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Edição 1 803 - 21 de maio de 2003
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Nos porões do crime

O roubo do saleiro de Cellini, peça
única da ourivesaria da Renascença,
enriquece o acervo de obras-primas
em poder de bandidos

Eduardo Salgado

 
AFP

CELLINI
Obra: Saleiro
Data do roubo: 11/5/2003
Local: Viena, Áustria
Pela rapidez com que foi roubada, a peça pode ter sofrido danos irreparáveis depois de quase cinco séculos de existência

O roubo, na semana passada, do célebre saleiro de ouro feito pelo mestre da Renascença Benvenuto Cellini (1500-1571) é mais um dos mistérios que envolvem obras de arte tão conhecidas que não podem ser revendidas, mas mesmo assim são surrupiadas dos museus. "Tentar vender o saleiro de Cellini seria tão estúpido quanto anunciar a Torre Eiffel no caderno de imóveis de Paris", disse Wilfried Seipel, diretor do Museu de História da Arte de Viena, de onde a preciosidade foi furtada em uma ação criminosa que durou apenas 54 segundos, conforme uma reconstituição do roubo feita pela polícia. Os ladrões aproveitaram que a fachada do museu estava em obras e subiram pelos andaimes até o 2º andar, onde quebraram o vidro da janela e da vitrine que abrigava o saleiro. Quando o alarme soou, um dos guardas mandou desligar o sistema sob a justificativa de que pensava tratar-se de uma pane. Embora a peça de ouro roubada não possa ser comercializada às claras, ela já chegou a ser avaliada em cerca de 60 milhões de dólares. "O saleiro de Cellini, por sua raridade, beleza e história, só pode ser comparado à Mona Lisa, de Da Vinci", disse Seipel.

O diretor do museu pediu ajuda à Interpol. O governo austríaco ofereceu uma recompensa de 70.000 euros por uma informação que leve aos culpados. O museu está disposto a negociar em segredo com os ladrões caso eles se disponham a devolver a peça. O saleiro de Cellini se junta a quadros de Van Gogh, Cézanne, Picasso e Chagall roubados de museus na Europa e nos Estados Unidos e que sumiram das vistas do mundo. Como em outros roubos semelhantes, a polícia austríaca não tem pistas dos criminosos e apenas conjetura sobre suas intenções. A idéia mais recorrente é que, em casos assim, o responsável seja um colecionador louco e poderoso, apaixonado pela obra de um grande mestre e que recorre ao furto para ter uma peça em casa – mesmo que nunca possa exibi-la para nenhuma outra pessoa. Na lista de suspeitos estão criminosos procurados em todo o mundo, como grandes traficantes de drogas e até mafiosos russos. O saleiro de Cellini mede cerca de 26 centímetros de altura e foi feito no século XVI com dezenas de peças de ouro engenhosamente montadas sobre uma estrutura de esferas que permitia a ela deslizar com facilidade sobre a mesa. A peça é extremamente frágil. Seipel acredita que, pela maneira como foi retirada de sua vitrine no museu, ela já tenha sofrido danos. Benvenuto Cellini foi uma das grandes figuras de seu tempo e um escultor cuja arte só foi superada pelos gênios Michelangelo e Donatello. Além do saleiro, apenas quatro outras obras suas sobreviveram. As mais famosas são o busto de Cosimo I e o fabuloso bronze do mitológico Perseu degolando a Medusa. Ambos estão em Florença, cidade onde Cellini nasceu em 1500 e da qual foi expulso aos 16 anos, depois de sobreviver a um duelo.

 
Fotos AP

CÉZANNE

Obra: Auvers-sur-Oise
Data do roubo: 31/12/1999
Local: Oxford, Inglaterra
Um dos grandes expoentes das artes plásticas do século XIX, Cézanne é um dos mais visados pelos criminosos

 
RENOIR
Obra: A Praça de Trinite
Data do roubo: 12/2002
Local: Estocolmo, Suécia
A tela do mestre francês foi encontrada em fevereiro, quando um criminoso tentava vendê-la nos Estados Unidos

VAN GOGH
Obra: Vista do Mar em Scheveningen
Data do roubo: 7/12/2002
Local: Holanda
Com um estilo inconfundível, suas telas são reconhecidas facilmente. Ainda assim, ladrões roubaram várias delas

 

   
 
   
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