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Edição 1 803 - 21 de maio de 2003
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Se minha cama falasse...

Pesquisa inédita revela que o
brasileiro quer fazer mais sexo,
sente-se pressionado a satisfazer
o outro e tem dificuldade em lidar
com os problemas debaixo dos lençóis

Daniela Pinheiro


Selmy Yassuda
"Acabou o tabu de a mulher não poder assumir que sente vontade de fazer sexo. É uma questão que aflige a todas. As solteiras, principalmente. O problema é que não há homens interessantes disponíveis. Às vezes, passo meses sem ficar com alguém e estou há um ano sem namorado."
Andréa Cavalcanti, 25 anos, dentista


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Recentemente, uma pesquisa inglesa alardeou mundo afora que os brasileiros são o povo que mais faz sexo no planeta. Não apenas teríamos a maior quantidade de relações sexuais como as faríamos durante mais tempo. A opinião do brasileiro sobre seu próprio desempenho é menos luxuriante. Quando lhe perguntam o que pensa e sente a respeito do assunto, brasileiros e brasileiras dizem que gostariam de transar mais, que ficariam aliviados se soubessem se comportar com maior naturalidade diante dos desafios da cama e, por fim, que morrem de medo de decepcionar o outro na hora H. É o que revela o maior levantamento sobre o comportamento sexual da população já feito no país. O estudo, que VEJA publica com exclusividade, recolheu informações de mais de 7.000 homens e mulheres entre 18 e 70 anos, de todas as classes sociais. Entre as descobertas, está o surpreendente dado de que cerca de 50% dos brasileiros julgam sofrer de algum distúrbio sexual. "É um número estarrecedor. E, infelizmente, apenas 10% deles procuram tratamento. A maioria sofre sozinha", afirma a psiquiatra Carmita Abdo, do Projeto Sexualidade do Hospital das Clínicas de São Paulo, que coordenou a pesquisa. A boa notícia é que para muitos casos existe um tratamento médico eficiente. E mais: alguns problemas podem ser resolvidos com uma simples mudança nos hábitos de vida e na maneira de encarar o sexo.

É de perguntar como há tanta gente em crise sob os lençóis. No entanto, em pelo menos um terço dos casos, a disfunção sexual é apenas uma fase. Pode ser reflexo de um casamento aborrecido, de uma sobrecarga no trabalho, de um trauma pela perda de um ente querido. A decepção com o sexo decorre também de expectativas excessivas sobre o assunto. Por causa de tudo o que se vê na mídia a respeito de sexo, com todo o exagero peculiar a esse campo, muita gente tende a romantizar demais a relação sexual, esperando que ela seja uma válvula de escape infalível para obsessões no campo do romance e da sensualidade. Daí à frustração o passo é pequeno.


Selmy Yassuda
"Na primeira vez, achei que era uma falha natural, como ocorre com todo mundo. Mas, por dias, eu não conseguia manter uma ereção. A impotência é algo devastador, que mexe com seus brios. O médico descobriu que a causa era estresse. Por quatro meses, fiz reposição hormonal, passei a dormir mais e me exercitar. A força da minha mulher foi fundamental na minha recuperação. Hoje, estou curado e já pensamos em ter um filho."
Francisco Trocado,
44 anos, empresário

Segundo a pesquisa, cansaço e rotina são os principais vilões da vida sexual. São capazes de transformar uma cama ardente em frigobar. São tantas as variáveis que podem influenciar os ânimos na cama que até mesmo a pressão para ter uma performance notável se torna um empecilho ao prazer. Como em novelas da TV e em artigos da mídia contam-se preferencialmente histórias de desempenhos extraordinários (solteiras tendo orgasmos fantásticos, maridos enfrentando com galhardia o casamento morno), aquela sua freqüência de uma vez por semana vira piada. A ansiedade de alcançar esse padrão delirante do qual se ouve dizer é capaz de produzir o efeito contrário: a impotência. Há também uma combinação perversa de aspectos físicos, psicológicos e de estilo de vida que pode piorar o desempenho. Perda de hormônios, o fumo e o álcool, doenças como diabetes e estresse, além do onipresente fator emocional, podem estar na origem das dificuldades de transar. O importante é saber que a grande maioria pode se beneficiar dos avanços da medicina. "A parcela de homens para os quais não há tratamento é mínima. E a tendência é diminuir ainda mais. Para as mulheres, a questão é, sobretudo, emocional", afirma Carmita Abdo.


Claudio Rossi
"Minha vida sexual sempre foi satisfatória. Mas, há quatro anos, passei a não atingir mais o orgasmo. Tentava ter relações mais freqüentes e com mais sensualidade. Nada adiantava. Só no ano passado procurei um médico. Eu sofria de depressão e não sabia que a doença poderia afetar o meu prazer. Agora, resgatei minha libido."
Josely de Oliveira, 30 anos, empresária

De acordo com a pesquisa, o brasileiro gosta muito de sexo. A prova de que eles e elas pensam naquilo muito mais do que se imagina é que mais da metade dos homens afirmaram que gostariam de fazer sexo uma ou várias vezes por dia. Para as mulheres, algumas vezes por semana seriam suficientes. Mesmo com tanta vontade, na prática a história é outra. A média nacional é de três vezes por semana, comparável à de países como Alemanha e Estados Unidos. Mas, na teoria, eles querem mais. Em média, as mulheres gostariam de fazer sexo quatro vezes por semana. E os homens, seis. A dentista carioca Andréa Cavalcanti, 25 anos, é uma delas. Bonita e bem-sucedida, há um ano está sem namorado. Ela reclama da falta de parceiros. "Infelizmente, não há homens interessantes disponíveis", diz.

O laboratório Eli Lilly, que patrocinou a pesquisa, quis focar o trabalho nas dificuldades do brasileiro na cama. Como é um assunto sobre o qual as pessoas tendem a se omitir ou a exagerar nas respostas, foi preciso fazer um cruzamento de dados entre as 87 perguntas do questionário para chegar à proximidade de respostas confiáveis. Os resultados indicam que um vexame sexual é uma possibilidade que realmente faz o brasileiro tremer nas bases. Por ele ser vidrado no assunto, a hipótese de um fracasso no rendimento sexual é atemorizante. Para cerca de 80% das mulheres e 70% dos homens, uma crise na cama acabaria com seu amor-próprio, além de atrapalhar o relacionamento com a(o) parceira(o). Diante dos problemas, há um descompasso na reação de cada um. Em caso de falha do parceiro, 31% das mulheres responderam que insistiriam em continuar o ato sexual. Já 41% dos homens afirmaram preferir dar um intervalo para tentar uma nova investida algum tempo depois. "O melhor a fazer é parar e conversar sobre o que está acontecendo. O diálogo franco é fundamental para identificar o problema", afirma o terapeuta carioca Ângelo Novaes. Outro fantasma é não satisfazer o outro. A pesquisa mostra que a maioria absoluta dos homens e das mulheres tem medo de decepcionar o vizinho de travesseiro, mais que de contrair uma doença sexualmente transmissível ou engravidar. "Isso pode ser interpretado como uma resposta à libertação sexual. Mulheres passaram a dar importância ao sexo e os homens, a perceber que era preciso mais que satisfazer apenas a si mesmos", afirma a terapeuta Magdalena Ramos, de São Paulo.


Selmy Yassuda
"Tomar Viagra virou modismo. Tenho vários amigos que já tomaram. Sempre há alguém que arruma um comprimido e distribui no grupo. Todos querem saber qual é o efeito do remédio, ver qual é a reação, esperando o famoso resultado. Eu tomei numa noite, com uma namorada. Não penso em repetir a dose. Acho que, na minha idade, a companhia ainda é o mais estimulante numa relação."
Alessandro Cirne,
26 anos, estudante

É quase paradoxal: as mulheres descobriram que o orgasmo também foi feito para elas, mas a metade ainda passa as noites fingindo prazer, inventando dores de cabeça ou simplesmente olhando para o teto sem sentir nada. Dentre os problemas femininos mais comuns estão falta de desejo, ausência de orgasmo, dificuldade em chegar à excitação e dor durante o sexo. Os índices apontam para um triste cenário. Cerca de 26% delas ignoram o que seja um orgasmo e outros 23% não sentem nenhuma excitação. Mas o que acontece com as mulheres? "A sexualidade feminina é complexa. É uma interação de fatores psicológicos, hormonais e emocionais. Não adianta querer só encontrar causas físicas", diz o psiquiatra paulista Moacir Costa. A empresária paulista Josely de Oliveira, 30 anos, viu subitamente sua vida sexual ir para o ralo. "Eu passei a não sentir mais nada. Fiquei totalmente insensível." Ela precisou fazer um tratamento com o antidepressivo Wellbutrin para voltar aos velhos tempos. "Eu estava depressiva e nem tinha consciência disso. Agora estou ótima", conta.

Para os homens, o problema parece se potencializar. Para eles, a impotência é ainda mais devastadora que o desemprego. É um sinal de derrota e fraqueza. Por isso, toma proporções desmedidas. Segundo revela a pesquisa, os problemas mais comuns são disfunção erétil e ejaculação precoce. Cerca de 45% dos entrevistados não conseguem manter uma ereção em sua totalidade e 26% deles ejaculam em menos de dois minutos. Apesar dos altos índices, há uma curiosidade. De acordo com o estudo, o indivíduo com disfunção sexual tem o mesmo número de relações que um sujeito saudável. "Ele tenta mais vezes, por isso se iguala na freqüência a quem não tem problemas", explica Carmita Abdo. Por quatro meses, o empresário carioca Francisco Trocado, 44 anos, sofreu com a impotência sexual. "A gente se sente muito inferiorizado. Não dá nem para descrever", conta. Depois de uma reposição hormonal, ele recobrou o vigor. "Estou totalmente curado", diz.


Selmy Yassuda
"No início, era uma lua-de-mel constante. O quarto estava sempre à luz de velas, música romântica. Mas a rotina e os filhos esfriaram um pouco nossa vida sexual. Como trabalhávamos muito também, o sexo passou a ter hora e lugar. Isso é algo que pode minar um relacionamento. O desafio é tentar inovar, esquecer as tensões do cotidiano. Sexo é muito importante para a harmonia de um casal."
Flávio Porto,
36 anos, analista de sistemas, com a mulher, Cristina

Felizmente, a oferta de medicamentos para tratar as disfunções sexuais não pára de crescer. Existem no mercado quatro remédios capazes de garantir farras memoráveis aos homens. A diferença entre eles são a duração da excitação e o tempo que demora para começar o efeito do medicamento. O mais famoso desses remédios, o Viagra, precisa ser tomado com antecedência de pelo menos quarenta minutos, e seu efeito chega a seis horas, no máximo. O Cialis dá ao paciente a possibilidade de ter ereção ao longo de 36 horas. Já o Levitra, de acordo com os fabricantes, proporciona uma ereção mais duradoura. Ambos podem ser tomados quinze minutos antes da relação sexual. A vantagem do Uprima é que pode ser usado por cardíacos. A febre dos comprimidos produziu um fenômeno curioso. Surgiu, por inacreditável que possa parecer, uma clientela entre jovens, no auge da potência sexual, que querem tomar os comprimidos para turbinar suas relações sexuais. Trata-se do investimento equivocado em quantidade a qualquer custo. É o caso do estudante carioca Alessandro Cirne, 26 anos. "Virou modismo na minha geração", afirma. Os médicos alertam para o perigo da dependência. "Pode virar uma muleta para encobrir medos e inseguranças. É usar mal algo muito bom", lembra o psiquiatra Moacir Costa. Ao contrário do que ocorre com os homens, para quem os remédios visam a combater causas físicas, a maioria dos tratamentos para mulheres mira nas alterações hormonais que comprometem o prazer. A reposição hormonal, indicada em alguns casos também para homens, melhora sensivelmente o desejo e a lubrificação vaginal, mas há polêmica sobre os riscos do tratamento. O Wellbutrin, o remédio mais famoso, é um antidepressivo que estimula as substâncias responsáveis pela libido com eficiência. A grande promessa, que deve entrar no mercado em 2005, é o chamado "spray do desejo", uma droga que, inalada, promete aumentar a excitação sexual em apenas meia hora.

Pode-se dizer que a ansiedade e a tensão contribuem para a perda de libido e pela impotência em mais da metade dos casos, principalmente em casais jovens. Os analistas de sistemas cariocas Cristina Guedes, de 32 anos, e Flávio Porto, de 36 anos, afirmam que sempre tiveram uma vida sexual intensa. Mas os filhos e a rotina esfriaram a cama do casal. "É difícil evitar que fatores externos influenciem em sua intimidade. O desafio é sempre tentar inovar e esquecer as tensões", diz o marido. Os especialistas são unânimes em afirmar que dar asas à imaginação é um excelente revigorante e realmente pode resolver certas questões. Apimentar o sexo com filmes eróticos e viagens românticas, reservar um tempo só para o casal e curtir o corpo da(o) parceira(o) sem a pressão de ser a Gisele Bündchen e o Brad Pitt surte efeito. "E, principalmente, ter consciência e interesse pelos desejos e pelas necessidades próprias e do outro. Só se tem a ganhar", afirma o psiquiatra Ronaldo Pamplona da Costa. Porque, como prega o velho ditado, mesmo quando não é muito bom, sexo é ótimo.

 

Com reportagem de Silvia Rogar e Danielle Nogueira

 

 

   
 



   
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