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Edição 1 803 - 21 de maio de 2003
Diogo Mainardi

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Aonde a vaca vai

"A saída para o país é o campo. Chega
de JK. Chega de nos iludirmos com
fábricas. Não somos páreo para a
indústria mundial. Nosso negócio é
vender cana, café e madeira"

Pago TV a cabo só por causa do Canal Rural. Estou sempre lá. Não mudo nem durante os comerciais. O da ração Fosbovi é muito persuasivo. O do Dectomax, um remédio contra parasitose, também merece minha aprovação. O fabricante até oferece de brinde um chapéu de caubói. O ponto alto da programação, porém, são os leilões de gado. Nunca perco. Virei um vaqueiro de poltrona. Ainda faço certa confusão entre gado limousin, caracu e simental, mas não é raro que consiga acertar a cotação exata de um animal. Na última semana, dediquei-me a acompanhar todos os leilões da feira de gado Expoingá, em Maringá. A Expoingá recebeu 500.000 visitantes, o mesmo número esperado pela recém-inaugurada Bienal do Livro do Rio de Janeiro. Se a Bienal do Livro tem Salman Rushdie e Scott Turow, a Expoingá responde com a dupla sertaneja Teodoro e Sampaio. Se a Bienal do Livro apresenta debates com 150 autores brasileiros no Café Literário, a Expoingá rebate com o leilão de 6.000 bovinos no recinto Ermelindo Bolfer. Entre um debate com autores brasileiros e um leilão de bovinos, é bem mais entusiasmante este último. Eu, por exemplo, nunca desejei comprar um livro depois de ouvir um autor brasileiro. Em compensação, num dos leilões da Expoingá, quase dei um lance para comprar a novilha "Judah". Seu pai chamava-se "Gnomo". Sua mãe, "Vocação". Ela estava "prontinha para o serviço", garantiu o leiloeiro. Foi arrematada por apenas 400 reais. Tanto quanto dez lançamentos da Bienal do Livro, embora o estímulo intelectual proporcionado por uma vaquinha branca, pastando no meio da sala, seja muito maior.

Os brasileiros finalmente estão se conformando com o fato de que a saída para o país é o campo. Enquanto a produção industrial despenca, com desemprego em massa, a agropecuária segura a economia nacional com a maior safra de grãos da história e o bilionário saldo na balança comercial. Chega de JK. Chega de nos iludirmos com fábricas de automóveis, máquinas de lavar e estaleiros. Não somos páreo para a indústria mundial. Nosso negócio é vender cana-de-açúcar, café e madeira. Exatamente como aconteceu nos últimos 500 anos. O pessoal do campo está tão eufórico que o prefeito José Cláudio, logo depois da inauguração da Expoingá, prometeu transformar Maringá na "cidade dos sonhos". Não falta muito para isso. De acordo com a prefeitura, Maringá oferece atrações turísticas como a Avenida Perimetral e o Templo Budista. Há cursos de origami e filatelia. Em matéria de esportes, a cidade acaba de sediar a final da Copa Ecológica de Futsal Feminino. A vida noturna é movimentada, sobretudo no Peixinho's Bar, no Peixinho's Bar I e no Velvet, onde, "na compra de um Redbull, você ganha uma dose de Orloff". Um terço da população tem renda de menos de dois salários mínimos. A mortalidade infantil é de 29,44 por 1.000. O analfabetismo supera os 16%. Nada disso pode atrapalhar os sonhos do prefeito, porém. O futuro do Brasil está na terra. Eu já estou adaptado aos novos tempos. Se me jogarem num leilão de gado, saberei me virar. O único problema é saber que aquelas vaquinhas acabarão no meu prato, depois de serem eletrocutadas e assassinadas com pauladas na cabeça. Nada disso atrapalhará meus sonhos, porém. Sou como Bouvard e Pecouchet, de Flaubert. Vá à Bienal e compre o livro.

 
 
   
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