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Edição 1 803 - 21 de maio de 2003
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País fascinado pelo ouro

Maior consumidor do metal
nobre no mundo, a Índia gasta
1,5% do seu PIB em jóias

Juliana Simão

O ouro é a paixão dos indianos. Logo que nasce, o bebê ganha uma pulseira dourada como um voto de vida próspera. As jóias pessoais são o único patrimônio de uma mulher, de acordo com as leis do hinduísmo, a religião de 80% da população. Só isso explica que um país pobre como a Índia, no qual um terço da população vive com menos de 1 dólar por dia, seja o maior consumidor de ouro do planeta. O país compra por volta de 700 toneladas por ano – um quinto do mercado mundial – e gasta nisso 8 bilhões de dólares, 1,5% do produto interno bruto (PIB). É o segundo item mais importado, perdendo apenas para o petróleo. Os indianos acumulam 12.000 toneladas do metal, em jóias ou guardado em casa em forma de lingotes. Isso equivale à metade de todo o ouro que existe em cofres de bancos centrais. O comércio em torno de casamentos – quando os indianos literalmente se cobrem de ouro – é tão grande que define o preço do produto nas bolsas de Londres e Nova York.

O metal dourado aparece nos enfeites da roupa da noiva, nos arreios dourados do cavalo branco que o noivo monta nos melhores casamentos e na suntuosa decoração do local da cerimônia. O dote entregue pelo pai da noiva é tradicionalmente em ouro e jóias. De acordo com dados oficiais, em média um matrimônio consome sete anos da renda da família da moça. Na zona rural, onde vive metade da população, quando o pagamento combinado não é integralmente entregue, a família do marido costuma torturar a jovem esposa e chega a matá-la. Essa é uma das razões do alto índice de infanticídio no país. Para evitar despesas futuras, a família mata a filha recém-nascida. Por causa dessas barbaridades, o governo indiano proibiu a instituição do dote em 1961 – mas o costume continua vivíssimo. A maior mudança foi o abandono, entre os indianos mais ricos, do, digamos, padrão ouro. "As classes altas estão trocando o ouro por carros luxuosos, viagens para o exterior e eletroeletrônicos", disse a VEJA Gary Mead, analista sênior da consultoria inglesa Virtual Metals Research & Consulting e autor de um estudo recente sobre o mercado de ouro na Índia.

A profissão de ourives é repassada de pai para filho dentro da mesma casta. "São 400.000 joalheiros em operação na Índia", contou o indiano Pinank Mehta, consultor de grandes fortunas em Bombaim. "Assim como os ocidentais têm médicos de família, os indianos só confiam nos joalheiros de família." Historicamente, há boas razões para a paixão. Durável e fácil de vender, o ouro é uma garantia contra as incertezas da rupia, a moeda nacional. Desde o início da década de 90, quando o governo autorizou depósitos bancários em metais preciosos, a venda de ouro crescia a um ritmo superior a 20% ao ano. Em 2002, pela primeira vez, houve queda. A abertura da economia, que criou novas formas de investimento, como a bolsa de valores, é uma das causas. A principal razão, contudo, foram as chuvas fortes que castigaram o campo, prejudicaram a colheita e diminuíram o poder de compra da população. A expectativa é que o mercado volte logo a disparar. Na Índia, a paixão pelo metal amarelo ainda fala mais alto.

   
 
   
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