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Edição 1 803 - 21 de maio de 2003
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Mal-assombrado

Fantasma do 11 de setembro
apequena o filme de Spike Lee

Isabela Boscov

 
Divulgação
Edward Norton: mea-culpa

O diretor Spike Lee, um nova-iorquino ardoroso, achou que seria oportuno ligar a história de arrependimento de A Última Noite (25th Hour, Estados Unidos, 2002) aos atentados de 11 de setembro de 2001. E foi – em termos. O drama que estréia nesta sexta-feira no país trata das últimas 24 horas de liberdade do yuppie Monty Brogan (Edward Norton), que pela manhã irá para a prisão por tráfico de drogas. Nesse tempo que resta, Monty terá de se despedir de seu cão, de seu pai, de seus dois amigos de infância e de sua namorada porto-riquenha, que pode ou não tê-lo delatado. Essas horas são curtas para cortar tantos laços, mas suficientes para que Monty amargure sua ganância e a ilusão de que poderia viver como viveu sem ser visitado por algum tipo de justiça. Aí haveria um belíssimo filme. E é assim que ele parece em cenas como aquela em que Monty, olhando-se no espelho, destila ódio contra todos os grupos étnicos e sociais que compõem Nova York, das madames brancas aos taxistas paquistaneses – até amaldiçoar a si mesmo. Não é difícil ver onde está a ligação entre esse estado de espírito e os atentados. Pelo sim, pelo não, Lee prefere martelá-la em imagens demoradas do Ground Zero, sublinhadas pela música excessiva de Terence Blanchard. Essa opção pela obviedade apequena a trajetória pessoal de Monty e também a autocrítica que Lee faz como americano. No fim, o que sobra não passa de um lamento: pena que não exista uma 25ª hora (o título original) na qual desfazer os erros das 24 anteriores.

   
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