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Roberto
Pompeu de Toledo
E eles ainda
comemoram...
Desculpe
o leitor a comparação cansada,
mas a ocupação do Iraque tem mesmo
cheiro de Vietnã
Os postos
de gasolina não têm gasolina a oferecer. Nos raros momentos
em que têm, ou que surgem rumores de que vão ter, motoristas
postam-se em filas de espera que se podem prolongar de um dia para o outro.
A luz surge e vai embora com a mesma inconstância. Nas casas, falta
gás para cozinhar. Eis a proeza perpetrada pelos Estados Unidos,
um mês e pouco depois da tomada de Bagdá: conseguiram introduzir
uma crise de energia no país que detém a segunda maior reserva
de petróleo do mundo. E não foi só. Também
conseguiram transformar o Iraque em importador de petróleo
na emergência, o produto tem sido bombeado do Kuwait. Esses americanos...
Parabéns para eles.
À
crise de energia acrescenta-se a crise de segurança. Na semana
passada, tiroteios eram ouvidos em Bagdá com a mesma freqüência
dos dias da guerra. Os tiros seriam de saqueadores ou de grupos fiéis
ao antigo regime. Caso se considere isso pouco, acrescente-se a peste.
Basra, a segunda maior cidade do país, sofre um surto de cólera.
No Iraque falta polícia, falta Justiça, falta burocracia,
falta moeda. Também falta água. E faltam salários,
porque não há empregos que os justifiquem nem quem os pague.
Os Estados Unidos atiraram no que viram Saddam Hussein e
acertaram no que não viram toda a complexa teia de leis,
deveres, direitos e hierarquias que resultam naquilo que se conhece por
Estado. Não há muito exagero, só um pouco, em dizer
que o Iraque recuou para o "estado de natureza" tão temido por
Hobbes, o filósofo autor do Leviatã um estado
anterior à organização da sociedade, em que o impulso
primordial é o cada um por si e os atos de roubar e matar não
encontram sanção social a coibi-los.
E eles ainda
comemoram... Os americanos ainda comemoram! Outro dia mesmo, o presidente
George W. Bush, metido num uniforme de piloto, ele que fugiu da Guerra
do Vietnã, desceu de helicóptero num porta-aviões,
para fazer discurso de vitória perante a tropa. Um tom triunfalista
continua a exalar das manifestações do governo e de boa
parte dos meios de comunicação, como se a questão
fosse a mera empreitada militar, algo de cujo êxito somente o saudoso
Al Sahaf, o desaparecido ministro das Comunicações de Saddam
Hussein, duvidou, e não as motivações mal explicadas
da guerra, seu custo humano, suas repercussões nas relações
internacionais e, sobretudo, o desafio do que fazer com a vitória
militar. Soa fátuo e boçal, indigno das tradições
democráticas e humanistas dos Estados Unidos, o triunfalismo do
fomos-lá-vimos-e-vencemos, ou do ninguém-pode-conosco. Se
há um país surrealista, hoje, no mundo, são os Estados
Unidos. Que América Latina, que nada. E não se diga que
foi o 11 de setembro que lhes virou a cabeça. Ela já estava
virada desde que Bush ganhou a eleição por via de fraude
e ficou por isso mesmo.
Na semana
passada o governo americano tentava um recomeço, na administração
do pós-guerra. Trocou o general que, nas poucas semanas em que
lhe coube figurar como administrador do país, não ousou
pôr os pés fora do antigo palácio de Saddam Hussein
onde se entrincheirou atrás de cercas de arame farpado e metralhadoras
por um diplomata, mas algumas ilusões já pareciam perdidas.
É uma pena, mas os iraquianos não têm nem os olhos
puxados nem os instintos ordeiros dos japoneses, além de se mostrarem
bem menos hábeis na fabricação de engenhocas que,
como os rádios de pilha, propiciaram o milagre japonês do
pós-II Guerra Mundial. Com isso, a mais inspiradora das visões
da reconstrução do Iraque, a de que ali se implantaria um
modelo de ocupação semelhante ao do Japão, semente
da prosperidade e da democracia que se seguiram naquele país, foi
comprometida.
Se o Iraque
não será um novo Japão, também não
pode ter o destino de uma colônia pura e simples. Não pode
ser o que a Índia foi para os ingleses, nem o que Porto Rico continua
sendo para os Estados Unidos, modelos anacrônicos. Sendo assim,
em que padrão histórico enquadrá-lo? Desculpe o leitor
a comparação cansada, mas o cheiro é mesmo de Vietnã.
O atentado terrorista da semana passada, contra um conjunto residencial
habitado sobretudo por americanos, na Arábia Saudita, para comemorar
a visita do secretário de Estado Colin Powell, foi um lembrete
de quanto os americanos foram se incrustar em ambiente hostil. Como no
Vietnã, o terrorismo está à espreita. E, também
como no Vienã, a estranheza cultural está à espreita.
No Vietnã os americanos se viram às voltas com monges budistas
que se incendiavam. No Oriente Médio, com aiatolás e terroristas
que se explodem junto com o alvo. De novo, os Estados Unidos foram se
meter num meio que não conhecem, embalados pela quimera da suposta
superioridade de seus valores e embriagados pela fantasia de que podem
reordenar o mundo à sua imagem. E eles ainda comemoram...
P.S.:
Os Estados Unidos não terem capturado Saddam Hussein não
é nada. Nem os sósias de Saddam Hussein eles capturaram!
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