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Aonde
a vaca vai
"A
saída para o país é o campo. Chega
de JK. Chega de nos iludirmos com
fábricas. Não somos páreo para a
indústria mundial. Nosso negócio é
vender cana, café e madeira"
Pago TV a
cabo só por causa do Canal Rural. Estou sempre lá. Não
mudo nem durante os comerciais. O da ração Fosbovi é
muito persuasivo. O do Dectomax, um remédio contra parasitose,
também merece minha aprovação. O fabricante até
oferece de brinde um chapéu de caubói. O ponto alto da programação,
porém, são os leilões de gado. Nunca perco. Virei
um vaqueiro de poltrona. Ainda faço certa confusão entre
gado limousin, caracu e simental, mas não é raro que consiga
acertar a cotação exata de um animal. Na última semana,
dediquei-me a acompanhar todos os leilões da feira de gado Expoingá,
em Maringá. A Expoingá recebeu 500.000
visitantes, o mesmo número esperado pela recém-inaugurada
Bienal do Livro do Rio de Janeiro. Se a Bienal do Livro tem Salman Rushdie
e Scott Turow, a Expoingá responde com a dupla sertaneja Teodoro
e Sampaio. Se a Bienal do Livro apresenta debates com 150 autores brasileiros
no Café Literário, a Expoingá rebate com o leilão
de 6.000 bovinos no recinto Ermelindo Bolfer.
Entre um debate com autores brasileiros e um leilão de bovinos,
é bem mais entusiasmante este último. Eu, por exemplo, nunca
desejei comprar um livro depois de ouvir um autor brasileiro. Em compensação,
num dos leilões da Expoingá, quase dei um lance para comprar
a novilha "Judah". Seu pai chamava-se "Gnomo". Sua mãe, "Vocação".
Ela estava "prontinha para o serviço", garantiu o leiloeiro. Foi
arrematada por apenas 400 reais. Tanto quanto dez lançamentos da
Bienal do Livro, embora o estímulo intelectual proporcionado por
uma vaquinha branca, pastando no meio da sala, seja muito maior.
Os brasileiros
finalmente estão se conformando com o fato de que a saída
para o país é o campo. Enquanto a produção
industrial despenca, com desemprego em massa, a agropecuária segura
a economia nacional com a maior safra de grãos da história
e o bilionário saldo na balança comercial. Chega de JK.
Chega de nos iludirmos com fábricas de automóveis, máquinas
de lavar e estaleiros. Não somos páreo para a indústria
mundial. Nosso negócio é vender cana-de-açúcar,
café e madeira. Exatamente como aconteceu nos últimos 500
anos. O pessoal do campo está tão eufórico que o
prefeito José Cláudio, logo depois da inauguração
da Expoingá, prometeu transformar Maringá na "cidade dos
sonhos". Não falta muito para isso. De acordo com a prefeitura,
Maringá oferece atrações turísticas como a
Avenida Perimetral e o Templo Budista. Há cursos de origami e filatelia.
Em matéria de esportes, a cidade acaba de sediar a final da Copa
Ecológica de Futsal Feminino. A vida noturna é movimentada,
sobretudo no Peixinho's Bar, no Peixinho's Bar I e no Velvet, onde, "na
compra de um Redbull, você ganha uma dose de Orloff". Um terço
da população tem renda de menos de dois salários
mínimos. A mortalidade infantil é de 29,44 por 1.000.
O analfabetismo supera os 16%. Nada disso pode atrapalhar os sonhos do
prefeito, porém. O futuro do Brasil está na terra. Eu já
estou adaptado aos novos tempos. Se me jogarem num leilão de gado,
saberei me virar. O único problema é saber que aquelas vaquinhas
acabarão no meu prato, depois de serem eletrocutadas e assassinadas
com pauladas na cabeça. Nada disso atrapalhará meus sonhos,
porém. Sou como Bouvard e Pecouchet, de Flaubert. Vá
à Bienal e compre o livro.
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