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A pontaria do livre-atirador
Em
Tiros em Columbine, o
documentarista Michael Moore
criva de balas o modo de
vida americano
Isabela Boscov
AFP
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| Moore,
com sua arma de hoje, a câmera |

Veja também |
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O americano James Nichols é um sujeito comum, que escapou por pouco
de ser condenado pela bomba que, em 1995, deixou 168 mortos num edifício
do governo em Oklahoma City. Hoje, ele planta soja para fazer tofu. Sentado
na sua cozinha, Nichols raciocina: "Se um ladrão entra na sua casa,
você chama a polícia por quê? Porque ela tem armas,
ora. Então elimine o atravessador!". O fazendeiro acha que ter
um arsenal é um direito básico do cidadão. "Esse
arsenal deveria incluir, digamos, plutônio?", pergunta o diretor
Michael Moore. Nichols pára e pensa. "Não. Tem muito louco
por aí", justifica. É engraçado que Nichols não
se inclua no rol dos insanos mais ainda se não fosse trágico,
é o que mostra Tiros em Columbine (Bowling for
Columbine, Estados Unidos, 2002), desde sexta-feira em cartaz no país.
Jornalista, cineasta e provocador profissional, Michael Moore indaga em
seu documentário se os Estados Unidos são uma nação
de loucos por armas ou simplesmente de loucos.
Moore parte do massacre ocorrido na cidade de Littleton, Colorado, em
1999, quando dois estudantes da escola Columbine mataram doze alunos e
um professor antes de se suicidar. Eric Harris e Dylan Klebold eram rapazes
problemáticos, mas de classe média alta. Ou seja, não
há aí um componente socioeconômico. Na ocasião,
procurou-se todo tipo de explicação para o inexplicável.
Terminou-se por condenar os suspeitos de sempre, como os pais distantes,
os filmes violentos e o rock satânico de Marilyn Manson. O que Moore
quer provar é que essas coisas foram tão decisivas para
o surto de Harris e Klebold quanto o fato de, naquela manhã, eles
terem jogado boliche (daí o título original, Jogando
Boliche por Columbine). Para o cineasta, a raiz do problema é
outra: a cultura do medo de que a América se alimenta.
Tiros
em Columbine é uma amostra consumada do estilo de Moore, que
começou como editor de uma revista de esquerda e ficou famoso em
1989, com o documentário Roger & Me no qual perseguia
um executivo da General Motors, a fim de extrair dele uma justificativa
para o fechamento da montadora instalada em Flint, Michigan (a cidade
natal de Moore). Com porte de urso, barba malfeita, roupas folgadas e
o indefectível boné, Moore, de 49 anos, é a personificação
do americano médio, que não tem a menor esperança
de saldar a hipoteca, quanto mais de mandar os filhos para a universidade.
Em Roger & Me e nos programas de televisão que fez a
seguir, TV Nation e The Awful Truth (ambos com financiamento
inglês), a sacada de Moore era sair fazendo ao governo e às
corporações as perguntas que esse "homem pequeno" gostaria
de fazer. Num dos episódios de TV Nation, ele tratava de
um cidadão respeitador das leis, mas que já fora levado
à delegacia dezenas de vezes como suspeito, simplesmente porque
era negro e do tamanho de um armário. Moore fazia os policiais
reconhecer o erro e colar em suas viaturas adesivos que diziam "não
prenderei mais fulano de tal". Daí a fama de demagogo do cineasta.
Seja qual for a pauta, Moore está sempre em cena e tira o máximo
proveito humorístico de suas táticas de guerrilha
o que lhe vale acusações de narcisismo. Seus detratores
também lembram que o sucesso de Moore o deixou rico, e que hoje
ele tem tanto de proletário quanto o alvo maior de seu ódio,
o presidente George W. Bush, contra quem vituperou em seu já célebre
discurso no Oscar deste ano. Moore adora ainda uma estatística
duvidosa, e há várias delas no seu best-seller Stupid
White Men. Essas e outras críticas, porém, não
deveriam ofuscar o seu mérito: o de ser uma voz dissonante (e um
bocado alta) num país em que o cerco pelo consenso aperta a cada
dia.
Moore nem sempre remou contra a maré. Dono de ótima pontaria,
na adolescência ele se filiou à National Rifle Association
(NRA), a organização que advoga o direito ao porte de armas.
Antes de começar a filmar Tiros em Columbine, ele tornou
sua filiação vitalícia, para vigiar de perto o inimigo.
Moore se empenha em mostrar quanto há de loucura no que ele antes
julgava normal. Ao abrir uma conta num banco, ganha um rifle de brinde
e pergunta à caixa se é sensato fazer com que os clientes
andem ali dentro armados. Acompanhado de dois jovens feridos em Columbine,
ele viaja até a sede dos supermercados Kmart. O propósito
é pedir um reembolso pelas balas que os rapazes ainda carregam
no corpo, adquiridas por Eric Harris e Dylan Klebold numa loja da rede
(preço por unidade: menos de 20 centavos de dólar).
Numa das melhores cenas de Tiros em Columbine, Moore vai tirar
satisfações com o presidente da NRA Charlton Heston,
o astro de Ben-Hur. Em pelo menos duas ocasiões, Heston
fez comícios da NRA em cidades que dias antes haviam sido abatidas
por tragédias com armas (entre elas, Littleton). Numa dessas reuniões,
ele é visto dizendo que sua arma só será tirada de
suas mãos quando elas estiverem "frias e mortas". Quando Moore
mostra sua carteirinha da NRA, Heston se desmancha em sorrisos paternais.
Ao perceber que a entrevista é uma arapuca, ele recita respostas
automáticas e vai embora. A imprensa americana falou pouco sobre
o mau gosto de Heston ao agendar seus comícios, e muito sobre a
falta de consideração de Moore em pressionar um velho alquebrado.
Sinal de que as prioridades dessas pessoas andam bem bagunçadas.
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