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Onde você aprendeu isso?Filhos procuram os pais
A professora terminava uma conta matemática no quadro-negro
quando ouviu a pergunta: "Tia, o que é sexo oral?" No fundo
da sala, dedo levantado, cabelo preso com fivelinhas, a aluna de 10 anos,
da 4ª série do Colégio Lourenço Castanho, em São Paulo, esperava a resposta.
Surpreendida pela indagação, a professora virou-se e deparou com sessenta
olhinhos atentos aguardando a explicação. Sua resposta foi direta e aparentemente
satisfez a curiosidade das crianças: "Sexo oral é quando, numa relação
sexual, a mulher ou o homem beijam as partes íntimas um do outro".
Apesar do desempenho notável, a professora saiu da sala aturdida: "Onde
ela aprendeu isso?" É difícil saber, já que o tema sexo está por
todo lado. Na televisão, nas músicas de duplo sentido do axé e do pagode,
na roupa e nos trejeitos da Tiazinha e na internet. Tudo isso tem feito
com que as crianças travem um contato precoce com imagens e expressões
ligadas ao sexo. Como esse é um dado inescapável da realidade, o que podem
fazer os pais diante do desafio?
Quando os adultos de hoje tinham entre 7 e 12 anos de idade, vez por
outra alguém procurava o pai ou a mãe para tirar dúvidas sobre reprodução,
provavelmente levantadas depois de uma aula de anatomia na escola. As
perguntas mais freqüentes eram do tipo "De onde eu nasci?" ou
"Como a gente sai da barriga da mamãe?" Não eram todos que perguntavam,
e muitos pais receavam que uma resposta mal formulada despertasse uma
indesejável curiosidade adicional pelo sexo. As dúvidas que realmente
contam, essas que começam a pipocar com maior intensidade, em geral eram
tiradas com amigos e amigas. Hoje em dia, as questões de caráter biológico
são tidas como "fáceis" pelos pais. O problema é que surgiram
outras bem embaraçosas.
Constrangimento – Com freqüência cada vez maior, a criançada da faixa etária que vai do início da idade escolar ao início da adolescência tem procurado os adultos para explorar questões que nada têm a ver com os caminhos percorridos pela sementinha do papai atrás do ovinho da mamãe. Quando as crianças querem saber sobre sexualidade (prazer!) e não simplesmente sobre reprodução, sai a abstração ligada ao milagre da vida. E entra o mundo real, aquilo que acontece entre quatro paredes na vida sexual de um casal.
Há uma carga emocional única em torno de questões ligadas ao sexo. Na trajetória que levou o homem da caverna aos condomínios, todos os aspectos mais básicos da vida animal foram glamourizados pela espécie. A fisiologia ficou por assim dizer escondida por baixo de uma camada de disfarce. Da mesma forma que as boas maneiras à mesa escondem o bicho que ainda pulsa no interior do ser humano, o amor romântico, a porta trancada, a roupa de grife e um oceano de hipocrisia funcionam como anteparos à crueza do sexo. O universo sexual é ainda mais delicado do que outras manifestações fisiológicas porque está cercado de fortíssimos tabus culturais ligados a incesto, descendência, proteção material da prole. É natural, portanto, que os adultos achem muito difícil tratar desse assunto sem as reservas de praxe.
Um engano dos pais, provocado pelo pânico relacionado ao tema sexual,
é imaginar que os filhos estão manifestando curiosidade libidinosa, viciada,
aberrante quando tocam em tabus que os adultos preferem evitar fora das
quatro paredes do quarto. As crianças entram no mundo equipadas de instintos
e nenhum conhecimento experimental. Sua insistência em fazer perguntas
sobre tudo é conhecida. A maioria dos pais, possuídos de entusiasmo didático,
dá explicações detalhadas a respeito de qualquer coisa, imaginando que
está aumentando os conhecimentos dos filhos. Quando o assunto é sexo,
no entanto, os pais procuram fornecer explicações escapistas. Isso numa
sociedade em que as crianças vêem o casal da novela resfolegando de prazer,
com lambidas das mais despudoradas. Como o rapaz não está querendo dar
banho na mocinha, a criança quer logo saber qual é a razão daquele corpo-a-corpo.
Até cena de masturbação implícita já foi mostrada à família brasileira
pela televisão. Por que as crianças haveriam de ficar cegas a tudo isso?
"Se sua filha pergunta se é bom se masturbar, ela o faz com a mesma
curiosidade de quem quer saber se torta de damasco é bom. O tom neurotizante
e erótico quem dá é a cabeça do adulto", afirma a sexóloga Maria
Helena Gherpelli, do Instituto Kaplan de São Paulo. Com o tempo, a criança
começa a perceber reações diferentes e fica querendo compreender por que
torta de damasco é assunto normal e sexo não é.
O "blém-blém" do papai –
O pai ou a mãe que pegarem uma pergunta dessas pela proa devem ter uma
coisa em mente: só respondam ao que for perguntado. A curiosidade infantil
parece ser inesgotável, mas não é. Eles perguntam sobre tudo, mas o grau
de interesse que têm pelos assuntos é mais superficial que o dos adultos.
Pode apostar. Seu filho fez uma pergunta curta e espera uma resposta breve.
Dispense as informações adicionais. "Há pais que, indagados sobre
o que é a camisinha, iniciam discursos sobre Aids, doenças venéreas e
coisas que a criança jamais vai entender", observa a psicóloga Marília
Pinheiro Ayres, do Centro de Estudos, Atendimento e Pesquisa da Infância
e Adolescência, de Porto Alegre. Uma sugestão de resposta: "Camisinha
é uma proteção que o homem e a mulher usam para evitar doenças e gravidez
durante a relação sexual". É provável que a explicação provoque uma
segunda pergunta: "O que é relação sexual?" Outra sugestão:
"Relação sexual acontece entre um homem e uma mulher que se amam".
Se surgir uma terceira pergunta ("o que eles fazem?"), vá em
frente: "Quando o homem e a mulher estão mantendo uma relação sexual,
a mulher convida o homem a colocar seu pênis na sua vagina".
Repare que a terminologia empregada é técnica, sem apelidos infantis para os órgãos sexuais. Se seu filho aponta para a parte inferior da sua orelha e pergunta o que é aquilo, você responde: "É o lóbulo da orelha". Não fala que é o "blém-blém" do ouvidinho do papai. Faça o mesmo quando o assunto é sexo. Empregue os termos apropriados e consagrados tais como pênis e vagina. Ou, se preferir, os termos populares adotados pelos adultos. Além disso, é bom refletir um pouco sobre quem é seu interlocutor e o grau de informação que ele tem a respeito do tema. Desde a mais tenra idade, as crianças percebem a diferença entre papais e mamães. Papai é mais musculoso e tem a voz mais grossa. Mamãe tem seios e uma voz mais aguda. Garotos e garotas observam logo cedo que o corpo do homem e o da mulher têm formatos e movimentos distintos. Portanto, quando você for manter uma conversa sobre sexo com seu filho, estará tratando de algo sobre o qual ele já refletiu anteriormente. Outro dado importante durante as conversas é lembrar que educação sexual não é apenas uma aula de conotação científica. Quando se fala com a criança sobre reprodução ou prazer, mais do que esclarecimentos, segue junto um pacote de valores morais sobre atividade sexual e seus conceitos de certo ou errado nessa área.
Pequeno pervertido? – É curiosa a
situação em que as crianças estão colocando os adultos. Até porque são
mais liberais, os pais de hoje deram aos filhos seguidas mensagens diretas
e indiretas de que eles deveriam ser procurados em caso de qualquer tipo
de dúvida. Algumas crianças levam a sugestão a sério e os pais ficam desnorteados.
Um sentimento comum aos pais dispostos a uma conversa direta é achar que
as crianças estão aprendendo mais do que deveriam. Que esclarecimentos
tão explícitos vão acabar produzindo ainda mais interesse, num ciclo que
sabe Deus onde vai parar. O psicanalista carioca Álcio Braz viveu esse
dilema. Pai de cinco filhos, entre 13 e 21 anos, Álcio protagonizou uma
cena impensável para a geração de seus pais. Quando a filha mais nova
tinha 9 anos, perguntou como e para que se usava camisinha. Ele e a mulher
não titubearam. Reuniram a família na hora do jantar e colocaram uma camisinha
em uma cenoura trazida da cozinha. Explicaram que um rapaz faz o mesmo
quando vai manter uma relação sexual. "Não quisemos antecipar conceitos,
mas achamos que seria bom já explicar tudo de uma vez. A maioria das crianças
tem idéias embaralhadas a respeito de sexo", diz.
A primeira reação dos pais expostos a uma pergunta dessas, notaram os
especialistas, é identificar nos filhos uma preocupação exagerada e precoce
em relação ao sexo. Uma segunda reação freqüente nos pais é desconfiar
do psicólogo que pede calma e explica que o menino ou a menina que falam
coisas que pareçam chocantes aos adultos são crianças perfeitamente normais.
Estão apenas exercendo sua curiosidade a respeito de um tema que excita
a mente das pessoas não apenas na infância, mas da infância à velhice,
dia após dia – hora após hora nos casos mais
sérios. "As crianças estão expostas a um excesso de informação e
não sabem como organizar tudo o que ouvem. Elas não são mais ou menos
obcecadas por sexo do que as crianças de antigamente. Apenas estão entupidas
de informações não elaboradas", diz a psicóloga Ceres Araújo. As
crianças têm curiosidade sobre diversos assuntos. O sexo, é compreensível,
está num patamar superior em função do fascínio e do mistério que o cercam
e também por causa da reação dos adultos às perguntas.
Aids, Viagra e Monica – Na tentativa de mostrar aos pais como funciona a cabeça de uma criança, a orientadora educacional do colégio Pueri Domus, de São Paulo, Cleide Robertson, costuma propor um jogo interessante. Ela reúne os pais e pede que fechem os olhos e ouçam o seguinte texto: "Ah, que bom te encontrar. Vamos brincar? Eu tiro a minha roupa primeiro. Pode tirar a sua agora. Deixa eu subir em você? Ah, eu sabia que ia dar certo". Quando os pais abrem os olhos, vêem o desenho de duas crianças nuas em cima de uma árvore. "É assim que a criança pode imaginar a cena. A malícia decorre da vivência, da experiência que os adultos já têm", conta.
Até nos telejornais as crianças estão sendo bombardeadas com informações
sobre sexo. Nos últimos meses, sexo oral era assunto obrigatório no horário
nobre em virtude das aventuras do presidente Bill Clinton com a estagiária
Monica Lewinsky. No lançamento do Viagra, outra cascata de informações
foi despejada nas salas de cada família. Campanhas contra a Aids antes
do Carnaval também podem dar sua contribuição ao bombardeamento. "Quase
caí da cadeira quando minha filha de 7 anos me perguntou se eu usava camisinha
com o pai dela", conta a relações-públicas Leonor Assis, de Belo
Horizonte. "E fiquei ainda mais assustada quando ela disse que era
um absurdo eu não estar me protegendo." Há trinta anos atendendo
jovens em seu consultório, em São Paulo, o terapeuta Içami Tiba não tem
dúvida: "Nunca se falou tanto e com tanta liberdade sobre a sexualidade".
A Aids, a gravidez precoce, o homossexualismo trouxeram para as famílias a responsabilidade de falar e esclarecer todas as dúvidas dos filhos nesses terrenos. Matando a curiosidade da garotada, os pais dão aos filhos o sinal de que podem ser uma excelente fonte de informação. Dessa forma, aumentam as chances de ser procurados pelas crianças. Nessa tarefa, os pais têm forte apoio das escolas, que também sentiram nos últimos tempos a necessidade de reforçar a educação sexual. Em Brasília, o colégio Candanguinho, por exemplo, incorporou a educação sexual a sua grade de disciplinas fixas. Também promove um debate semanal com os pais batizado de "Sexo na escola". "Havia uma demanda imensa dos alunos e dos pais. Sexo é um tema tão importante quanto cidadania ou direitos humanos", diz Denise Chaves Ros, supervisora do projeto. O colégio São Luiz, um dos mais tradicionais do Recife, foi um dos primeiros a ter um serviço de orientação sexual para alunos a partir do ensino fundamental. "Depois de vinte anos, vejo que hoje se fala de sexo como se se falasse sobre andar de bicicleta. Acho que se banalizou um pouco", afirma Josina Maria Barbosa, psicóloga do colégio. Mas pouco há a fazer a não ser tentar ir ao encontro da curiosidade infantil. As estatísticas mostram que crianças e adolescentes bem orientados sexualmente tendem a estar mais preparados para o início da vida sexual. Se isso quer dizer adultos mais bem resolvidos sexualmente, ninguém sabe. "O que se sabe é que poderá ser um adulto que vai lidar com mais desenvoltura com sua sexualidade", diz a psicóloga gaúcha Marli Sattler.
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Por que não fazem camisinha de tamanho menor? (menino, 9 anos) Quando fabricam a camisinha pensam numa pessoa mais velha, já grande. É quando você deve começar a usá-la.
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Com quantos anos é certo perder a virgindade? (menina, 10 anos) Não há idade certa. O que importa é você perder a virgindade com alguém de quem goste.
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Como é a conta da tabelinha? (menina, 9 anos) É um cálculo feito por quem está menstruada. Quando chegar a sua vez, a gente conversa mais.
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Por que os meninos passam a mão quando estão beijando? (menina, 12 anos) Eles querem conhecer o corpo da menina. O importante é ver se você gosta ou não. Se você não gostar, não deixe.
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Não sinto vontade de transar. Sou normal? (menina, 10 anos) Claro que é normal, seu corpo não está preparado. Não se preocupe. Você vai sentir vontade na hora certa.
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Como os adultos sabem que nos masturbamos? (menina, 12 anos) Os adultos não sabem, como também não sabem que você acabou de comer um bolo de chocolate.
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Quanto tempo devo esperar para o meu pênis crescer mais? (menino, 9 anos) Mais alguns anos, filho.
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Professora, você é virgem? (menino, 8 anos) Eu não tenho que te falar isso. Também não fico perguntando quantas vezes você vai ao banheiro.
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Por que alguém vira gay? (menina, 8 anos) Existe um monte de explicações, mas nada está provado. É uma opção sexual que deve ser respeitada. Tem homem que gosta de mulher, homem que gosta de homem e mulher que gosta de mulher.
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Faz mal transar com camisinha colorida? (menino, 11 anos) Não.
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Por que as pessoas fazem barulho quando fazem sexo? (menina, 10 anos) Quando você fica feliz, acaba fazendo barulho. No jogo de futebol as pessoas não fazem barulho? No sexo é a mesma coisa.
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O que é 69? (menino, 11 anos) É o nome de uma posição sexual em que a mulher fica com a cabeça nos pés do homem e o homem com a cabeça nos pés da mulher.
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Mãe, posso ver você transar com meu pai? (menina, 9 anos) Não. Às vezes mamãe e papai querem ficar um pouco juntos e sozinhos.
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Com reportagem de Daniella Camargos,
de Belo Horizonte,
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