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Edição 2061

21 de maio de 2008
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Brasil
Marcas de fissura
na blindagem

Caso das propinas está ainda restrito a uma
única área do BNDES. Mas é sério e exige ação


Ronaldo França

A investigação da Polícia Federal sobre a quadrilha que cobrava propinas para a liberação de recursos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) captou uma frase de arrepiar, revelada somente na semana passada: "O pessoal abriu, escancarou a porta". Ela definia, nas palavras do lobista João Pedro de Moura – já devidamente preso –, o sucesso de uma reunião com o vice-presidente do banco, Armando Mariante Carvalho. A pauta incluía um projeto de 800 milhões de reais. Capturada assim, entre as sombras da investigação policial, a frase parece uma acusação de conluio por parte do funcionário público presente à reunião. Tudo leva a crer que não é o caso. A PF ainda não tem provas do envolvimento de nenhum funcionário do banco no esquema e Mariante desfruta boa reputação entre seus colegas. A frase é simbólica, sim, mas por outra razão. Ela revela quão longe a pilantragem conseguiu chegar em direção ao topo da hierarquia do banco, abrindo espaços na agenda até mesmo da vice-presidência. Aí, sim, escancarou-se uma porteira.

O diretor de inclusão social, Elvio Gaspar: presença nas inaugurações e contatos indevidos

Na semana passada, VEJA ouviu quatro ex-presidentes e três ex-executivos do BNDES, a única fonte de crédito barato e abundante no país, com mais de 80 bilhões de reais para emprestar, o equivalente à soma dos orçamentos dos ministérios da Saúde e da Educação. VEJA pediu-lhes uma avaliação sobre quanto a blindagem institucional contra a corrupção pode ter sido rompida. Eles são unânimes em afirmar que os procedimentos internos do BNDES – em português claro, o trabalho dos funcionários de carreira – são rigorosos o suficiente para garantir a integridade nos processos para concessão de financiamento. O conselho de administração (do qual fazia parte o advogado Ricardo Tosto, que foi preso por suspeita de participação no esquema) também não tem poder de influenciar esse tipo de decisão. O mais provável, acreditam, é que os lobistas e consultores tenham usado o BNDES como isca para empresários incautos. Podiam pouco, mas, com sua influência para marcar reuniões e obter informações, alardeavam muito sua suposta facilidade para arrancar dinheiro do banco.

A questão principal é saber por que, de uma hora para a outra, lobistas passaram a circular pelos corredores e uma burocracia sólida, quase litúrgica, começou a dar sinais de relaxamento. De pelo menos dois dos ex-executivos consultados VEJA ouviu uma explicação convincente. Em 2003, o governo Lula promoveu uma reformulação atabalhoada nos cargos de direção do BNDES. Da noite para o dia, trocou todos os diretores e superintendentes. Causou um choque na cultura do banco e removeu de cargos-chave boa parte das pessoas que tinham mais poder para se opor a ingerências indevidas. A contaminação política que o caso demonstra decorre, em parte, daí. É a explicação para a liberdade com que o diretor de inclusão social, Elvio Gaspar, também responsável pela área de crédito, se movimentava entre governadores, prefeitos e parlamentares que freqüentavam seu gabinete. Gaspar é petista e ligado ao grupo do ex-ministro José Dirceu. Além de assinar a liberação de recursos, comparecia às cerimônias nas cidades beneficiadas. Uma das quais, para a prefeitura de Praia Grande, em São Paulo, contou com a intermediação desse grupo, ligado ao deputado federal Paulo Pereira da Silva (PDT-SP). Por pelo menos duas vezes, Gaspar e Paulinho foram vistos juntos, entrando no prédio do banco. Antes mesmo que a atual investigação da PF chegue a uma conclusão, ou que a próxima ponte feita com recursos do BNDES seja erguida, é preciso tapar as fissuras em sua blindagem institucional.



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