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Um soco nas instituições
AFP
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| Menem,
ao anunciar sua desistência, na semana passada: prejuízo para a democracia
argentina e para a imagem do continente |
Se a enfermidade
mais resistente da América Latina é mesmo a debilidade institucional,
há tempos a Argentina está no hospital. Na semana passada,
a desistência de Carlos Menem de disputar o segundo turno das eleições
revelou-se um gesto de desprezo pelas instituições democráticas
argentinas no momento em que elas mais precisam ser protegidas. Não
foi apenas uma despedida melancólica da vida pública de
um político que por dez anos, de 1989 a 1999, presidiu seu país,
deixando um legado controvertido de inegável modernização
econômica, escândalos pessoais e desastres administrativos.
A manobra de Menem para se livrar de uma derrota certa nas urnas para
o pouco conhecido Néstor Kirchner no segundo turno das eleições
custará muito aos argentinos e, por extensão, à América
Latina.
Como mostra
uma reportagem da presente edição de VEJA, Menem perderia
para Kirchner por uma diferença de 30% a 40% dos votos válidos.
Seria massacrado nas urnas. Mas delas o ex-presidente poderia sair vitorioso,
como alguém que sacrificou sua imagem de político jamais
derrotado em eleições majoritárias em benefício
do fortalecimento democrático e do interesse nacional. Faltou grandeza
a Menem. O ex-presidente entronizou-se na numerosa galeria de políticos
e mandatários argentinos oportunistas e desastrados em que figura,
para citar apenas o caso mais dramático, um general-ditador (Leopoldo
Galtieri) que, em 1982, em meio a uma bebedeira, decidiu declarar guerra
à Inglaterra, uma potência militar e econômica.
O episódio
da fuga de Menem da derrota inevitável contrasta fortemente com
o Brasil atual, que deu um exemplo impecável de alternância
de poder em 2002. O Brasil tem hoje em Luiz Inácio Lula da Silva
um presidente que está comandando uma política econômica
em franca oposição a suas convicções ideológicas
históricas, por se convencer de que ela é a mais apropriada
para o bem-estar da maioria dos brasileiros. Resta torcer para que, com
a chegada de Néstor Kirchner à Casa Rosada, a Argentina
esteja inaugurando um novo ciclo em que as instituições
se tornem mais fortes que a vaidade, o despreparo e o interesse menor
dos políticos.
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