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Edição 1 803 - 21 de maio de 2003
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O pintor e a feminista

Novo livro de Mario Vargas Llosa fala
de pessoas que buscaram, em vão, o
paraíso na Terra

Marcelo Marthe

AFP
Vargas Llosa: um romance sobre as utopias
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Trechos do livro


Ao batizar seu novo livro, o escritor peruano Mario Vargas Llosa inspirou-se numa brincadeira infantil popular na França do século XIX. Nesse jogo, num cruzamento de ruas, uma criança vendada tem de encontrar um outro participante. Sempre que chega a uma esquina, ela pergunta: "O paraíso é aqui?". Se a resposta é negativa, ela tem de repetir o ritual no cruzamento seguinte. Em O Paraíso na Outra Esquina (tradução de Wladir Dupont; Arx; 494 páginas; 56 reais), que chega nesta semana às livrarias brasileiras, Vargas Llosa usa a brincadeira como alegoria para falar de duas personalidades francesas que devotaram a vida a perseguir ideais radicais, sem nunca alcançá-los: a socialista e precursora do feminismo Flora Tristán (1803-1844) e o pintor pós-impressionista Paul Gauguin (1848-1903). Mas o que esses personagens têm em comum para figurar num mesmo romance? Muita coisa, a começar pelos laços de sangue: Flora foi a avó materna de Gauguin. Além disso, ambos viveram períodos amargos na terra de seus ancestrais, a cidade peruana de Arequipa. Vargas Llosa também nasceu lá – daí seu fascínio por essas figuras.


Flora Tristán passou à história por defender teses ousadas em sua época: pregava que os operários precisavam se unir contra os patrões e que as mulheres deviam ter os mesmos direitos que os homens. Além do discurso subversivo, ela deixou seu marido, o que constituía um crime grave. Depois do fim do casamento, Flora visitou seus parentes no Peru, a fim de reivindicar a herança do pai. Horrorizou-se, no entanto, ao descobrir que seu tio era um caudilho da pior espécie e que não estava disposto a lhe dar um centavo. Seu neto Gauguin, por sua vez, viveu no Peru durante a infância, quando seu pai teve de fugir da França por razões políticas (ele acabaria morrendo, tragicamente, no meio da viagem). Mais tarde, já de volta a Paris, Gauguin abandonou a mulher e os filhos para abraçar a pintura. A fim de libertar sua arte dos "vícios burgueses", ele trocou Paris pela colônia francesa do Taiti, no Oceano Pacífico, onde viveu entre os selvagens maoris e pintou quadros célebres. Esse mergulho na "pureza primitiva", porém, não lhe traria a paz de espírito almejada. No romance, as trajetórias dos protagonistas são narradas paralelamente, em capítulos que se alternam, sob a perspectiva de seus últimos anos de vida. Enquanto fazia suas pregações no interior da França, Flora sentiu os primeiros sinais da doença que a mataria aos 41 anos, impedindo a realização de seus sonhos. Vargas Llosa descreve o fim de Gauguin de forma não menos melancólica. Consumido pela sífilis, ele perde a razão e gasta os anos que antecedem sua morte em querelas patéticas com moradores do Taiti e das Ilhas Marquesas, para onde se mudou.

Um livro como O Paraíso na Outra Esquina não é novidade na carreira de Vargas Llosa. Romances como A Guerra do Fim do Mundo, sobre a Guerra de Canudos, e A Festa do Bode, que fala sobre um ex-ditador da República Dominicana, já lidavam com acontecimentos e personagens históricos. Poucos autores são tão bem equipados quanto o peruano para fazer esse tipo de literatura na atualidade. Isso decorre do fato de se tratar de um escritor polivalente, que domina as técnicas da ficção e as do ensaio. Ele é capaz de recriar o contexto em que Gauguin pintou algumas de suas telas famosas, como Manao Tupapau (leia trecho), e de discorrer de maneira interessante sobre as próprias telas do ponto de vista estético. Tanto sabe trazer Flora Tristán e outras personalidades de seu tempo à vida quanto fazer um inventário das utopias do século XIX ao discutir suas idéias. Dirigindo-se a seus personagens na segunda pessoa, por meio de apelidos carinhosos, Vargas Llosa transmite aos leitores uma sutil sensação de intimidade com eles. E sabe ser convincente mesmo quando deixa a história de lado e dá asas à imaginação. Sua Flora Tristán, por exemplo, descobre o verdadeiro prazer do sexo tardiamente – pelas mãos de uma amante.

 

Obra-prima pagã

"Uma semana depois de terminar sua obra-prima continuava retocando-a, e passava horas inteiras diante da tela. O quadro não revelava uma mão civilizada, européia, cristã. Na verdade, a de um ex-europeu, ex-civilizado e ex-cristão que, à custa de vontade, aventuras e sofrimento, havia expulsado de si a afetação frívola dos decadentes parisienses e voltado às suas origens, esse esplendoroso passado no qual religião e arte, esta vida e a outra, eram uma única realidade. As semanas que se seguiram a Manao Tupapau (foto) foram de uma serenidade de espírito que Paul Gauguin havia muito tempo não desfrutava."

Trecho de O Paraíso na Outra Esquina

 



   
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