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A sombra de Lula |
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Marisa Letícia Lula da Silva, 53 anos completados no dia 7 de abril passado, tem rompido velhas barreiras. Depois de ter ficado três campanhas presidenciais escondida nos bastidores, no fundo dos palanques em que o marido arengava às massas, ela apareceu como nunca na última disputa eleitoral. Recebia afagos públicos do marido, debruçava-se à frente dos palanques, acenava aos eleitores e distribuía sorrisos. Sua súbita aparição, com a estampa recauchutada e o figurino escolhido por uma especialista, foi uma estratégia de marketing eleitoral, concebida pelo publicitário Duda Mendonça. O bruxo do marketing petista queria explorar o fato de que Luiz Inácio Lula da Silva mantinha um sólido casamento de 29 anos e isso poderia ter um triplo efeito eleitoral: transmitir a imagem de um homem confiável, humanizar a figura de um político conhecido pela barba e pela carranca e, por fim, amenizar a resistência do eleitorado feminino ao candidato.
Provavelmente, outros fatores contribuíram, mas o fato é que, humanizado, o candidato virou o "Lula, paz e amor". As pesquisas à época mostraram que o eleitor passou a vê-lo como um nome confiável e a rejeição entre as mulheres, em seis meses, caiu de 47% para 31%.
No governo, alçada à condição de primeira-dama, Marisa Letícia quebrou barreiras da aparição: em apenas cinco meses, já foi vista em público mais do que algumas primeiras-damas durante um mandato inteiro. Quando o presidente se dirigiu ao Congresso para entregar as propostas das reformas tributária e previdenciária, lá estava ela ao lado do marido, entre governadores e deputados, chapeuzinho na mão (recomendação da dermatologista) e sorriso nos lábios. Na cerimônia de apresentação de um grupo de novos generais, ei-la novamente, ao lado do marido. Marisa comparece aos tensos salseiros da bancada petista. Testemunha negociações políticas do presidente. Até a uma reunião ministerial já foi, com direito a assento à mesma mesa oval em que se debruçam os ministros. No Palácio do Planalto, ocupa um gabinete colado ao do marido. Em dez segundos, ela deixa sua sala, cruza uma passagem privativa e entra no gabinete presidencial. Não há restrições à sua presença, mesmo que ali estejam reunidos os homens mais poderosos da República.
Nessas ocasiões, Marisa comporta-se com reserva. Na maioria das vezes, ela não diz palavra, não faz nenhum comentário. Só distribui sorrisos ou cumprimentos ou apenas ouve a tudo atentamente. Não há nada, a rigor, que justifique sua presença em cerimônias reservadas. Por que, então, ela está ali? Que papel ela cumpre? "Marisa é o ibope do Lula. Ele gosta de saber o que ela está pensando antes de tomar uma decisão", diz o deputado Luiz Eduardo Greenhalgh, amigo do casal há mais de duas décadas. Há razões mais pragmáticas, no entanto. Se, na campanha presidencial, a presença de Marisa Letícia humanizou a imagem do candidato e diminuiu sua rejeição entre as eleitoras, por que ela não poderia seguir produzindo os mesmos efeitos positivos para o agora presidente?
Na semana passada, VEJA teve acesso a uma pesquisa contendo questões sobre a primeira-dama. Os eleitores ouvidos disseram considerá-la "forte", "solidária", "verdadeira", "do povo". Afirmaram que gostariam de vê-la envolvida em um projeto social, mas também a apoiariam caso decidisse dedicar-se apenas à família. E enviaram um alerta: eles passariam a criticá-la se começasse a se mostrar fútil. Disso não há risco. Marisa Letícia não tem feito nada que produza uma remota impressão de futilidade. Desde que se mudou para Brasília, recusou convites para todas as festas que não fossem oficiais. Não compareceu nem ao aniversário de Mariza, mulher do vice-presidente José Alencar, sua mais assídua companhia na capital. Está se preparando para encarar sua primeira missão oficial um projeto na área social. Deverá assumir a presidência de uma organização não-governamental de apoio ao Fome Zero. Teve o cuidado de só aceitar o encargo depois de obter garantias de que não lhe faltaria tempo para dedicar-se à família.
Os amigos mais próximos dizem que tudo é uma decorrência natural da personalidade da primeira-dama. "Ela nunca foi de badalação", conta Fátima Grana, mulher do sindicalista Carlos Alberto Grana, secretário-geral da CUT, e uma de suas melhores amigas de São Bernardo do Campo. Os amigos também acrescentam que sua prioridade sempre foi mesmo cuidar do marido, da família e da casa. "Ela sempre foi mãezona italiana e quer continuar assim. Quer servir o café para o Lula, ver se ele está malhando, cuidar do regime dele, acompanhar a vida dos filhos e tentar reunir a família o máximo de vezes possível", conta um amigo do casal. Dentro do governo, no entanto, a onipresença da primeira-dama causa certa perplexidade. "Ela não precisava estar em algumas situações. Acho um pouco de exagero, mas ela não fala nem atrapalha", diz um dos mais próximos colaboradores do presidente. Dois ministros ouvidos por VEJA enxergam o dedo de Lula por trás das aparições da primeira-dama. Um diz que o petista tem "um fantástico feeling para perceber as pessoas". Outro lembra que o presidente é dono de "um notável senso de comunicação" e acrescenta que, se Marisa está em todas, "obviamente é porque Lula concorda".
Joedson Alves/AE![]() |
| CONSTANTE
E CALADA Marisa desfila diante dos generais em cerimônia de condecoração: "Acho um pouco de exagero, mas ela não fala nem atrapalha", diz colaborador de Lula |
Se a ubiqüidade pública de Marisa faz bem ao marketing do governo, também faz bem para Lula, que gosta de vê-la por perto. Ao fim de algum discurso, ele sempre olha para ver onde a mulher está. Em muitas ocasiões, principalmente aquelas em que se emociona, Marisa se aproxima e segura sua mão. "Sua atuação não é política. Ela está ali para dar tranqüilidade a ele", diz Frei Betto, outro amigo de décadas. Marisa também não perde o presidente de vista. Quando o número de tietes em volta de Lula está elevado, a primeira providência que toma é chegar perto e laçar-lhe o braço. Quando as atrizes globais simpáticas ao PT se derretem em rapapés ao presidente, Marisa não esconde a contrariedade. Além do assédio feminino, ela também controla a carga horária do marido. No Palácio do Planalto, quando o relógio ultrapassa 9 horas da noite, sai de sua sala para decretar o fim do expediente e levar Lula de volta ao Palácio da Alvorada. "Chega. Agora vamos embora porque amanhã tem mais" é o seu comando preferido.
Marisa insiste para que Lula almoce em casa e reserve os fins de semana para a família. Às vezes, perde a paciência quando alguém se estende numa conversa ou reunião. No início do governo, já instalado no Planalto, Lula estava sondando candidatos a ocupar a presidência de autarquias federais. Depois de uma longa reunião, um político do PT acabou preterido para o cargo e, como prêmio de consolação, quis tirar uma foto com o presidente. Marisa, impaciente para ir embora, não se conteve: "Que foto, que nada! Até os nossos viraram tietes agora". A firmeza de Marisa é algo que Lula preza muito. Ela não é uma pessoa dócil nem esconde o que está pensando. No fim do ano passado, Lula, já eleito presidente, foi a um evento em que estaria presente o então presidente Fernando Henrique Cardoso. Ambos seriam homenageados, mas as loas a FHC prolongaram-se e excederam-se. A diferença de tratamento causou mal-estar na platéia e entalou na garganta de Marisa. Ao final da cerimônia, Ruth Cardoso disse aos organizadores que ela e o marido não ficariam para jantar por causa de outro compromisso. Marisa, disposta a mostrar seu desagrado, nem esperou Ruth terminar de falar e disparou: "Nós também não vamos jantar, não". Enlaçou Lula, e despediram-se.
A figura da primeira-dama já tem mais de dois séculos e surgiu nos Estados Unidos. Por volta de 1790, Martha, mulher do primeiro presidente americano, George Washington, começou a aparecer ao lado do marido em ocasiões públicas e chamar a atenção da imprensa numa emulação republicana dos hábitos da monarquia inglesa, com seus reis e rainhas. Estava garantida a sobrevivência do arquétipo do "casal reinante", tão profundamente entranhado. O termo first lady primeira-dama, em inglês foi usado pioneiramente para designar Lucy, mulher do presidente Rutherford B. Hayes (1877-1881). Ela exemplificava o perfil esperado de uma mulher de presidente: uma presença amável e comportada ao lado do marido, entremeada por compromissos oficiais, visitas a escolas e hospitais e recepções bem organizadas (área em que sobressaía, embora tenha proibido bebidas alcoólicas na Casa Branca, o que lhe valeu o apelido de Lucy Limonada). A figura da primeira-dama tradicional, que cuida dos assuntos domésticos e reforça a imagem de homem de família do marido, continua a prevalecer, em mulheres como Marisa ou a menos visível das primeiras-damas americanas em décadas, Laura Bush. Ao mesmo tempo, já surgiram as primeiras representantes das mulheres com carreira própria, como Hillary Clinton ou Ruth Cardoso. Muitas vezes, elas formam uma espécie de sociedade política com o marido, em favor da qual renunciam a suas atividades profissionais, pelo menos temporariamente a exceção é Cherie Blair, advogada de primeira linha, que continua a trabalhar enquanto o marido, Tony, toma conta do governo britânico. Mulheres brilhantes e ambiciosas costumam causar bastante desconforto, especialmente se parecem influir sobre o marido mais além das conversas de travesseiro. A idéia da "co-presidência", em que o eleitor vota no marido e leva a mulher junto, por mais bem-sucedida que ela seja, teve grande rejeição no caso de Hillary. Os marqueteiros ainda entendem que uma primeira-dama adequada aos interesses políticos deve reunir imagem familiar, elegância sem exageros e trabalho social. Apesar da presença constante nos compromissos do marido, Marisa Letícia não tem destoado desse figurino geral e o governo tem colhido os frutos de sua boa imagem.
Na vida familiar, os Lula da Silva têm tarefas bem divididas. Lula cuida do público, Marisa toma conta do privado. Isso não significa que Lula não ajude nas tarefas domésticas. Até ganhar a eleição, o casal nunca teve empregada (hoje, só no Alvorada, há setenta funcionários à disposição do casal), e o presidente freqüentemente ajudava a lavar a louça e as próprias roupas íntimas. Marisa organizou passeatas quando o marido esteve preso em 1980 e, no mesmo ano, chegou a fazer um curso político na Pastoral Operária e fundar um núcleo de mulheres petistas no Jardim Lavínia, em São Bernardo do Campo, mas não foi além. Lula não gostava. Reclamava que tinha de cuidar das tarefas domésticas e que a mulher estava chegando tarde demais em casa. Quando reúne amigos e familiares no sítio em São Paulo, perto da Represa Billings, ou no Palácio da Alvorada, ela faz tudo para que assuntos políticos não venham à baila. "Viemos aqui para nos divertir", corta ela, quando alguém introduz um tema político.
Marisa funciona mesmo como um filtro para as relações pessoais do presidente. Ela sopra no ouvido de Lula quem são as pessoas que merecem ou não a sua confiança, baseada na impressão que lhe causam. Algumas, como o ministro José Dirceu, chefe da Casa Civil, e o vice-presidente José Alencar, só merecem elogios. Enquanto Lula era bombardeado pela esquerda do PT por ter convidado Alencar para seu vice, Marisa esteve entre as pessoas que apoiaram a iniciativa. "Você vai acertar. Eles são gente boa", dizia ela, incluindo, no uso do plural, a mulher do vice-presidente, sua xará Mariza. Outras pessoas não têm a mesma acolhida. Na sua lista negra, tem lugar cativo o ex-deputado Jair Meneguelli, do PT paulista, que, em sua opinião, só aparece quando precisa de alguma coisa. Também está na lista o franco-argentino Luis Favre, marido da prefeita de São Paulo, Marta Suplicy. Aliás, Marisa detesta ouvir que, após sua remodelagem estética, ficou muito parecida com Marta. Também não gosta que se mencione a própria reforma estética o lifting, que teria feito no ano passado, mas que a primeira-dama jura que não fez.
José Paulo Lacerda/AE![]() |
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DE HONRA Descontração em meio à base aliada do governo depois de almoço na Granja do Torto: "Marisa é o ibope de Lula. Ele gosta de saber o que ela está pensando antes de tomar uma decisão" |
O casal Lula da Silva se dá bem. É comum assistir a cenas de carinho explícito entre os dois, como na foto publicada na semana passada durante um churrasco em frente ao Alvorada, em que Lula amarrava o cadarço do tênis de Marisa. Durante a campanha, quem viajou no avião presidencial via uma cena típica de casais de bem com a vida. Marisa punha a perna em cima das pernas de Lula, e ele ficava acariciando seus pés. À noite, Lula ajuda a mulher a colocar rolinhos no cabelo. Os tempos de harmonia de hoje, porém, contrastam com momentos críticos no passado em que o casamento estremeceu a ponto de quase ruir. Pouco antes da campanha presidencial de 1989, Marisa já não agüentava mais as ligações anônimas que recebia em sua casa. Eram pessoas insinuando que Lula não estava naquela reunião, não tinha aquele compromisso formal mas estivera em outras atividades. Cansada de ficar longe do marido e exausta dos telefonemas, Marisa explodiu. Chegou a procurar um advogado amigo e pediu que preparasse os papéis para a separação. Só depois de muita conversa Lula desmontou a bomba.
No Palácio da Alvorada, Marisa está, aos poucos, dando um toque de sua personalidade. Para a horta, está trazendo frutas típicas dos 27 Estados do Brasil. No jardim, também acrescentou flores de sua preferência. O clima reinante é de informalidade. Marisa é do tipo que oferece fatia de bolo para os funcionários ou os chama, quando não há convidados, para ver um filme no cinema do palácio. Nos momentos de lazer, prefere a companhia dos filhos, que ficaram em São Bernardo do Campo, mas para quem telefona todo santo dia. Nos fins de semana, além da família, Marisa já recebeu a visita de alguns amigos do ABC paulista. Um dos primeiros foi o casal Cidinha e Laerte Demarchi, donos do restaurante que vende frango com polenta em São Bernardo. Cercada pela família e pelos amigos, Marisa aproveita para fazer o que gosta: fumar seu cigarrinho (detesta revelar que é fumante e não se deixa fotografar com um cigarro entre os dedos), tomar uma cervejinha (sua bebida predileta), jogar cartas (adora buraco e mexe-mexe, versão simplificada do jogo) e papear (desde que não seja sobre política). É a única ocasião em que relaxa no regime.
Com 1,61 metro de altura, 60 quilos e boa saúde, segue uma dieta que inclui salada no almoço e no jantar e a proibição de carne vermelha à noite. É o preço que paga para poder comer arroz e feijão todos os dias único prato que, por ordem sua, nunca sai do cardápio da cozinha do Alvorada. O café-da-manhã ela toma bem cedo, logo depois das 6, horário em que acorda. Em seguida, caminha durante uma hora, muitas vezes ao lado do presidente. Entre suas leituras, inclui-se hoje o romance Onze Minutos, do escritor Paulo Coelho, um presente de Aline Mendonça, mulher do publicitário Duda Mendonça.
Sua rotina é sair de um palácio para o outro. Em seu gabinete no Planalto, Marisa abre o computador e escreve e-mails. Passa a maior parte do tempo com Lula. No Alvorada, recolhe-se às 23 horas, depois do jantar ou de uma sessão de cinema. Seu cotidiano é uma continuação da austeridade praticada pela antecessora. Apesar de terem estilos muito diferentes, Ruth Cardoso e Marisa não são dadas ao deslumbramento com o poder. A senhora Fernando Henrique, dona de um doutorado em ciências sociais, desenvolveu um forte trabalho na área social. Marisa, que cursou até a 7ª série, quer ser a primeira-companheira. O recato de ambas contrasta com o comportamento de outras primeiras-damas que passaram por Brasília. Yolanda, esposa do marechal Costa e Silva, costumava promover um chá das 5 no Palácio da Alvorada, acompanhada de uma dúzia de amigas. Especialista no ofidiário palaciano, ficava tocando piano e falando mal de membros do governo. Dulce, mulher do ex-presidente João Figueiredo, era de badalação, num clima plumas e paetês. Na capital federal, ninguém se esquece da festa Um Dia em Hollywood, com direito a cavalo da guarda presidencial e vestidos copiados de filmes americanos. Rosane Collor será eternamente lembrada pelas roupas espalhafatosas, entre outros atributos afinados com o espírito da era Collor.
A sobriedade de Marisa é coerente com sua trajetória modesta.
Filha de um verdureiro e uma dona-de-casa, descendentes de imigrantes
italianos, aos 9 anos começou a trabalhar como babá de duas
filhas de Jayme Portinari, um dos sobrinhos do famoso pintor. Aos 13 anos,
foi embalar bombons na Dulcora, de onde saiu aos 20 para trabalhar na
Secretaria de Educação de São Bernardo. Em seguida,
casou-se com um motorista de táxi, ficou grávida e, no sexto
mês de gestação, perdeu o marido, assassinado num
assalto. Três anos depois da viuvez, conheceu Lula quando foi ao
sindicato pegar um documento. Ela já estava namorando, mas o metalúrgico
insistiu tanto que acabou levando-a para jantar, justamente no frango-com-polenta
dos Demarchi. Casou-se com Lula em 1973 e criou os quatro filhos
um dela, três do casal. Em sua rotina doméstica, Marisa habituou-se
a lavar, passar, cozinhar e carregar sozinha as sacolas de supermercado.
Guarda marcas desse passado e elas não passaram despercebidas
em Brasília. "Marisa é simpática e elegante, mas
tem as mãos estragadinhas", diz uma socialite da capital federal.
Detalhe: esta senhora tentou atrair a primeira-dama para uma festa em
sua casa e não conseguiu convencê-la a comparecer.
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