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Estômago menorNovas operações para emagrecer
estrangulam
A empresária Célia Sperandio comia – e como comia! Quatro pedaços de pizza de uma só vez, no ritmo alucinante dos compulsivos. Eterna escrava dos regimes, Célia fez de tudo na guerra contra a balança. Em 1994, o corpo de 1,60 metro pesava 134 quilos. Era preciso tomar uma providência. A cada dois meses, ela decidiu, passaria vinte dias em um spa. Um ano depois, Célia comemorava: estava 60 quilos mais magra. Então, aconteceu o que sempre acontece. Célia descuidou-se, voltou a comer e em um mês recuperou 9 quilos. Ela caiu em desespero. "Senti que o sonho me escapava novamente", lembra. "Tinha certeza de que voltaria a engordar." Célia não quis saber de remédios, ginástica e muito menos dos bifinhos grelhados cercados de saladas sem tempero. Depois de muito insistir com o médico, ela foi para a mesa de operação. Pesava 83 quilos e não sofria nenhum mal relacionado à obesidade. Estava apenas 19 quilos acima do peso, um excesso corporal comparável ao de 30 milhões de brasileiros. Barriga aberta, os especialistas grampearam-lhe o estômago. O órgão ficou com apenas 1,5% do volume normal. Um pedaço de pizza e Célia se dá por satisfeita. Desde então, a empresária pesa 74 quilos. O caso de Célia mostra que se foi o tempo em que as cirurgias de emagrecimento destinavam-se única e exclusivamente aos obesos mórbidos – os cerca de 500000 brasileiros com 45 quilos ou mais acima do peso. Com os avanços das técnicas cirúrgicas, a operação tornou-se mais segura e mais rápida (veja quadro). Enquanto na década de 70 o paciente era obrigado a permanecer seis horas na sala de cirurgia, hoje bastam em média duas horas, a um custo que varia entre 5.000 e 15.000 reais. Mas os progressos nesse campo não param. Cicatrizes pequenas – Uma vantagem extra, de ordem estética, acaba de ser incorporada. As antigas operações de redução do estômago deixavam cicatrizes de até 20 centímetros na barriga. Há duas semanas, foi realizada a primeira operação brasileira que deixou cicatrizes quase imperceptíveis numa paciente pesando 105 quilos distribuídos em 1,62 metro. A equipe do Hospital Albert Einstein, em São Paulo, pilotada pelos gastroenterologistas Arthur Garrido e Thomas Szego, abriu pequenos orifícios no organismo da paciente, moradora de São Paulo, através dos quais introduziu uma microcâmara de vídeo e várias pinças. Uma delas era dotada de um grampeador. Outra, de um bisturi, destinado a cortar o estômago. Outra, ainda, era equipada com um anel, que foi colocado entre o estômago e o intestino, de modo a dificultar a passagem do alimento. A operação foi feita com os médicos de olhos postos no monitor de televisão, que mostrava onde e como as pinças realizavam seu trabalho. Todos esses procedimentos custaram seis horas, um tempo exageradamente longo, mas que se explica: foi a primeira vez que a operação usava a laparoscopia. Dois dias depois, a mulher já estava em casa. Em seu corpo, pequenas cicatrizes de no máximo 1 centímetro. Outra nova técnica simplesmente "estrangula" o estômago com um anel de plástico, de modo a reduzir sua capacidade de armazenar alimentos. Esse método também pode ser usado em cirurgias com laparoscopia, mas dispensa os cortes do estômago e os grampos. Tem, ainda, um atrativo especial: o anel de plástico pode ser apertado ou alargado, sem a necessidade de nova operação. Basta que o paciente volte ao médico. Com uma punção através da barriga, introduz-se ou retira-se o líquido que recheia o anel, de forma a aumentar ou reduzir seu diâmetro. Dessa maneira, o paciente pode regular a quantidade de alimento que será capaz de ingerir. Essa operação já é feita no país, mas ainda em fase experimental. Adeus, comilança – Com tantas facilidades, as cirurgias para reduzir, grampear ou afivelar o estômago começam a ganhar popularidade. Há gordinhos e gordinhas preferindo entrar na faca a se submeter a dietas. De 1978 a 1993, apenas quinze operações desse tipo haviam sido feitas no Brasil. Hoje, somam cerca de 900. Até o início dos anos 90, o Hospital das Clínicas de São Paulo era o único centro no país capaz de fazer esse tipo de cirurgia. Em menos de uma década, o médico Arthur Garrido treinou cirurgiões país afora. Agora, já são quarenta equipes habilitadas a fazer as operações de redução do estômago. O estômago grampeado parece a redenção dos rechonchudos. O organismo habituado a quilos e mais quilos de comida rejeita os alimentos. O estômago passa a aceitar apenas de 100 a 200 gramas por refeição, uma insignificância para pessoas que chegam a ingerir até 700 gramas em cada repasto. Já se disse que o melhor método para emagrecer é fechar a boca. A cirurgia adapta o ditado: fecha o estômago. O paciente emagrece. Até 40% do total de peso pode ser perdido em um ano. Tudo estaria muito bom se fosse apenas uma questão de perder peso. Mas o que poucos gordos admitem é que adoram, amam e veneram os alimentos. Empanturram-se de feijoada, enchem-se de chocolate, salivam ao ver a lingüiça no espeto, não resistem ao torresmo. Pois bem: com a operação de redução do estômago, eles têm de dizer adeus definitivamente ao prazer da comilança. Logo depois da cirurgia, o paciente é obrigado a aprender a lidar com o novo volume de seu estômago. Só líquidos e comidas pastosas. Depois, a comida normal pode voltar à dieta, mas em pequenas doses. Ai de quem não comer pouco e devagar – será inevitavelmente acometido de crises de vômito. O mal-estar que desanima o comilão, nesse caso, pode ser comparado ao que sofre o usuário de Xenical, que provoca diarréias incontroláveis quando se abusa das gorduras. O Xenical é um sucesso porque obriga as pessoas a controlar a compulsão de comer. Com a operação, acontece algo bem parecido.
Operação em família – "Quando estou com pressa e agitada, prefiro nem almoçar", conta a dona de casa Valdereza Barone, de 49 anos, moradora de São Paulo. Com 1,66 metro, há dois anos ela pesava 120 quilos. Operada, hoje está com 75 quilos e tão satisfeita que não titubeou em recomendar a mesa de cirurgia para os filhos Evelyn, de 18 anos, 1,72 metro e 120 quilos, e Jair, 19 anos, 1,74 metro e 143 quilos. Agora, os garotos pesam respectivamente 68 quilos e 111 quilos. "Esta foi a melhor Páscoa de nossas vidas", lembra Valdereza. "Pela primeira vez, comemos chocolate sem culpa, porque sabíamos que não iríamos engordar." Comeram pouquinho, é verdade. Alguns médicos estão assustados com a popularização da cirurgia. Luiz
Cezar Calixto Bonanato, do Colégio Brasileiro de Cirurgiões, por exemplo,
acha que apenas os obesos mórbidos deveriam submeter-se à redução de estômago.
Afinal, trata-se de uma cirurgia e, como toda cirurgia, implica riscos.
Falou-se o mesmo quando começaram as operações plásticas –
só deveria fazer plástica quem tivesse deformações graves. Não colou.
Ao todo, o Brasil realiza nada menos que 250000 cirurgias estéticas ao
ano. Com o aprimoramento das técnicas, tudo leva a crer que a plástica
do estômago siga o mesmo caminho. |
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