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"A oligarquia fidelista prepara-se para se transformar nos ricos do futuro, como ocorreu no Leste Europeu" |
Fidel Castro mandou para a cadeia os principais dissidentes de Cuba mas não prendeu Oswaldo Payá, de 51 anos, o mais conhecido deles. O cuidado se deve ao fato de esse dissidente ser uma celebridade internacional. Só neste ano, ele conversou com o papa no Vaticano, encontrou-se com o secretário de Estado Colin Powell, em Washington, e teve seu nome incluído entre os candidatos ao Prêmio Nobel da Paz. O que faz desse católico praticante, que fundou e dirige o Movimento Cristão Libertação, uma referência para o futuro de Cuba é sua bem articulada proposta de uma transição pacífica para a democracia. Payá é também o mentor do Projeto Varella, o abaixo-assinado pedindo abertura política. Em Havana, onde trabalha como engenheiro de manutenção de equipamentos hospitalares, ele não dá um passo sem ser seguido pela polícia. Mas não se deixa intimidar. Ainda menino, foi o único aluno de sua escola primária que se recusou a entrar para a Juventude Comunista. Adolescente, liderou uma manifestação contra a invasão soviética da Checoslováquia, em 1968. Por isso, passou três anos num campo de trabalhos forçados. Casado e pai de três filhos adolescentes, Payá falou a VEJA, por telefone, de sua casa em Havana.
Veja
Recentemente Fidel Castro prendeu e condenou os principais dissidentes
cubanos. Por que o senhor continua solto?
Payá Ninguém sabe dizer. Como o próprio
Fidel Castro já me acusou publicamente de traidor e aliado dos
Estados Unidos, acredito que posso ser preso a qualquer momento. A pergunta
correta deveria ser por que dezenas de pessoas foram presas e condenadas
sem que fossem encontradas com elas bombas nem planos subversivos. O crime
delas foi reclamar seus direitos e expressar suas opiniões. Estamos
chamando esses ativistas de "prisioneiros da primavera de Cuba". A exemplo
do movimento esmagado pelos tanques soviéticos na Checoslováquia
em 1968, estamos lutando de modo pacífico por mudanças.
Veja
Vários políticos e intelectuais fora de Cuba,
incluindo alguns brasileiros, deram apoio a Fidel depois da prisão
de dissidentes e das execuções ordenadas pelo regime cubano.
O que o senhor acha disso?
Payá Esse é um tema espinhoso para nós.
O problema é que sempre houve uma grande desinformação
sobre a realidade cubana. Todo o bloco soviético, incluindo o governo
cubano, foi especialista em lançar uma imagem falsa de nosso país.
O mundo sempre viu Cuba como a ilha da liberdade, povoada de líderes
revolucionários, legendários e românticos. Tivemos
de tudo aqui, menos liberdade e igualdade. Desde o início vigorou
um sistema de castas, no qual a palavra de um único homem sempre
foi incontestável. Por ter apoiado Fidel, infelizmente, a América
Latina tem uma dívida para com os cubanos.
Veja
Por que tão poucos cubanos participam das manifestações
contra as prisões?
Payá Existe uma cultura do medo arraigada em Cuba há
décadas. Os indicadores de insatisfação do povo em
regimes totalitários não são os mesmos de um país
democrático. Não é possível medir o sentimento
do povo cubano por seu silêncio diante das condenações.
E tampouco pelas praças lotadas nas manifestações
convocadas pelo governo. O totalitarismo se expressa por meio de mecanismos
de controle que exerce sobre a população. Posso garantir
que a maioria dos cubanos rechaça essas condenações.
O governo nunca permitiu que o Projeto Varella fosse divulgado nos meios
de comunicação oficiais.
Veja
Por que o senhor decidiu organizar o Projeto Varella?
Payá Porque Cuba precisa de mudanças profundas
e pacíficas que sejam realizadas pelos próprios cubanos.
Não há Estado de direito em Cuba e isso levou a maioria
da população a uma situação de exclusão
dentro do próprio país. O regime controla todos os aspectos
da vida da população. Se um cubano pode trocar de casa ou
de emprego, e o que se pode comprar ou vender até isso está
sob controle. Há uma vigilância completa sobre os cidadãos,
o que inibe qualquer possibilidade de crescimento pessoal ou de liberdade
individual. O Projeto Varella nasceu para que cada cubano possa recuperar
o direito de programar o próprio futuro, sem intervenção
do governo.
Veja
O senhor acredita que uma mobilização pacífica
seja capaz de provocar a abertura política?
Payá Sim, pois nosso projeto é apoiado pela Constituição
cubana. Há um artigo que diz que, se 10 000 cidadãos apoiarem
um projeto de lei, ele deve ser discutido na Assembléia Nacional.
O Projeto Varella, que recolheu 11.000 assinaturas,
consiste em pedir um referendo para que o povo decida sobre mudanças
nas leis para garantir os direitos enunciados na Constituição
e que não são respeitados, como os de liberdade de expressão
e de associação. O segundo ponto é a libertação
dos presos políticos que não tenham atentado contra a vida
de ninguém. O terceiro ponto é permitir que os cubanos possuam
um negócio próprio. Hoje, os estrangeiros podem ter uma
empresa em Cuba, mas esse benefício é proibido aos cubanos.
O quarto ponto é que os cubanos possam escolher livremente os deputados
à Assembléia Nacional. No sistema atual, 609 candidatos,
todos indicados pelo Partido Comunista, concorrem às 609 cadeiras
de deputados.
Veja
Se houvesse uma eleição livre hoje, Fidel seria eleito?
Payá Posso assegurar que não. Por isso o governo
não se atreve a aceitar essa possibilidade. É claro que
Fidel certamente venceria uma eleição com as regras do atual
regime, nesse ambiente de terror. Mas, com liberdade partidária
e de escolha, o resultado seria outro. Foi o que aconteceu em outros países
socialistas, como a Polônia ou a Romênia. O que temos aqui
é um regime que não quer mudar nada e uma população
que precisa de todas as mudanças. E não podemos reduzir
a discussão em termos de esquerda ou direita. É um erro
e um insulto dizer que esse regime é de esquerda. Os homens de
esquerda aqui em Cuba estão presos.
Veja
Muitos dizem que uma reforma política só será
possível em Cuba após a morte de Fidel Castro. O senhor
concorda?
Payá Sim, é o que chamamos aqui de "fatalismo
biológico". É terrível. Quanto mais o tempo passa,
mais aumentam as tensões, a pobreza e o poder econômico da
oligarquia comunista. Neste momento, ela está se preparando para
se transformar nos ricos do futuro, a exemplo do que ocorreu com a classe
dirigente em vários países da Europa Oriental no ocaso do
comunismo.
Veja
O senhor acha que o regime comunista de Cuba não tem futuro?
Payá Não. Aliás, não tem sequer
presente. O regime não tem mais projeto, exceto o de manter seu
poder e seus privilégios. Estamos diante de uma crise insolúvel.
É o antagonismo entre os direitos do povo e essa forma absoluta
de poder. Se chamam isso de comunismo, não vou discutir a teoria.
Veja
Quais são as medidas mais urgentes para tirar o país
da crise econômica e social que ele atravessa?
Payá É preciso reconhecer que Cuba tem suas particularidades.
A produtividade é baixa, assim como os salários, e muito
disso decorre da perseguição a muitas atividades e iniciativas
individuais. Por outro lado, há uma minoria encastelada no governo
e no Partido Comunista que controla toda a atividade econômica,
das empresas estatais à cotação do dólar.
As primeiras medidas, portanto, devem ser para garantir a sobrevivência
da maioria dos cubanos, o que inclui a alimentação. Também
é preciso liberar as potencialidades criativas de trabalho e de
acesso ao próprio negócio dos cubanos. O país está
parado. Os únicos setores em atividade são aqueles que o
governo precisa manter funcionando para assegurar a própria sobrevivência.
É errado supor que essa revitalização seria o primeiro
passo rumo a um amplo programa de privatização, como afirma
o governo. Pelo contrário, com mais impostos, haveria mais empregos,
produção e condições para o Estado investir
nos serviços públicos.
Veja
Como o senhor vai agir, agora que a maioria dos líderes dissidentes
está na cadeia?
Payá Há algo novo, que o medo e o terror não
conseguiram paralisar. Muitas pessoas que estavam trabalhando no Projeto
Varella já avisaram que pretendem continuar. Outras nos procuraram
para dizer que, mais do que nunca, estão dispostas a participar.
Os cubanos começaram a abrir os olhos para a falta de liberdade.
Muitos que apoiavam o governo perceberam que, ao fazer uma crítica,
passaram a ser perseguidos ou excluídos. E, pela primeira vez,
a maioria dos exilados em Miami apóia uma solução
nascida e desenvolvida em Cuba. O fato de termos tantas adesões
mostra que o regime está acabando.
Veja
Os amigos de Fidel dizem que a falta de liberdade é um preço
justo que os cubanos pagam para ter sistemas de saúde e de educação
gratuitos. O senhor concorda?
Payá É preciso lembrar que antes da revolução
Cuba já tinha um dos melhores serviços de educação
e saúde da América Latina, na maior parte geridos por organizações
sem fins lucrativos. Com o regime comunista e a ajuda da União
Soviética, eles foram ampliados, melhorados e se tornaram gratuitos.
O que queremos para o futuro é manter a gratuidade desses sistemas
e construir um novo país com todos os direitos. É um mito
dizer que, para manter esses serviços, o povo precisa sacrificar
tantas liberdades e necessidades materiais. Mesmo porque esses sistemas
gratuitos são apenas uma sombra do que foram no passado. Ou seja,
não temos mais a excelência desses serviços, tampouco
justiça e liberdade. De 1959 para cá, dezenas de países
obtiveram avanços no aspecto social sem sacrificar valores como
a democracia e os direitos humanos.
Veja
O bloqueio econômico americano atrapalha tanto como Fidel alega
ou é apenas uma desculpa para justificar os erros do governo cubano?
Payá O governo americano decretou o embargo em represália
ao confisco de propriedades de cidadãos americanos em Cuba. Só
depois disso Cuba se transformou numa peça do jogo estratégico
da Guerra Fria. A ajuda soviética fez com que o governo cubano
ignorasse o bloqueio americano durante anos. O tema do embargo só
foi retomado com o fim da União Soviética. Nunca apoiei
o bloqueio ou qualquer outra lei americana como forma de pressionar por
mudanças em Cuba. As reformas devem ser discutidas e feitas por
cubanos. É claro que o embargo tem sido um recurso político
usado pelo regime. Mas é preciso lembrar que, além do embargo
americano, há um outro o do governo cubano contra a própria
população do país. Os cubanos não podem viajar,
nem fazer negócios livremente com o Brasil, por exemplo. Mas o
governo cubano pode. Ou seja, não é correto que estrangeiros
tenham direito de montar uma empresa aqui, enquanto os cubanos continuam
excluídos desse e de outros direitos em seu próprio país.
Veja
Se os EUA tentassem fazer com Cuba o que fizeram no Iraque, os cubanos
lutariam por Fidel?
Payá Essa pergunta sobrepõe duas realidades que
parecem ser a mesma coisa e, na verdade, não são. Uma coisa
é Fidel Castro, a outra é o povo cubano. Não queremos
intervenção estrangeira, tampouco esse regime que aí
está. Também não desejamos escolher entre uma coisa
e outra. Já fizemos nossa opção: queremos mudanças,
liberdade, democracia, transformações pacíficas e
diálogo nacional.
Veja
O senhor tem sido ameaçado pelo regime?
Payá As ameaças são públicas. O
governo se refere ao Projeto Varella como uma manobra bancada pelos Estados
Unidos, e a mim como um "líder contra-revolucionário". Há
vigilância em redor da minha casa. Chega a ser ridículo.
Quando saio de bicicleta, o meio de transporte que costumo usar, sou sempre
seguido por uma frota de carros com agentes do governo. Há alguns
meses, levei um susto: havia uma ameaça de morte pintada na parede
da sala em tinta vermelha, imitando sangue. Também trancaram a
porta do lado de fora com pregos.
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Por que o senhor não foi para o exílio?
Payá Aqui em Cuba não se pergunta por que você
vai embora, e sim por que quis ficar. A opção de ficar é
de fato um perigo e um sofrimento para minha família. Mas foi aqui
que Deus me pôs e meu compromisso é ficar no meu país
e com meu povo. Minha fé me sustenta aqui.
Veja
O que Fidel Castro teria a aprender com o presidente Luiz Inácio
Lula da Silva, que sempre foi seu admirador?
Payá Ele poderia aprender a se submeter a eleições
livres com vários candidatos, para que os cubanos tenham a oportunidade
que tiveram Lula e o povo brasileiro de exercer a alternância de
poder. Se no Brasil existisse um regime como o de Cuba, os brasileiros
nunca poderiam ter fundado sindicatos independentes nem ter criado o Partido
dos Trabalhadores. Em suma, o governo nunca deixaria que um líder
sindical como Lula emergisse e chegasse à Presidência.
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