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País
fascinado pelo ouro
Maior consumidor do metal
nobre no mundo, a Índia gasta
1,5% do seu PIB em jóias
Juliana
Simão
O ouro é a paixão dos indianos. Logo que nasce, o bebê
ganha uma pulseira dourada como um voto de vida próspera. As jóias
pessoais são o único patrimônio de uma mulher, de
acordo com as leis do hinduísmo, a religião de 80% da população.
Só isso explica que um país pobre como a Índia, no
qual um terço da população vive com menos de 1 dólar
por dia, seja o maior consumidor de ouro do planeta. O país compra
por volta de 700 toneladas por ano um quinto do mercado mundial
e gasta nisso 8 bilhões de dólares, 1,5% do produto
interno bruto (PIB). É o segundo item mais importado, perdendo
apenas para o petróleo. Os indianos acumulam 12.000 toneladas do
metal, em jóias ou guardado em casa em forma de lingotes. Isso
equivale à metade de todo o ouro que existe em cofres de bancos
centrais. O comércio em torno de casamentos quando os indianos
literalmente se cobrem de ouro é tão grande que define
o preço do produto nas bolsas de Londres e Nova York.
O metal dourado aparece nos enfeites da roupa da noiva, nos arreios dourados
do cavalo branco que o noivo monta nos melhores casamentos e na suntuosa
decoração do local da cerimônia. O dote entregue pelo
pai da noiva é tradicionalmente em ouro e jóias. De acordo
com dados oficiais, em média um matrimônio consome sete anos
da renda da família da moça. Na zona rural, onde vive metade
da população, quando o pagamento combinado não é
integralmente entregue, a família do marido costuma torturar a
jovem esposa e chega a matá-la. Essa é uma das razões
do alto índice de infanticídio no país. Para evitar
despesas futuras, a família mata a filha recém-nascida.
Por causa dessas barbaridades, o governo indiano proibiu a instituição
do dote em 1961 mas o costume continua vivíssimo. A maior
mudança foi o abandono, entre os indianos mais ricos, do, digamos,
padrão ouro. "As classes altas estão trocando o ouro por
carros luxuosos, viagens para o exterior e eletroeletrônicos", disse
a VEJA Gary Mead, analista sênior da consultoria inglesa Virtual
Metals Research & Consulting e autor de um estudo recente sobre o
mercado de ouro na Índia.
A profissão de ourives é repassada de pai para filho dentro
da mesma casta. "São 400.000 joalheiros em operação
na Índia", contou o indiano Pinank Mehta, consultor de grandes
fortunas em Bombaim. "Assim como os ocidentais têm médicos
de família, os indianos só confiam nos joalheiros de família."
Historicamente, há boas razões para a paixão. Durável
e fácil de vender, o ouro é uma garantia contra as incertezas
da rupia, a moeda nacional. Desde o início da década de
90, quando o governo autorizou depósitos bancários em metais
preciosos, a venda de ouro crescia a um ritmo superior a 20% ao ano. Em
2002, pela primeira vez, houve queda. A abertura da economia, que criou
novas formas de investimento, como a bolsa de valores, é uma das
causas. A principal razão, contudo, foram as chuvas fortes que
castigaram o campo, prejudicaram a colheita e diminuíram o poder
de compra da população. A expectativa é que o mercado
volte logo a disparar. Na Índia, a paixão pelo metal amarelo
ainda fala mais alto.
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