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O pintor e a feminista
Novo
livro de Mario Vargas Llosa fala
de pessoas que buscaram, em vão, o
paraíso na Terra
Marcelo
Marthe
AFP
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| Vargas
Llosa: um romance sobre as utopias |

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Ao batizar seu novo livro, o escritor peruano Mario Vargas Llosa inspirou-se
numa brincadeira infantil popular na França do século XIX.
Nesse jogo, num cruzamento de ruas, uma criança vendada tem de
encontrar um outro participante. Sempre que chega a uma esquina, ela pergunta:
"O paraíso é aqui?". Se a resposta é negativa, ela
tem de repetir o ritual no cruzamento seguinte. Em O Paraíso
na Outra Esquina (tradução de Wladir Dupont; Arx;
494 páginas; 56 reais), que chega nesta semana às livrarias
brasileiras, Vargas Llosa usa a brincadeira como alegoria para falar de
duas personalidades francesas que devotaram a vida a perseguir ideais
radicais, sem nunca alcançá-los: a socialista e precursora
do feminismo Flora Tristán (1803-1844) e o pintor pós-impressionista
Paul Gauguin (1848-1903). Mas o que esses personagens têm em comum
para figurar num mesmo romance? Muita coisa, a começar pelos laços
de sangue: Flora foi a avó materna de Gauguin. Além disso,
ambos viveram períodos amargos na terra de seus ancestrais, a cidade
peruana de Arequipa. Vargas Llosa também nasceu lá
daí seu fascínio por essas figuras.
Flora
Tristán passou à história por defender teses ousadas
em sua época: pregava que os operários precisavam se unir
contra os patrões e que as mulheres deviam ter os mesmos direitos
que os homens. Além do discurso subversivo, ela deixou seu marido,
o que constituía um crime grave. Depois do fim do casamento, Flora
visitou seus parentes no Peru, a fim de reivindicar a herança do
pai. Horrorizou-se, no entanto, ao descobrir que seu tio era um caudilho
da pior espécie e que não estava disposto a lhe dar um centavo.
Seu neto Gauguin, por sua vez, viveu no Peru durante a infância,
quando seu pai teve de fugir da França por razões políticas
(ele acabaria morrendo, tragicamente, no meio da viagem). Mais tarde,
já de volta a Paris, Gauguin abandonou a mulher e os filhos para
abraçar a pintura. A fim de libertar sua arte dos "vícios
burgueses", ele trocou Paris pela colônia francesa do Taiti, no
Oceano Pacífico, onde viveu entre os selvagens maoris e pintou
quadros célebres. Esse mergulho na "pureza primitiva", porém,
não lhe traria a paz de espírito almejada. No romance, as
trajetórias dos protagonistas são narradas paralelamente,
em capítulos que se alternam, sob a perspectiva de seus últimos
anos de vida. Enquanto fazia suas pregações no interior
da França, Flora sentiu os primeiros sinais da doença que
a mataria aos 41 anos, impedindo a realização de seus sonhos.
Vargas Llosa descreve o fim de Gauguin de forma não menos melancólica.
Consumido pela sífilis, ele perde a razão e gasta os anos
que antecedem sua morte em querelas patéticas com moradores do
Taiti e das Ilhas Marquesas, para onde se mudou.
Um livro
como O Paraíso na Outra Esquina não é novidade
na carreira de Vargas Llosa. Romances como A Guerra do Fim do Mundo,
sobre a Guerra de Canudos, e A Festa do Bode, que fala sobre
um ex-ditador da República Dominicana, já lidavam com acontecimentos
e personagens históricos. Poucos autores são tão
bem equipados quanto o peruano para fazer esse tipo de literatura na atualidade.
Isso decorre do fato de se tratar de um escritor polivalente, que domina
as técnicas da ficção e as do ensaio. Ele é
capaz de recriar o contexto em que Gauguin pintou algumas de suas telas
famosas, como Manao Tupapau (leia trecho), e de discorrer de maneira
interessante sobre as próprias telas do ponto de vista estético.
Tanto sabe trazer Flora Tristán e outras personalidades de seu
tempo à vida quanto fazer um inventário das utopias do século
XIX ao discutir suas idéias. Dirigindo-se a seus personagens na
segunda pessoa, por meio de apelidos carinhosos, Vargas Llosa transmite
aos leitores uma sutil sensação de intimidade com eles.
E sabe ser convincente mesmo quando deixa a história de lado e
dá asas à imaginação. Sua Flora Tristán,
por exemplo, descobre o verdadeiro prazer do sexo tardiamente pelas
mãos de uma amante.
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Obra-prima
pagã
"Uma
semana depois de terminar sua obra-prima continuava retocando-a,
e passava horas inteiras diante da tela. O quadro não revelava
uma mão civilizada, européia, cristã. Na verdade,
a de um ex-europeu, ex-civilizado e ex-cristão que, à
custa de vontade, aventuras e sofrimento, havia expulsado de si
a afetação frívola dos decadentes parisienses
e voltado às suas origens, esse esplendoroso passado no qual
religião e arte, esta vida e a outra, eram uma única
realidade. As semanas que se seguiram a Manao Tupapau (foto)
foram de uma serenidade de espírito que Paul Gauguin
havia muito tempo não desfrutava."
Trecho
de
O Paraíso na Outra Esquina
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