Publicidade
buscas
cidades PROGRAME-SE
Edição 1 803 - 21 de maio de 2003
Ensaio

estasemana
(conteúdo exclusivo para assinantes VEJA ou UOL)
Índice
Seções
Brasil
Internacional
Economia e Negócios
Geral
Guia
Artes e Espetáculos

colunas
(conteúdo exclusivo para assinantes VEJA ou UOL)
Luiz Felipe de Alencastro
Sérgio Abranches
Diogo Mainardi
Roberto Pompeu de Toledo

seções
(conteúdo exclusivo para assinantes VEJA ou UOL)
Carta ao leitor
Entrevista

Cartas
Radar
Contexto
Veja essa
Arc
Gente
VEJA on-line
Datas
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos

arquivoVEJA
(conteúdo exclusivo para assinantes VEJA ou UOL)
Arquivo 1997-2003
Reportagens de capa
2000|01|02|03
Entrevistas
2000|01|02|03


 

Roberto Pompeu de Toledo

E eles ainda
comemoram...

Desculpe o leitor a comparação cansada,
mas a ocupação do Iraque tem mesmo
cheiro de Vietnã

Os postos de gasolina não têm gasolina a oferecer. Nos raros momentos em que têm, ou que surgem rumores de que vão ter, motoristas postam-se em filas de espera que se podem prolongar de um dia para o outro. A luz surge e vai embora com a mesma inconstância. Nas casas, falta gás para cozinhar. Eis a proeza perpetrada pelos Estados Unidos, um mês e pouco depois da tomada de Bagdá: conseguiram introduzir uma crise de energia no país que detém a segunda maior reserva de petróleo do mundo. E não foi só. Também conseguiram transformar o Iraque em importador de petróleo – na emergência, o produto tem sido bombeado do Kuwait. Esses americanos... Parabéns para eles.

À crise de energia acrescenta-se a crise de segurança. Na semana passada, tiroteios eram ouvidos em Bagdá com a mesma freqüência dos dias da guerra. Os tiros seriam de saqueadores ou de grupos fiéis ao antigo regime. Caso se considere isso pouco, acrescente-se a peste. Basra, a segunda maior cidade do país, sofre um surto de cólera. No Iraque falta polícia, falta Justiça, falta burocracia, falta moeda. Também falta água. E faltam salários, porque não há empregos que os justifiquem nem quem os pague. Os Estados Unidos atiraram no que viram – Saddam Hussein – e acertaram no que não viram – toda a complexa teia de leis, deveres, direitos e hierarquias que resultam naquilo que se conhece por Estado. Não há muito exagero, só um pouco, em dizer que o Iraque recuou para o "estado de natureza" tão temido por Hobbes, o filósofo autor do Leviatã – um estado anterior à organização da sociedade, em que o impulso primordial é o cada um por si e os atos de roubar e matar não encontram sanção social a coibi-los.

E eles ainda comemoram... Os americanos ainda comemoram! Outro dia mesmo, o presidente George W. Bush, metido num uniforme de piloto, ele que fugiu da Guerra do Vietnã, desceu de helicóptero num porta-aviões, para fazer discurso de vitória perante a tropa. Um tom triunfalista continua a exalar das manifestações do governo e de boa parte dos meios de comunicação, como se a questão fosse a mera empreitada militar, algo de cujo êxito somente o saudoso Al Sahaf, o desaparecido ministro das Comunicações de Saddam Hussein, duvidou, e não as motivações mal explicadas da guerra, seu custo humano, suas repercussões nas relações internacionais e, sobretudo, o desafio do que fazer com a vitória militar. Soa fátuo e boçal, indigno das tradições democráticas e humanistas dos Estados Unidos, o triunfalismo do fomos-lá-vimos-e-vencemos, ou do ninguém-pode-conosco. Se há um país surrealista, hoje, no mundo, são os Estados Unidos. Que América Latina, que nada. E não se diga que foi o 11 de setembro que lhes virou a cabeça. Ela já estava virada desde que Bush ganhou a eleição por via de fraude e ficou por isso mesmo.

Na semana passada o governo americano tentava um recomeço, na administração do pós-guerra. Trocou o general que, nas poucas semanas em que lhe coube figurar como administrador do país, não ousou pôr os pés fora do antigo palácio de Saddam Hussein onde se entrincheirou atrás de cercas de arame farpado e metralhadoras por um diplomata, mas algumas ilusões já pareciam perdidas. É uma pena, mas os iraquianos não têm nem os olhos puxados nem os instintos ordeiros dos japoneses, além de se mostrarem bem menos hábeis na fabricação de engenhocas que, como os rádios de pilha, propiciaram o milagre japonês do pós-II Guerra Mundial. Com isso, a mais inspiradora das visões da reconstrução do Iraque, a de que ali se implantaria um modelo de ocupação semelhante ao do Japão, semente da prosperidade e da democracia que se seguiram naquele país, foi comprometida.

Se o Iraque não será um novo Japão, também não pode ter o destino de uma colônia pura e simples. Não pode ser o que a Índia foi para os ingleses, nem o que Porto Rico continua sendo para os Estados Unidos, modelos anacrônicos. Sendo assim, em que padrão histórico enquadrá-lo? Desculpe o leitor a comparação cansada, mas o cheiro é mesmo de Vietnã. O atentado terrorista da semana passada, contra um conjunto residencial habitado sobretudo por americanos, na Arábia Saudita, para comemorar a visita do secretário de Estado Colin Powell, foi um lembrete de quanto os americanos foram se incrustar em ambiente hostil. Como no Vietnã, o terrorismo está à espreita. E, também como no Vienã, a estranheza cultural está à espreita. No Vietnã os americanos se viram às voltas com monges budistas que se incendiavam. No Oriente Médio, com aiatolás e terroristas que se explodem junto com o alvo. De novo, os Estados Unidos foram se meter num meio que não conhecem, embalados pela quimera da suposta superioridade de seus valores e embriagados pela fantasia de que podem reordenar o mundo à sua imagem. E eles ainda comemoram...

P.S.: Os Estados Unidos não terem capturado Saddam Hussein não é nada. Nem os sósias de Saddam Hussein eles capturaram!

 
 
   
  voltar
   
  NOTÍCIAS DIÁRIAS