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As
rainhas das festas
nas embaixadas
Adaptada aos novos tempos do
governo Lula e sob o comando
de embaixatrizes festeiras, a
diplomacia de Brasília retoma
a vida social
Sandra Brasil
Fotos Tina Coelho
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A PROFESSORA GREGA
Antonia Doukas, da Embaixada da Grécia: festeira de primeira e referência
para as embaixatrizes mais novas |
A
ALUNA ESPANHOLA
A bela Ralitsa, embaixatriz da Espanha, que se aconselha com a colega
grega: dedicação aos esportes |
Depois
de oito anos convivendo com Fernando Henrique Cardoso, a comunidade diplomática
de Brasília viveu uma fase de expectativa durante a eleição
presidencial. Se os tucanos vencessem, os embaixadores teriam de se entender
com José Serra, dono de um temperamento fechado e seco, muito diferente
do sedutor FHC. Em caso de vitória do PT, havia dúvidas
mais profundas do que apenas as de caráter pessoal. Alguns embaixadores
manifestavam em conversas informais uma dose de preocupação
exagerada. Temia-se que a relação com alguns países
pudesse sofrer um certo arranhão. Houve até quem achasse
que, apenas por razões ideológicas, a representação
de Cuba acabaria ganhando um destaque especial, desproporcional à
importância comercial da ilha para o Brasil. Lula venceu e, passados
os quatro primeiros meses de governo, as preocupações pré-eleitorais
se dissiparam e o circuito diplomático retomou o tradicional
clima festivo, adaptadíssimo ao governo petista.
Basta conferir os números. VEJA pediu às representações
diplomáticas com sede em Brasília que informassem quantas
festas deram no ano passado e neste ano. Trinta das 94 embaixadas existentes
no Distrito Federal responderam à pergunta. Elas informaram ter
oferecido mais de 700 eventos em 2002, algo como catorze encontros sociais
por semana. Computados os eventos promovidos por essas mesmas trinta embaixadas
nos quatro primeiros meses do ano de 2003, a média permaneceu inalterada:
catorze festas por semana. Ou seja, a Brasília dos embaixadores
continua tão alegre sob a gestão Lula quanto era na fase
FHC. Algumas das embaixadas mais festivas deste ano foram a de Israel,
com dez recepções, a da Espanha, com onze, e a da Alemanha,
com quinze eventos. No dicionário diplomático, "recepção"
é palavra de definição ampla. Ela inclui almoços
e jantares para políticos, promoção de exposições
de arte, coquetéis e as festas propriamente ditas, que reúnem
a elite local, brasileira e estrangeira, em torno de uma celebração.
As festas raramente são dançantes.
Nem
todos os encontros fazem o mesmo sucesso ou produzem os mesmos comentários
positivos. Algumas embaixadas, por empenho pessoal dos titulares, conseguem
agradar mais do que outras. Desde que assumiu em janeiro a chefia do grupo
de países que integram a União Européia no Brasil,
o embaixador Stratos Doukas, da Grécia, promoveu dezesseis recepções
nos primeiros quatro meses de 2003 quase uma por semana. Suas festas
são comentadíssimas e a chave do sucesso é sua mulher,
Antonia, com quem Doukas está casado há 36 anos. Em Brasília,
a embaixatriz Antonia já é tida como a nova "locomotiva"
do mundo diplomático brasiliense. Ela se envolve pessoalmente não
apenas na supervisão dos arranjos para os encontros, mas na decoração
das mesas e na confecção dos pratos. Já preparou
até feijoada. Entrosadíssima na sociedade local, por duas
vezes ultrapassou os limites do restrito círculo diplomático
e aceitou convite para ser jurada de concurso de miss. Antonia morou em
sete países e fala quatro idiomas além do português
fluente, que aprendeu quando morou no Rio de Janeiro entre 1977 e 1981.
"Da primeira vez que morei no Brasil, o Lula era um sindicalista perseguido.
A vitória dele demonstra o amadurecimento do país", avalia
a embaixatriz. Antonia já preparou alguns almoços para ministros
e auxiliares de Lula. Sobre os petistas, comenta que são ótimos
convivas. "Foram todos muito pontuais", diz.
Emivaldo Silva
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A FANTASIA AMERICANA
Donna Hrinak em fantasia no 4 de julho
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Por
causa de seu destaque social, Antonia acabou se tornando uma espécie
de professora das embaixatrizes mais novas. Uma de suas alunas mais notáveis
é Ralitsa Pavlova de Coderch, 27 anos. Natural da Bulgária,
ela é casada há dois anos com o embaixador da Espanha no
Brasil, José Coderch, 28 anos mais velho. A bela e simpática
Ralitsa está fazendo sucesso desde que chegou ao Brasil, em outubro
de 2001. Com 1,78 metro e 63 quilos, ela causa furor por onde passa. A
novata acompanha o marido a pelo menos quatro compromissos sociais por
semana. "Com Antonia, aprendi que preciso ter um livro para fazer três
anotações importantes de cada recepção que
promovo. São elas: os nomes dos convidados, o menu e qual roupa
eu estava usando", afirma Ralitsa, feliz com as atribuições
de embaixatriz. Seu encantamento com o Brasil é tão grande
que planeja desfilar na Mangueira no Carnaval e ter pelo menos o primeiro
filho "brasileirinho". A jovem tem três paixões no Brasil:
o Rio de Janeiro, farofa e pão de queijo. "Cheguei a comer vinte
pães de queijo depois do café-da-manhã. Que perdição!"
Boa jogadora de tênis, Ralitsa torna-se professora nas quadras.
Toda terça-feira, das 8 às 10 da manhã, ensina oito
embaixatrizes a jogar na quadra da Embaixada da Espanha. Dos 12 aos 15
anos e meio, Ralitsa representou a Bulgária em diversos torneios
na Europa. Foi graças ao tênis que conheceu o marido, então
embaixador da Espanha na Bulgária. "Eu tinha 22 anos", conta. Uma
lesão afastou-a do tênis profissional. Para manter a forma,
Ralitsa pratica duas horas de atividade física todos os dias. Intercala
o tênis com golfe, natação, squash e ginástica.
Desde que chegou a Brasília, a embaixatriz já ganhou quatro
torneios, o último em abril, no Clube da Aeronáutica. Ao
todo, participaram 36 tenistas 33 homens e três mulheres.
"Os generais ficaram brincando comigo. Diziam: 'O que vão falar
das Forças Armadas brasileiras, que organizaram um torneio misto
e quem ganhou foi uma mulher?'", diverte-se Ralitsa. Brinca-se em Brasília
que a festa perfeita é aquela organizada por Antonia, da Grécia,
com a presença de Ralitsa, da Espanha.
Os
embaixadores formam um elo direto entre países. Cabe a eles a tarefa
de trocar informações, promover o comércio internacional
e ajudar na condução de contenciosos políticos e
econômicos entre nações. A essas funções
se soma a vida social, que é cansativa. Muitas vezes, são
três jantares na mesma noite. "Os coquetéis são o
terceiro expediente de um embaixador", resume Paulo Tarso Flecha de Lima,
com a experiência de quem foi embaixador do Brasil em Londres, Washington
e Roma durante doze anos. "Nesse meio, festa não pode ser entendida
como futilidade." Quem leva a regra a sério é a embaixadora
dos Estados Unidos no Brasil, Donna Hrinak, que surpreendeu os convidados
que compareceram à festa promovida por sua embaixada para comemorar
o 4 de julho, data da independência dos Estados Unidos, no ano passado.
Ela apareceu com uma roupa que era uma mistura de bandeira americana com
Estátua da Liberdade. Já é grande a expectativa sobre
qual traje Donna vestirá neste ano. Nesse universo estrangeiro,
que raramente se mistura ao mundo dos debates políticos do Congresso
Nacional, há poucos brasileiros além dos integrantes do
governo. Um destaque é a cearense Maria do Carmo Veranneman, que
se casou com o diplomata belga Jean-Michel Veranneman de Watervliet no
começo dos anos 80. No ano 2000, Veranneman de Watervliet voltou
como embaixador. Portanto, a embaixatriz da Bélgica é uma
cearense. E detalhe: animadíssima. Para comemorar o Carnaval deste
ano, Maria do Carmo promoveu um baile à moda antiga para 120 pessoas.
Na festança, escolheu uma fantasia de baiana. "Meu marido disse
que também queria usar algo do Brasil. Vesti-o de malandro carioca,
com cordão dourado e pistola de brinquedo." Ela conta que alguns
embaixadores convidados disseram que o belga estava vestido mesmo era
de traficante do filme Cidade de Deus. Tudo não passou de
uma homenagem ao Brasil. E que homenagem!
Com reportagem de Cynthia Almeida Rosa
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