celular no Brasil nem internet ou TV por assinatura. Com
essas novidades, a TV aberta passou a enfrentar concorrência
em diversas frentes. As diferenças entre o público
do Domingão de ontem e o de hoje explicitam isso.
Há menos jovens vendo o programa, pois parte deles busca
outras formas de lazer, como a internet. E a classe C já
responde por 45% da audiência reflexo de sua expansão.
Divulgação/TV
Record
PEDE PARA SAIR, FAUSTÃO
O humorista
Tom Cavalcante (de óculos) no quadro Bofe
de Elite: uma das armas da Record para disputar a audiência
dos domingos com a Globo e o SBT
Nos domingos, toda
a família está diante da TV, o que faz do programa
uma vitrine cobiçada pelos anunciantes. O Domingão
responde por 7% do faturamento bruto da Globo. E também
é lucrativo para Faustão: entre salário
e ganhos com publicidade, seus rendimentos mensais batem nos
4 milhões de reais. Durante a semana, participa de reuniões
com anunciantes e executivos de agências. O fato de ter
amizade com publicitários (como Washington Olivetto,
da W/Brasil) ajuda nos negócios. Esse Faustão
que cuida de seus interesses é também um Faustão
mais maduro ou, como ele mesmo diz, menos irreverente
do que no passado. Em entrevista nos anos 80, ao lhe perguntarem
se era a favor de quatro ou cinco anos para José Sarney,
respondeu: "Perpétua". Ele não repete
a piada sobre a hipótese de um terceiro mandato para
o presidente Lula. "Me tira dessa, o cara é meu
amigo. Não saía do meu programa, o Perdidos
na Noite, quando ninguém dava espaço para
ele", diz. O presidente agora retribui: gravou uma mensagem
de parabéns pela milésima edição
do Domingão.
Numa era em que os
artistas escancaram sua intimidade nas revistas de celebridades,
Faustão fez um voto de reclusão. "Quando
estou com um microfone na mão, falo pelos cotovelos.
Mas, no fundo, sou tímido", diz ele. E completa:
"Não bebo, não fumo e não nasci para
ser arroz-de-festa". Essa opção tem algo
de estratégico. Nas pesquisas sobre sua imagem, dois
itens ficam nítidos. Por seu jeito simples e espontâneo,
Faustão consegue falar com todos os estratos do público.
O outro pilar de sua credibilidade é o fato de manter
sua vida longe dos holofotes. "Ele não aparece onde
não deve e não se mete em roubadas. E um perfil
discreto é tudo que as marcas desejam", diz o publicitário
(e amigo, para variar) Sergio Amado, da Ogilvy. Casado pela
terceira vez e pai de uma garota de 10 anos e de um menino de
4 (o terceiro rebento virá em semanas), o máximo
de exposição que o apresentador se permite são
as chamadas "pizzas do Faustão", reuniões
em sua casa com artistas e figurões. Sua mulher, a ex-modelo
Luciana Cardoso, anda ensaiando uma carreira de compositora.
Mas Faustão desconversa sobre o assunto. "Ela não
leva isso a sério. É puro diletantismo."
Fernando
Pereira/AE
PASSARINHO
QUE PERDEU AS ASAS Gugu: depois de cair no
ibope, o loiro já não ameaça Faustão
Recentemente, o apresentador concedeu-se um fim de semana de
folga (não sem pagar pedágio: deixou um Domingão
pré-gravado) para curtir seu 58º aniversário
na Itália, país que idolatra. Foi em viagens assim
que descobriu os formatos estrangeiros em que se baseiam quadros
como o Dança dos Famosos. Essa fase de calmaria contrasta
com o inferno enfrentado por ele, grosso modo, entre 1998 e
2002. Depois de uma transição bem-sucedida de
apresentador de um programa alternativo (o extinto Perdidos
na Noite) para o grande público da Globo (pela qual
foi contratado com a missão de quebrar a hegemonia dominical
deSilvio Santos), trombou com a maior pedra em seu sapato:
o loiro Gugu. No esforço de estancar a queda no ibope,
cometeu seus erros capitais: o Sushi Erótico, quadro
em que atores degustavam comida japonesa sobre o corpo de modelos
nuas, e o caso Latininho, quando o Domingão explorou
a imagem de um deficiente de forma grotesca. A queda de prestígio
provocada por tais baixarias, somada às derrotas sucessivas
para Gugu (houve momentos em que a audiência do Domingão
desceu ao poço de 11 pontos no ibope), tornou Fausto
Silva um sujeito mal-humorado. Também lhe rendeu desafetos
como Alberto Luchetti, diretor de seu programa de 1998
a 2000. "O problema do Faustão é que ele
nunca gostou do que faz. Só promove aquelas pizzas na
casa dele para mostrar aos outros que tem cérebro",
diz Luchetti.
O apresentador faz
lá seu mea-culpa. Sustenta que não soube de antemão
do Sushi Erótico, do Latininho e, mais tarde, da malfadada
entrevista em que o pagodeiro Belo usou seu programa para tentar
limpar a barra num crime. Mas admite que, em última instância,
a responsabilidade pelos tropeços é dele. "O
injusto é que muita gente acha que a história
do programa se resume a esses poucos erros", afirma. A
lição que ele tirou daí é que um
apresentador de programa de auditório não pode
abdicar de imprimir suas idéias ao que vai ao ar. "Antes,
eu deixava as coisas correr soltas e só no domingo ia
ver o que tinha na pauta. Agora, mergulho na produção",
diz. Palavras de um apresentador de peso atualmente,
120 quilos distribuídos por 1,88 metro de altura.
"Não
procurei a fama de forma obcecada"
Nesses quase
vinte anos, houve algum momento em que o senhor pensou:
"não dá mais"? Houve um momento
complicado, em 2001. Depois de várias tentativas
de recuperar nosso ibope, tentaram me convencer de que
um grupo de jornalistas deveria assumir a direção.
Só que eles descaracterizaram o programa. Aí
foi o fim do mundo, a audiência desabou de vez.
Falei para a Marluce (a manda-chuva da Globo no período,
Marluce Dias da Silva): é melhor rescindir
o contrato. Ainda bem que a crise não durou tanto.
Reprodução
O episódio do "Latininho",
nos anos 90: um dos erros de Faustão
Esse momento ruim coincidiu com seu embate pesado com
Gugu. Aquela fase ainda lhe dá pesadelos? Não
foi nem uma fase, nem um programa inteiro. De 1000 programas,
tivemos três momentos trágicos: o sushi erótico,
o Latininho e a entrevista com o Belo. O Sushi era um
quadro de dois ou três minutos e aí ficaram
esticando eu até falei no ar: eu não
estou à vontade. O problema do Latininho (deficiente
explorado de forma grotesca no programa) é
que ele passou o dia inteiro lá na produção
e ninguém notou que havia algo errado. Na hora
em que eu o vi no ar é que percebi que o rapaz
estava totalmente sem condição. Agora, são
problemas internos que só têm essa repercussão
porque se trata da Globo. Houve tantos Latininhos em outros
programas e ninguém reclamou.
Há
alguma parcela de culpa sua nesses episódios? Em
todos. Afinal de contas, minha cara estava lá.
Naquela época eu não estava envolvido na
produção como hoje. Talvez eu tivesse evitado
ou amenizado se fosse assim.
Na contramão
da era das celebridades, o senhor optou por não
expor sua vida pessoal. Por quê? No fundo, sou
tímido. É claro que se eu não gostasse
de ser reconhecido eu ia ser guarda-noturno, não
é verdade? Mas não vivo em função
disso. Não procurei a fama de forma obcecada, neurótica.
E os artistas às vezes se acham. É preciso
ter consciência do país em que a gente vive,
a pessoa não pode afrontar ninguém só
porque tem fama, dinheiro ou poder.
Qual o efeito
da fama na vida das pessoas? O que deveria ser decorrência
natural de um bom trabalho acaba tendo o efeito de um
tsunami para quem se expõe publicamente. E só
alguns sabem lidar com isso. Se o sujeito alcança
o sucesso cedo demais, ele se perde. Se demora para chegar,
ele fica recalcado e amargo. O problema às vezes
não é nem a pessoa saber administrar a fama.
O problema é quem a rodeia.
Como é
lidar com o ego dos artistas? Quando estão
no meu terreiro, eles são afáveis. Mas muitos
dão coice no porteiro, no garçom, nos cabeleireiros
e maquiadores. Tem um time grande que faz isso na Globo.
É um negócio maluco: eles descarregam seu
recalque para cima dessas pessoas.
Muitos atores
profissionais olham de forma enviesada para os ex-participantes
do Big Brother. Qual a sua opinião sobre isso?
Eu entendo. Os grandes atores sabem quanto é
difícil essa profissão. E hoje basta ser
bonito e engraçadinho e se destacar num reality
show para subir na vida. A ascensão social e econômica
no Brasil se dá por meio da fama. Não se
premia o sujeito porque ele estuda. Quando comecei, nos
anos 70, ser artista, jogador de futebol, modelo ou miss
era o apogeu do lixo. Hoje, é o contrário.
Existe estímulo para essas carreiras fugazes. Às
vezes, a gente vê mães tentando emplacar
na carreira de modelo suas filhas de 1,50 metro de altura
e cara de abacaxi. Parece que o único caminho é
o sucesso na TV, seja por vias musicais ou sexuais.
O senhor
é contra o assistencialismo na TV. Por quê?
Assistencialismo é aquele negócio que
você leva lá e dá dinheiro de mão
beijada. Para mim, esse assistencialismo barato não
é bom. Acho ruins, inclusive, as medidas do governo
nesse sentido. Eu me lembro da música do Luiz Gonzaga:
a esmola vicia o cidadão.
Está
se referindo ao Bolsa Família? É, todos
os programas assim. Há vários exemplos de
gente que não quer trabalhar mais por causa dessa
ajuda fácil. É preciso ensinar o sujeito
a trabalhar, criar cursos técnicos, oferecer educação.
O governo tem de criar a estrutura, e a vida se encarrega
de selecionar os mais inteligentes e batalhadores. O assistencialismo
é uma praga de país subdesenvolvido.
Por que
o senhor acredita que falta ousadia à televisão?
É o seguinte: se uma emissora faz novela, todo
mundo faz novela. Mas o que dá certo nas outras
emissoras são programas diferentes do que os que
a Globo exibe. E a própria Globo não inova.
O problema é que o cachimbo entorta a boca. Durante
muitos anos, a Globo só investiu em dramaturgia.
Então, virou uma emissora que sabe fazer apenas
novelas e sitcoms.
O senhor
foi pai tardiamente, aos 48 anos. O Brasil o deixa ansioso
como pai? Sem dúvida. Um país que tem
violência, que não investe em educação,
não oferece o básico de habitação
e saúde, um país que tem de ter cota de
tudo. É um país que caiu no real, mas não
na real. E a elite brasileira é muito burra. Fica
todo mundo dentro de seu condomínio, de seu carro
blindado.
Seus filhos
vêem televisão livremente? Não,
ô louco. Eles têm de seguir regras, só
podem ver TV em alguns horários que achamos adequados.