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Até quem não
deve
entrou na lista
O governo
divulgou uma relação
de devedores da
Previdência que
mistura alhos com bugalhos

Veja também |
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É
dever do Estado perseguir implacavelmente os sonegadores até arrancar
deles o último centavo devido de impostos além de
multá-los e aprisioná-los, eventualmente. Tudo vai mal no
país em que a sonegação cresce e as autoridades,
sem meios para enfrentá-la de forma apropriada, apontam seus canhões
em direção aos que pagam, elevando alíquotas. A administração
tributária no Brasil funciona mais ou menos assim. Embora sejam
perceptíveis alguns esforços feitos pelo governo para mudar
o cenário, os devedores demonstram uma incrível capacidade
de resistência. E essa é uma das razões pelas quais
o país convive com uma das mais elevadas cargas tributárias
do mundo a segunda maior quando se comparam as previdências
sociais. Só perde para Portugal. Na semana passada, numa tentativa
de dimensionar a força da inadimplência, o ministro Ricardo
Berzoini divulgou uma lista com mais de 170.000
nomes de devedores que, juntos, devem 153 bilhões de reais à
Previdência. Ao tornar pública a relação usada
pelo governo para monitorar os devedores, o ministro prestou um grande
serviço. Ficou evidente a necessidade de tocar duas reformas no
campo previdenciário. Uma, aquela já entregue ao Congresso,
com a qual se poderão ajustar receita e despesa. Mas há
que pensar em outra, capaz de reforçar o atual sistema de fiscalização
e efetivamente restituir o dinheiro não pago. Eis um aspecto positivo
relacionado à divulgação da lista.
Há, no entanto, problemas graves ligados a essa divulgação.
Um deles é de natureza técnica. O governo misturou numa
só lista devedores de todos os tipos. Constam ali empresas que
efetivamente sonegaram o recolhimento do imposto previdenciário
e outras que não podem ser definidas como sonegadoras. Ou seja,
os vigaristas representam apenas uma porção da lista completa
de "devedores". Usando uma definição genérica para
qualificar dívidas de origem variada, o governo igualou entidades
de diferente comportamento ético e tributário. Há
na relação empresas falidas, que jamais vão pagar
o que devem. Para efeito tributário, companhia quebrada equivale
a contribuinte morto. O dinheiro não volta. O governo ainda incluiu
na listagem de Berzoini firmas que pagaram os impostos seguindo uma interpretação
que fizeram das leis. Ao verificarem o valor recolhido, no entanto, os
fiscais da Previdência entenderam que o imposto deveria ser calculado
de outra forma. As empresas acabaram autuadas. Em alguns casos, as companhias
multadas decidiram entrar na Justiça para rever a punição,
e já ganharam a ação em primeira instância,
mas seu nome permanecerá lá até o julgamento final
do recurso pelos tribunais superiores. Além do componente de natureza
ética, há um problema de cunho legal. Na semana passada,
o jurista Ives Gandra Martins deu entrevista alertando Brasília
para o risco de uma avalanche de ações contra o governo
movidas pelas empresas indevidamente citadas.
Além de equívocos conceituais, a lista de Berzoini promove
duas confusões, uma delas aritmética. O governo sugere que,
se as companhias estivessem sendo cobradas de forma devida, o país
poderia reforçar o caixa da Previdência em mais de 150 bilhões
de reais, quantia suficiente para tapar o rombo do sistema de aposentadorias
por dois anos. Acontece que as contas não devem ser feitas dessa
forma. A fatia principal da dívida, aquela que entraria nos cofres
públicos se a cobrança fosse realizada em dia, equivale
a 35 bilhões de reais. O resto se deve a multas e juros, correção
monetária e demais débitos ainda em discussão. O
outro equívoco é a ordem em que as empresas aparecem. Por
preguiça ou falta de interesse, o sistema de controle das dívidas
é feito segundo o CNPJ, o número de registro das companhias
na Receita Federal. Por isso, grupos que possuem mais de uma empresa devedora
podem estar diluídos no meio da listagem. Na relação
divulgada na semana passada, há três companhias pertencentes
a um grupo chamado Ruas, da área de transportes, entre as 150 maiores
dívidas. Uma delas, que deve 55 milhões de reais, aparece
em 80º lugar. As outras duas estão em 102º e 133º
lugares. Se as dívidas das três companhias fossem apresentadas
somadas, reunidas em torno do controlador comum, o desconhecido grupo
Ruas saltaria para a vigésima posição, com 134,4
milhões de reais em dívidas mais do que a Previdência
quer receber da Petrobras e da Vale do Rio Doce. Desde que assumiu o cargo,
o ministro Berzoini deu seguidas demonstrações de que pretende
criar uma nova Previdência. Poderia encomendar também uma
nova lista, mais cuidadosa.
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