De
acordo com Steven Spielberg, nada é mais importante na série Indiana
Jones do que Harrison Ford nem ele, Spielberg, nem o produtor George
Lucas, nem os vários roteiristas de peso que já nela trabalharam,
nem os outros atores, por mais talentosos que sejam. Ford, diz o cineasta, é
a peça que mantém todas as outras no lugar e as faz funcionar. (Assim
como Indiana foi o motor que impulsionou a carreira de superastro de Ford.) Por
um triz, porém, a história não se escreveu de forma diferente.
Em 1980, Lucas e Spielberg estavam de olho em outro nome popular do momento para
estrelar Os Caçadores da Arca Perdida Tom Selleck, que era
um sucesso na série de televisão Magnum. Mas os produtores
do programa fizeram manha e recusaram liberar Selleck pelo tempo da filmagem.
A escolha recaiu então sobre Ford, que Lucas conhecia bem por ter-lhe dado
um dos papéis mais populares de Star Wars, o do caubói Han
Solo (personagem que seu intérprete, aliás, considera "meio
burrinho"). Não se pode dizer que tenha sido puro acaso, portanto,
que Ford e Indiana tenham encontrado um ao outro e entrado, juntos, para a cultura
pop. Mas pode-se dizer, sim, que a sorte deu a ambos uma mãozinha. "As
chances de um ator conseguir viver de sua profissão são infinitesimais.
Que dirá então de fazer sucesso, e sucesso como o que Indiana
Jones usufruiu desde o início. Portanto, afirmo e reafirmo que tive
sorte", disse Ford a VEJA durante a campanha de lançamento do quarto
filme da série, Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal, que
estréia nesta quinta-feira (e estará guardado a sete chaves dos
olhares da crítica até sua exibição em Cannes, neste
domingo).
As pequenas e felizes
coincidências pontuam toda a trajetória da franquia. Foi quase
de uma brincadeira, por exemplo, que ela nasceu. Spielberg comentou com Lucas
que adoraria fazer um filme de James Bond. Como essa sea-ra estava tomada, o amigo
lhe sugeriu outro tipo de agente secreto não um espião que
derrota vilões nucleares, mas um arqueólogo que evita que objetos
dotados de poderes mágicos caiam nas mãos de forças mal-intencionadas.
Um pouco do caráter do protagonista também foi tomado de empréstimo
de 007. Indiana é um herói que não tem qualidades heróicas
muito óbvias: é um cínico, nem sempre age com lisura exemplar
para com as mulheres, decora a sala da universidade em que dá aula com
artefatos subtraídos dos locais de origem e acha que, desde que aplicados
nos inimigos, golpes abaixo da linha da cintura são perfeitamente aceitáveis.
O segredo da empatia intensa que o personagem forjou com a platéia, contudo,
está em outro ingrediente, inventado pela dupla criadora e lapidado por
Ford: a sua falibilidade física. Indiana apanha do começo ao fim
de seus filmes, e ganha galos, esfoladuras e hematomas em número condizente
com o das surras que toma. Claro que devolve o favor e, no processo, apanha mais
ainda. A conexão do público com esse herói que bate, mas
leva, foi imediata.
Divulgação
Karen
Allen, que retoma o papel de Marion Ravenwood: a melhor personagem feminina da
série
Essa característica
da série sempre exigiu enorme disposição física por
parte do ator. Spielberg é um cineasta que acredita no cinema feito à
velha moda, com cenas de ação protagonizadas, no limite do possível,
pelos próprios atores. Ford, entretanto, tem hoje 65 anos. Quando primeiro
se aventou a hipótese de um quarto episódio para as aventuras do
arqueólogo, já se discutia se, na sua idade, elas pareceriam plausíveis.
Agora, passados catorze anos desde que essa notícia começou a circular,
a questão atingiu um relevo crucial. Não é acaso, então,
que há vários meses Ford esteja numa onda de exposição
pública cujo objetivo nunca declarado, mas evidente, é provar que
ele está em forma e preserva aquela faísca que o personagem exige.
Ford foi com a mulher, Calista Flockhart, ao Oscar, obrigação que
faz de tudo para dispensar, como apresentador e alvo constante das câmeras.
(Numa nota que funcionou como prova de bom humor, virtude que não se costuma
atribuir ao astro, ele teve de ir embora em uma viatura de polícia, já
que o motorista de sua limusine sumiu.) Na mesma noite, apareceu no programa de
Barbara Walters, onde discorreu sobre os vários aviões que pilota
e sobre o menino que adotou com Calista ambas coisas que sugerem vigor
e vitalidade. Não muito antes, Ford fizera uma pequena aparição
num vídeo ultra-irreverente do apresentador Jimmy Kimmel intitulado
Im F***ing Ben Affleck , com uma camiseta justinha, mandando
beijinhos e piscadelas para Kimmel e Affleck e flertando, assim, com a simpatia
da porção mais jovem do público.
Em respeito à inteligência da platéia, O Reino da Caveira
de Cristal se passa em 1957 e leva em conta as quase duas décadas vividas
por atores e personagens desde Indiana Jones e a Última Cruzada.
Mas, pelo sim pelo não, não há entrevista de profissional
ligado ao filme que não inclua menções à jovialidade
do astro. Lucas desafia os interlocutores a distinguir o Ford de antes e o de
agora nas fotos de cena; Shia LaBeouf (segundo boatos, no papel do filho de Indiana)
jura que, apesar de seus 21 anos, não é páreo em agilidade
para o veterano; Karen Allen, que volta à série no melhor personagem
feminino que esta criou, o da durona com coração de manteiga Marion
Ravenwood, diz que o colega é capaz de repetir a mesma cena de ação,
tomada após tomada, sem dar mostra de cansaço. O próprio
Ford anuncia, sem querer querendo, que o figurino é o mesmo dos três
primeiros filmes, e não necessitou de ajustes. Tanto empenho se justifica
pelo fato de que Spielberg tem, sim, razão: Harrison Ford é a peça
central dessa engrenagem, e não há enredo ou seqüência
mirabolante de ação que possa encobrir uma eventual falha sua. Em
uma coisa, pelo menos, a idade certamente trabalhará a favor de Ford. Se
quarentão ele já apanhava bem, como sexagenário presume-se
que apanhe ainda melhor. E aí, afinal, é que está a graça
de Indiana Jones.
SEM CHAPÉU, UM SUJEITO MUITO SÉRIO
A
conservação ambiental é uma de suas paixões, mas o
senhor se recusa a ser porta-voz do movimento. Por quê? Pertenço
ao conselho da Conservation International, que lida com a ciência e a estratégia
da preservação ambiental. Mas não sou o garoto-propaganda
de uma causa; sou um membro ativo de uma organização que usa políticas
e faz gestões junto a governos, corporações e indivíduos
para proteger a biodiversidade. Não preciso subir num palanque para fazer
meu trabalho.
O Brasil é uma
peça fundamental desse quebra-cabeça? Nossos parceiros brasileiros
são muito eficientes e generosos , e temos colhido vitórias
no Pantanal. O problema é que o Brasil é um país imenso.
O outro problema é que muitas das suas áreas de conservação
pertencem a tribos indígenas, o que implica uma miríade de sutilezas
políticas. Algumas dessas tribos têm manejado de forma sensata seus
recursos; outras, não. E o governo mesmo não tem tido muito sucesso
em deter o desmatamento. Quero frisar, aliás, que discutir o seu governo
não é o nosso papel. Nosso papel é trabalhar com quem quer
que os brasileiros elejam.
O cinema
comercial americano, hoje, está se tornando cada vez mais sintético
e impessoal. Por que isso acontece? Veja o caso de Jason Reitman, autor
de dois filmes brilhantes, Juno e Obrigado por Fumar, que divertem
mas também engajam a platéia, sem recorrer a efeitos. Se existem
diretores assim, então talvez o problema não esteja no cinema, mas
na nossa cultura. Talvez faltem a ela hoje profundidade, sinceridade e vitalidade
capazes de atrair os jovens. Talvez por isso eles se isolem nesse mundo de diversão
manufaturada. O que nós precisamos é trazer essas pessoas de volta
para o mundo do contato humano e envolvê-las com a ciência, a invenção,
a economia, a cultura. Mas existe agora uma esperança real de que possamos
reviver este país e dedicar a atenção necessária à
educação dos jovens.
O
senhor está se referindo à eleição presidencial de
novembro? Sim. Toda a esperança depende de uma mudança,
de fazer com que a juventude sinta que há um lugar para ela na cultura
e na sociedade, sem que se peça que sacrifique sua vida num campo de batalha
estrangeiro ou num emprego sem perspectiva.
Quem
deve ganhar a eleição, em sua opinião? Barack Obama.
E
isso o deixa feliz? Me deixa mais feliz. Este país sempre funcionou
melhor sob lideranças messiânicas não no sentido religioso
da palavra, mas no sentido da liderança apaixonada, com foco e energia,
em torno da qual as diferenças se unem.