
estasemana
colunas
seções
arquivoVEJA
 |
 |
| (conteúdo
exclusivo para assinantes VEJA ou UOL) |
 |
|
|
Sérgio
Abranches
A
inteligência
da agricultura
"A
Embrapa não pode parar, sobretudo
em um governo que pretende alcançar
a meta de fome zero"
Ilustração Ale Setti
 |
Nos anos 70, o cerrado era um quase deserto, uma savana rala e despovoada.
A BelémBrasília, um corte vermelhão em direção
"ao continente perdido". Miragens da geração perdida dos
50. Hoje, o cerrado é responsável por quase metade dos grãos
produzidos no Brasil. A BelémBrasília leva à
fronteira agropecuária de alta produtividade e alto crescimento.
A agricultura brasileira passou por enormes transformações
estruturais tecnológicas e empresariais. Ocupou espaços
considerados impróprios para plantação ou criação.
Uma mudança que teve por trás muita inteligência.
Em 1973, um amigo meu, Carlos Baldijão, fazia pós-doutoramento
em bioquímica em Cornell, nos Estados Unidos, onde eu estava também.
Usava porcos em suas experiências. Ficávamos impressionados
com a qualidade dos suínos de lá. A produção
brasileira era de má qualidade e irrisória. Em 2001, produzimos
2,2 milhões de toneladas e exportamos 476 000 toneladas de uma
carne suína de muito melhor qualidade e com menos colesterol.
Quem acha que galinha caipira é aquele animal de carne dura e baixa
capacidade reprodutiva, que bota não mais que oitenta ovos por
ciclo reprodutivo, comparados aos 330 ovos da galinha industrial, é
porque não conhece a galinha 051. É uma caipira capaz de
pôr entre 280 e 300 ovos e que pode ser criada nas condições
de uma caipira comum. Nossa produção de frango em 1990 era
de 13,6 quilos por habitante. Em 2002, foi de 33,8 quilos. Somos o segundo
maior exportador mundial, abaixo apenas dos EUA. A exportação
deles cresceu 4,3% entre 1997 e 2002. A nossa, 146%. Esse frango come
ração de alta tecnologia, que tem milho e soja resultantes
de grande avanço genético.
Nossa carne, vinte anos atrás, era de baixa qualidade, e o garrote
típico ficava velho antes de se tornar pesado, dando carne dura.
Hoje, a produtividade de nosso plantel rivaliza com a dos melhores do
mundo. Nosso bezerro é rústico, fácil de criar, precoce,
vai para o abate ainda jovem, produz carne de boa qualidade e macia.
Quando olhamos as vacas brasileiras no pasto, não estamos vendo
tudo. O capim que elas comem é de uma espécie adaptada às
condições climáticas e ao solo daquela região
específica. O animal vem de uma linhagem de alta biotecnologia
e bioengenharia, acopladas a apurada seleção desenvolvida
por pesquisadores qualificados e produtores modernos.
A mesma história pode ser contada para caprinos e ovinos, trigo,
milho e cevada, hortaliças, feijão e frutas. Por todo lado
vemos a agricultura brasileira em franco progresso, sobretudo tecnológico,
aumentando produção, produtividade e qualidade. Alguém
quer plantar girassol de alta produtividade e mais resistente a doenças?
Que tal experimentar o BRS 191, híbrido simples de girassol, precoce
e com alto teor de óleo? Soja? Somos o maior produtor de baixo
custo do mundo. Neste ano produziremos mais que os americanos. Temos espécies
apropriadas para o cultivo em cada Estado produtor: a BRS 205 é
para o Rio Grande do Sul, e a BRS 206, para o Mato Grosso do Sul. Nossa
produção de grãos aumentou 94% entre 1990/1991 e
2002/2003 e a área plantada, somente 12%, um ganho de produtividade
de 73%.
Todos os exemplos de novas espécies, animais e vegetais, são
mais resistentes às principais doenças e pragas que tipicamente
atacam as criações e culturas brasileiras.
O que eu ainda não disse é que no DNA de todo esse progresso
técnico, do capim às vacas, do abacaxi ao feijão
nordestino, de todas as BRS, está impresso "made by Embrapa" ou
"em parceria com a Embrapa". Essa empresa estatal de serviços de
alta qualificação é a inteligência por trás
da agricultura brasileira. É claro que tal avanço não
seria possível sem bons empresários, e os melhores desenvolvem
sua própria capacidade tecnológica. Mas não conheço
um caso de produtor brasileiro, pequeno, médio, grande ou enorme,
que não se tenha beneficiado do trabalho da Embrapa.
Os projetos que a empresa toca e que dão continuidade ao imenso
progresso técnico já conquistado estão ameaçados
de paralisação por falta de recursos. Uma ameaça
não só de estagnação, mas, em muitos casos,
de regresso. O governo tem de saber que existem cortes que causam danos
irreversíveis à saúde econômica do país.
A Embrapa não pode parar, sobretudo em um governo que pretende
alcançar a meta de fome zero. Mas está, também, na
hora de os empresários reconhecerem que no DNA de sua riqueza atual
há boa dose dessa inteligência subsidiada. Vale um esforço
maior de parceria ao inverso, patrocinando parte desse patrimônio
tecnológico imperdível. Esse pode ser o grande teste da
inteligência empresarial do campo brasileiro.
Sérgio
Abranches é cientista político
(sergioabranches@sda.com.br)
|
|
 |