Estômago menor

Novas operações para emagrecer estrangulam
o estômago e deixam cicatrizes pequenas

Bruno Paes Manso

Foto: Frederic Jean

A empresária Célia, hoje com seus 74 quilos e em 1994, quando tinha 134 quilos: "Nasci de novo. Sou uma nova mulher"

A empresária Célia Sperandio comia e como comia! Quatro pedaços de pizza de uma só vez, no ritmo alucinante dos compulsivos. Eterna escrava dos regimes, Célia fez de tudo na guerra contra a balança. Em 1994, o corpo de 1,60 metro pesava 134 quilos. Era preciso tomar uma providência. A cada dois meses, ela decidiu, passaria vinte dias em um spa. Um ano depois, Célia comemorava: estava 60 quilos mais magra. Então, aconteceu o que sempre acontece. Célia descuidou-se, voltou a comer e em um mês recuperou 9 quilos. Ela caiu em desespero. "Senti que o sonho me escapava novamente", lembra. "Tinha certeza de que voltaria a engordar." Célia não quis saber de remédios, ginástica e muito menos dos bifinhos grelhados cercados de saladas sem tempero. Depois de muito insistir com o médico, ela foi para a mesa de operação. Pesava 83 quilos e não sofria nenhum mal relacionado à obesidade. Estava apenas 19 quilos acima do peso, um excesso corporal comparável ao de 30 milhões de brasileiros. Barriga aberta, os especialistas grampearam-lhe o estômago. O órgão ficou com apenas 1,5% do volume normal. Um pedaço de pizza e Célia se dá por satisfeita. Desde então, a empresária pesa 74 quilos.

O caso de Célia mostra que se foi o tempo em que as cirurgias de emagrecimento destinavam-se única e exclusivamente aos obesos mórbidos os cerca de 500000 brasileiros com 45 quilos ou mais acima do peso. Com os avanços das técnicas cirúrgicas, a operação tornou-se mais segura e mais rápida (veja quadro). Enquanto na década de 70 o paciente era obrigado a permanecer seis horas na sala de cirurgia, hoje bastam em média duas horas, a um custo que varia entre 5.000 e 15.000 reais. Mas os progressos nesse campo não param.

Cicatrizes pequenas Uma vantagem extra, de ordem estética, acaba de ser incorporada. As antigas operações de redução do estômago deixavam cicatrizes de até 20 centímetros na barriga. Há duas semanas, foi realizada a primeira operação brasileira que deixou cicatrizes quase imperceptíveis numa paciente pesando 105 quilos distribuídos em 1,62 metro. A equipe do Hospital Albert Einstein, em São Paulo, pilotada pelos gastroenterologistas Arthur Garrido e Thomas Szego, abriu pequenos orifícios no organismo da paciente, moradora de São Paulo, através dos quais introduziu uma microcâmara de vídeo e várias pinças. Uma delas era dotada de um grampeador. Outra, de um bisturi, destinado a cortar o estômago. Outra, ainda, era equipada com um anel, que foi colocado entre o estômago e o intestino, de modo a dificultar a passagem do alimento.

A operação foi feita com os médicos de olhos postos no monitor de televisão, que mostrava onde e como as pinças realizavam seu trabalho. Todos esses procedimentos custaram seis horas, um tempo exageradamente longo, mas que se explica: foi a primeira vez que a operação usava a laparoscopia. Dois dias depois, a mulher já estava em casa. Em seu corpo, pequenas cicatrizes de no máximo 1 centímetro.

Outra nova técnica simplesmente "estrangula" o estômago com um anel de plástico, de modo a reduzir sua capacidade de armazenar alimentos. Esse método também pode ser usado em cirurgias com laparoscopia, mas dispensa os cortes do estômago e os grampos. Tem, ainda, um atrativo especial: o anel de plástico pode ser apertado ou alargado, sem a necessidade de nova operação. Basta que o paciente volte ao médico. Com uma punção através da barriga, introduz-se ou retira-se o líquido que recheia o anel, de forma a aumentar ou reduzir seu diâmetro. Dessa maneira, o paciente pode regular a quantidade de alimento que será capaz de ingerir. Essa operação já é feita no país, mas ainda em fase experimental.

Adeus, comilança Com tantas facilidades, as cirurgias para reduzir, grampear ou afivelar o estômago começam a ganhar popularidade. Há gordinhos e gordinhas preferindo entrar na faca a se submeter a dietas. De 1978 a 1993, apenas quinze operações desse tipo haviam sido feitas no Brasil. Hoje, somam cerca de 900. Até o início dos anos 90, o Hospital das Clínicas de São Paulo era o único centro no país capaz de fazer esse tipo de cirurgia. Em menos de uma década, o médico Arthur Garrido treinou cirurgiões país afora. Agora, já são quarenta equipes habilitadas a fazer as operações de redução do estômago.

O estômago grampeado parece a redenção dos rechonchudos. O organismo habituado a quilos e mais quilos de comida rejeita os alimentos. O estômago passa a aceitar apenas de 100 a 200 gramas por refeição, uma insignificância para pessoas que chegam a ingerir até 700 gramas em cada repasto. Já se disse que o melhor método para emagrecer é fechar a boca. A cirurgia adapta o ditado: fecha o estômago. O paciente emagrece. Até 40% do total de peso pode ser perdido em um ano.

Tudo estaria muito bom se fosse apenas uma questão de perder peso. Mas o que poucos gordos admitem é que adoram, amam e veneram os alimentos. Empanturram-se de feijoada, enchem-se de chocolate, salivam ao ver a lingüiça no espeto, não resistem ao torresmo. Pois bem: com a operação de redução do estômago, eles têm de dizer adeus definitivamente ao prazer da comilança. Logo depois da cirurgia, o paciente é obrigado a aprender a lidar com o novo volume de seu estômago. Só líquidos e comidas pastosas. Depois, a comida normal pode voltar à dieta, mas em pequenas doses. Ai de quem não comer pouco e devagar será inevitavelmente acometido de crises de vômito. O mal-estar que desanima o comilão, nesse caso, pode ser comparado ao que sofre o usuário de Xenical, que provoca diarréias incontroláveis quando se abusa das gorduras. O Xenical é um sucesso porque obriga as pessoas a controlar a compulsão de comer. Com a operação, acontece algo bem parecido.

Foto: Claudio Rossi
Evelyn, Valdereza e Jair Barone, depois que os três passaram pela cirurgia para reduzir o estômago. Na foto menor, a família antes da operação: Páscoa sem culpa, mas comendo pouco chocolate

Operação em família "Quando estou com pressa e agitada, prefiro nem almoçar", conta a dona de casa Valdereza Barone, de 49 anos, moradora de São Paulo. Com 1,66 metro, há dois anos ela pesava 120 quilos. Operada, hoje está com 75 quilos e tão satisfeita que não titubeou em recomendar a mesa de cirurgia para os filhos Evelyn, de 18 anos, 1,72 metro e 120 quilos, e Jair, 19 anos, 1,74 metro e 143 quilos. Agora, os garotos pesam respectivamente 68 quilos e 111 quilos. "Esta foi a melhor Páscoa de nossas vidas", lembra Valdereza. "Pela primeira vez, comemos chocolate sem culpa, porque sabíamos que não iríamos engordar." Comeram pouquinho, é verdade.

Alguns médicos estão assustados com a popularização da cirurgia. Luiz Cezar Calixto Bonanato, do Colégio Brasileiro de Cirurgiões, por exemplo, acha que apenas os obesos mórbidos deveriam submeter-se à redução de estômago. Afinal, trata-se de uma cirurgia e, como toda cirurgia, implica riscos. Falou-se o mesmo quando começaram as operações plásticas só deveria fazer plástica quem tivesse deformações graves. Não colou. Ao todo, o Brasil realiza nada menos que 250000 cirurgias estéticas ao ano. Com o aprimoramento das técnicas, tudo leva a crer que a plástica do estômago siga o mesmo caminho.

 

 

 




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