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Edição 1 803 - 21 de maio de 2003
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Um soco nas instituições


AFP
Menem, ao anunciar sua desistência, na semana passada: prejuízo para a democracia argentina e para a imagem do continente

Se a enfermidade mais resistente da América Latina é mesmo a debilidade institucional, há tempos a Argentina está no hospital. Na semana passada, a desistência de Carlos Menem de disputar o segundo turno das eleições revelou-se um gesto de desprezo pelas instituições democráticas argentinas no momento em que elas mais precisam ser protegidas. Não foi apenas uma despedida melancólica da vida pública de um político que por dez anos, de 1989 a 1999, presidiu seu país, deixando um legado controvertido de inegável modernização econômica, escândalos pessoais e desastres administrativos. A manobra de Menem para se livrar de uma derrota certa nas urnas para o pouco conhecido Néstor Kirchner no segundo turno das eleições custará muito aos argentinos e, por extensão, à América Latina.

Como mostra uma reportagem da presente edição de VEJA, Menem perderia para Kirchner por uma diferença de 30% a 40% dos votos válidos. Seria massacrado nas urnas. Mas delas o ex-presidente poderia sair vitorioso, como alguém que sacrificou sua imagem de político jamais derrotado em eleições majoritárias em benefício do fortalecimento democrático e do interesse nacional. Faltou grandeza a Menem. O ex-presidente entronizou-se na numerosa galeria de políticos e mandatários argentinos oportunistas e desastrados em que figura, para citar apenas o caso mais dramático, um general-ditador (Leopoldo Galtieri) que, em 1982, em meio a uma bebedeira, decidiu declarar guerra à Inglaterra, uma potência militar e econômica.

O episódio da fuga de Menem da derrota inevitável contrasta fortemente com o Brasil atual, que deu um exemplo impecável de alternância de poder em 2002. O Brasil tem hoje em Luiz Inácio Lula da Silva um presidente que está comandando uma política econômica em franca oposição a suas convicções ideológicas históricas, por se convencer de que ela é a mais apropriada para o bem-estar da maioria dos brasileiros. Resta torcer para que, com a chegada de Néstor Kirchner à Casa Rosada, a Argentina esteja inaugurando um novo ciclo em que as instituições se tornem mais fortes que a vaidade, o despreparo e o interesse menor dos políticos.

 
 
   
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