Do mesmo cálice

Um paralelo entre a trajetória do vinho
e a história da humanidade

José Bonifácio de Oliveira Sobrinho

A História do Vinho, de Hugh Johnson (tradução de Hildegard Feist; Companhia das Letras; 546 páginas; 72 reais), é uma saborosa narrativa sobre a relação da humanidade com o vinho. Não é um guia ou um manual sobre vinhos. Não é uma enciclopédia. É história! E história imperdível para apaixonados e mesmo para aqueles que, sem se interessar por vinhos, apreciam perspectivas novas sobre interesses que determinaram a trajetória da civilização.

O jornalista inglês Hugh Johnson é um perfeccionista e, certamente, o mais completo autor da atualidade especializado em vinhos. Seus livros têm merecido edições contínuas. Seu programa de televisão no Canal 4, de Londres, é considerado o melhor e o mais sofisticado sobre o tema. Anualmente Hugh Johnson edita seus guias de bolso que, práticos e corretos, se esgotam rapidamente.

O trabalho de Hugh Johnson em A História do Vinho dificilmente será superado, tal a profundidade e riqueza de detalhes fornecidos por uma ampla e completa pesquisa. A História do Vinho é para ser sorvida lentamente, enquanto os aromas de algumas questões nos levam a boas reflexões.

Porre histórico Por que, por exemplo, o vinho, mais que outros elementos tão antigos como ele, se tornou tão sedutor e divinizado? A primeira e óbvia constatação é que o vinho tem o poder de eliminar preocupações. Diz Johnson: "O vinho, durante muito tempo, foi a única fonte de conforto e coragem, o único remédio, o único meio disponível para combater o cansaço e a tristeza, enfim, o principal luxo da humanidade". E, como bebida alcoólica, é muito superior pela infinita diversidade de seus aromas e sabores. O vinho é sedutor e divino. Seduz porque é vivo. É divino porque é mistério. Se Noé plantou as primeiras vinhas, pergunta Johnson, de onde as trouxe? Onde vivia Noé antes de fazer o seu vinho e, peladão diante das filhas, curtir o primeiro porre histórico? São nebulosas as origens do vinho como é nebulosa a nossa própria origem. Com muitas incertezas e algumas semelhanças temos vivido juntos desde o dilúvio. É a história dessa convivência que Johnson relata. É uma degustação vertical que vai da primeira experiência alcoólica do homem até as conquistas tecnológicas deste final de milênio, passando por todas as épocas e países do mundo. Qual uma Sherazade moderna, Hugh Johnson, misturando humor, aventura, política, guerra, mitos e realidade, constrói capítulos que fazem você ficar ansioso para ir direto aos próximos. Com a companhia dos bons vinhos poderemos ler e reler várias vezes o livro A História do Vinho, transformando-o em mais de mil e uma noites de prazer e saber. Com a sua leitura estaremos bebendo conhecimento.

Uma poção mágica

"Esta é uma história humana. Começa com o vinho sendo adorado como um ser sobrenatural, o portador da alegria. Galga os cumes da inspiração dramática e mergulha nas profundezas da fraude, embriaguez, traição e homicídio. Remete a ardorosas convicções espirituais, nenhuma tão passional quanto a convicção islâmica de que o vinho é uma dádiva grande demais para este mundo. Surpreende o médico em sua tarefa de curar, o político no ato de trapacear, o monge em sua cela e o marinheiro cruzando o oceano."

Trecho de A História do Vinho, de Hugh Johnson





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