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Luiz
Felipe de Alencastro
O imperialismo
americano
"Depois
de fazerem nações poderosas
dobrarem o joelho em vários continentes,
os Estados Unidos lançam uma empreitada
de dominação do planeta"
Ilustração Ale Setti
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O imperialismo americano tal era o tema de livros publicados 100
anos atrás. Ocorrera a Guerra Hispano-Americana (1898), que marcou
a entrada dos Estados Unidos nos quintais europeus. Derrotando os espanhóis,
os americanos meteram a mão em Porto Rico e Cuba e tomaram as Filipinas
e o Havaí, estabelecendo-se como uma potência asiática.
Num livro intitulado O Imperialismo Americano, de 1905, o historiador
francês Henri Hauser salientava a virada histórica. Hauser,
que em 1936 foi professor no Rio de Janeiro, na fugaz Universidade do
Distrito Federal, balizou o tamanho do pulo americano com duas datas:
1783 e 1898. Em 1783, no Tratado de Paris, a Inglaterra reconhecia a independência
dos Estados Unidos. Pela primeira vez na história, os colonos venciam
a metrópole e os americanos expulsavam os ingleses de suas mais
ricas colônias. Um século mais tarde, de novo em Paris, os
Estados Unidos assinavam com a Espanha o tratado de 1898, que encerrava
o conflito entre os dois países: os americanos expulsavam os espanhóis
da América. Na seqüência, John Hay, o secretário
de Estado americano, declarava que os Estados Unidos haviam travado "uma
esplêndida pequena guerra". A frase definiu os conflitos localizados,
com número limitado de baixas americanas, que assentaram o domínio
dos Estados Unidos no mundo.
Em entrevista a VEJA (7 de maio), o ex-prefeito de Nova York Rudolph Giuliani
disse: "Não temos colônias, nunca as tivemos e não
queremos tê-las agora". Não é bem assim, porquanto
os americanos construíram um império informal, permanecendo
dezenove anos no Haiti (1915-1933), 23 anos na Nicarágua (1910-1933),
47 anos nas Filipinas (1899-1946), sem contar a seguida presença
militar noutros países, como China e Cuba, ou expedições
militares no México (1914 e 1916) e na Rússia (1918-1920).
Somando-se aos grandes conflitos (Guerra da Secessão, as guerras
mundiais, guerras da Coréia e do Vietnã), fica patente que
os Estados Unidos constituem uma nação guerreira, em expansão
constante, armada de uma rede mundial fundada em seu poderio militar e
suas bases espalhadas em 41 países. Zbigniew Brzezinski, conselheiro
de segurança nacional no governo Carter, dizia que a URSS se enfraquecera
no plano ideológico e econômico mas continuava forte no plano
militar. Por esse motivo seria tentada a utilizar a força para
conservar suas zonas de influência. Depois disso, os Estados Unidos
afirmaram sua plena hegemonia no campo ideológico, econômico
e militar. Podia-se imaginar que a exibição de seu colossal
aparato bélico seria suficiente para protegê-los das agressões
externas. O 11 de setembro provou o contrário, e as "esplêndidas
pequenas guerras" estão de novo na ordem do dia. Todavia, à
diferença do que ocorria em 1898, existe uma ordem internacional
que os Estados Unidos ajudaram a construir em torno da ONU.
Ora, é precisamente esse quadro internacional que setores influentes
do Pentágono buscam demolir. Em artigo no jornal inglês The
Guardian (21 de março) intitulado "Graças a Deus que
a ONU morreu!", Richard Perle, conselheiro de Donald Rumsfeld, anuncia
a morte "do mito da ONU como fundamento de uma nova ordem internacional".
Pouco depois, no jornal francês Le Monde (2 de maio), o alemão
Jürgen Habermas, talvez o maior filósofo vivo, advertia que
a ONU não deveria aceitar compromissos que legalizassem a guerra
ilegal travada no Iraque. Para Habermas, os conselheiros do Pentágono
propõem uma ruptura verdadeiramente "revolucionária": "O
que distingue os (atuais) neoconservadores (...) é a visão
de uma política mundial americana alheia à via reformista
da política da ONU relativa aos direitos humanos. (Essa visão)
não trai os objetivos liberais, mas rompe as normas civilizadoras
impostas pela Constituição das Nações Unidas".
Duzentos e vinte anos depois do 1783, a II Guerra do Golfo planta em 2003
uma terceira baliza na história americana e mundial. Depois de
fazerem nações poderosas dobrarem o joelho em vários
continentes, os Estados Unidos lançam uma empreitada de dominação
do planeta.
Luiz
Felipe de Alencastro é historiador e professor titular
da Universidade de Paris Sorbonne (abomey@uol.com.br)
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