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Edição 1 803 - 21 de maio de 2003
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Karajan radical

Assim foi o maestro austríaco – nas
opiniões políticas e em seu gosto por
carrões e motos

Sérgio Martins

Emil Perauer/DG
Von Karajan pilotando um avião: ele acelerou Beethoven para que coubesse num disco


Como disse o crítico erudito Norman Lebrecht, o maestro austríaco Herbert von Karajan (1908-1989) foi uma figura tão carismática que, depois de sua morte, "as pessoas decretaram o fim da música clássica". É natural, portanto, que Karajan seja o primeiro nome lembrado pelas gravadoras cada vez que elas pensam em ressuscitar esse gênero combalido, que tem dificuldade para atrair novos fãs. Se em antigas versões seus discos vendem ao redor do mundo cerca de 300.000 unidades por mês, versões remodeladas talvez tenham o condão de interessar os jovens pelo repertório clássico. É essa a aposta da Deutsche Gramophon, que acaba de lançar Karajan – The Collection, com dez CDs duplos com o fino do repertório do regente. A graça está nas capas. Elas mostram Karajan pilotando um barco, um avião, uma moto e um carro envenenado. "Herbert era um grande esportista, amava a velocidade. Nos últimos anos de sua vida, ele estava se dedicando ao alpinismo", diz Eliette von Karajan, viúva do maestro.



Essa versão "radical" é apenas uma entre muitas metamorfoses na história do regente. A primeira dessas metamorfoses certamente foi a mais importante. Afiliado do partido de Adolf Hitler durante a II Guerra Mundial, ele não apenas conseguiu evitar que sua carreira entrasse em derrocada depois do fim do conflito, como ainda veio a ser reconhecido como o principal regente do século XX. Isso se deveu em boa parte à sua extraordinária carreira fonográfica. Apesar de não ter sido preso, Karajan foi banido das salas de concerto no pós-guerra. Um produtor inglês argumentou que o veto não se estendia a gravações e atraiu o regente para os estúdios. Lá, Karajan descobriu que os discos seriam a melhor maneira de perpetuar sua fama. Dizem que uma de suas principais inovações – acelerar o andamento ao reger a Quinta Sinfonia de Beethoven – ocorreu pelo desejo de fazer a obra caber num único LP. Para citar novamente Norman Lebrecht, Herbert von Karajan foi o único produto do nazismo que deu certo. E parece que a força de sua imagem ainda não se esgotou.

   
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