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Edição 1 803 - 21 de maio de 2003
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Luiz Felipe de Alencastro

O imperialismo americano

"Depois de fazerem nações poderosas
dobrarem o joelho em vários continentes,
os Estados Unidos lançam uma empreitada
de dominação do planeta"



Ilustração Ale Setti


O imperialismo americano – tal era o tema de livros publicados 100 anos atrás. Ocorrera a Guerra Hispano-Americana (1898), que marcou a entrada dos Estados Unidos nos quintais europeus. Derrotando os espanhóis, os americanos meteram a mão em Porto Rico e Cuba e tomaram as Filipinas e o Havaí, estabelecendo-se como uma potência asiática. Num livro intitulado O Imperialismo Americano, de 1905, o historiador francês Henri Hauser salientava a virada histórica. Hauser, que em 1936 foi professor no Rio de Janeiro, na fugaz Universidade do Distrito Federal, balizou o tamanho do pulo americano com duas datas: 1783 e 1898. Em 1783, no Tratado de Paris, a Inglaterra reconhecia a independência dos Estados Unidos. Pela primeira vez na história, os colonos venciam a metrópole e os americanos expulsavam os ingleses de suas mais ricas colônias. Um século mais tarde, de novo em Paris, os Estados Unidos assinavam com a Espanha o tratado de 1898, que encerrava o conflito entre os dois países: os americanos expulsavam os espanhóis da América. Na seqüência, John Hay, o secretário de Estado americano, declarava que os Estados Unidos haviam travado "uma esplêndida pequena guerra". A frase definiu os conflitos localizados, com número limitado de baixas americanas, que assentaram o domínio dos Estados Unidos no mundo.

Em entrevista a VEJA (7 de maio), o ex-prefeito de Nova York Rudolph Giuliani disse: "Não temos colônias, nunca as tivemos e não queremos tê-las agora". Não é bem assim, porquanto os americanos construíram um império informal, permanecendo dezenove anos no Haiti (1915-1933), 23 anos na Nicarágua (1910-1933), 47 anos nas Filipinas (1899-1946), sem contar a seguida presença militar noutros países, como China e Cuba, ou expedições militares no México (1914 e 1916) e na Rússia (1918-1920). Somando-se aos grandes conflitos (Guerra da Secessão, as guerras mundiais, guerras da Coréia e do Vietnã), fica patente que os Estados Unidos constituem uma nação guerreira, em expansão constante, armada de uma rede mundial fundada em seu poderio militar e suas bases espalhadas em 41 países. Zbigniew Brzezinski, conselheiro de segurança nacional no governo Carter, dizia que a URSS se enfraquecera no plano ideológico e econômico mas continuava forte no plano militar. Por esse motivo seria tentada a utilizar a força para conservar suas zonas de influência. Depois disso, os Estados Unidos afirmaram sua plena hegemonia no campo ideológico, econômico e militar. Podia-se imaginar que a exibição de seu colossal aparato bélico seria suficiente para protegê-los das agressões externas. O 11 de setembro provou o contrário, e as "esplêndidas pequenas guerras" estão de novo na ordem do dia. Todavia, à diferença do que ocorria em 1898, existe uma ordem internacional que os Estados Unidos ajudaram a construir em torno da ONU.

Ora, é precisamente esse quadro internacional que setores influentes do Pentágono buscam demolir. Em artigo no jornal inglês The Guardian (21 de março) intitulado "Graças a Deus que a ONU morreu!", Richard Perle, conselheiro de Donald Rumsfeld, anuncia a morte "do mito da ONU como fundamento de uma nova ordem internacional". Pouco depois, no jornal francês Le Monde (2 de maio), o alemão Jürgen Habermas, talvez o maior filósofo vivo, advertia que a ONU não deveria aceitar compromissos que legalizassem a guerra ilegal travada no Iraque. Para Habermas, os conselheiros do Pentágono propõem uma ruptura verdadeiramente "revolucionária": "O que distingue os (atuais) neoconservadores (...) é a visão de uma política mundial americana alheia à via reformista da política da ONU relativa aos direitos humanos. (Essa visão) não trai os objetivos liberais, mas rompe as normas civilizadoras impostas pela Constituição das Nações Unidas".

Duzentos e vinte anos depois do 1783, a II Guerra do Golfo planta em 2003 uma terceira baliza na história americana e mundial. Depois de fazerem nações poderosas dobrarem o joelho em vários continentes, os Estados Unidos lançam uma empreitada de dominação do planeta.

 

Luiz Felipe de Alencastro é historiador e professor titular
da Universidade de Paris – Sorbonne (abomey@uol.com.br)


 
 
   
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