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As testemunhas aparecemInvestigadores revelam o que ouviram
Dois meses e meio depois de consumada, a demissão do economista Francisco Lopes do comando do Banco Central continua sendo uma questão delicada em Brasília. A equipe econômica do governo, que acompanhou intimamente o que acontecia naqueles dias tumultuados em que o real passava por uma desvalorização acelerada, foge inexplicavelmente do assunto. Na semana passada, soube-se que alguns senadores, entre eles Pedro Simon, do PMDB gaúcho, tiveram uma conversa com o ministro da Fazenda, Pedro Malan, no final de março. Perguntado sobre a história completa da demissão de Chico Lopes, o ministro Malan disse o seguinte: "Só conto isso dez anos depois da minha morte". Na segunda-feira 12, o ministro do Orçamento, Pedro Parente, telefonou ao presidente do Senado, Antonio Carlos Magalhães, para pedir uma orientação. Com a publicação na edição passada de VEJA de que Parente queria contar "toda a história" da demissão de Chico Lopes a ACM, mas não estava autorizado a fazê-lo, o ministro ligou para o senador. Queria saber o que dizer agora aos jornalistas que o estavam assediando. ACM deu este conselho: "Diga a verdade". Parente preferiu o silêncio e, por um desses lapsos às vezes tão comuns na faina das comissões parlamentares de inquérito, não entrou na lista das quarenta pessoas já convocadas para depor sobre o caso no Senado Federal.
A postura silenciosa de membros da equipe econômica deixa uma interrogação no ar. Se há coisas que não podem ser ditas, o que serão elas? A curiosidade sobre esse caso aumentou quando se soube que, na virada do câmbio, em meados de janeiro, o Banco Central deu uma ajuda – então secreta – a dois bancos, o Marka e o FonteCindam, em condições francamente amigáveis, o que resultou num prejuízo de 1,5 bilhão de reais ao BC. Em seguida, numa reportagem publicada na última edição de VEJA, soube-se que o ex-dono do Marka, Salvatore Alberto Cacciola, disse a alguns interlocutores que tinha um "informante" na alta cúpula do Banco Central. A esse informante, segundo uma testemunha que ouviu Cacciola, eram pagos mensalmente 500.000 dólares por quatro bancos, o de Cacciola e outros três, numa parcela de 125.000 para cada um. A propina seria depositada numa empresa criada só para esse fim num paraíso fiscal. Na última segunda-feira, Cacciola despachou do exterior um fax a seu escritório no Rio de Janeiro. No fax, procura desmentir a reportagem da edição passada de VEJA e diz que as informações são "fantasiosas, infundadas e irresponsáveis". Na sexta-feira, Cacciola deu entrevistas aos jornais dizendo que é um "absurdo" uma revista "enxovalhar" a "honra e a dignidade de uma pessoa" sem mostrar nenhuma prova e nem mesmo identificar as testemunhas. É uma prática do jornalismo publicar informações sem identificar a fonte, desde que se confie em sua credibilidade. Mas, atendendo à angústia de Cacciola, VEJA consultou suas fontes para saber se estavam dispostas a revelar sua identidade. Das quatro pessoas ouvidas para a confecção da matéria, três concordaram com a idéia. Portanto, ei-las: uma é o empresário Leon Sayeg, 41 anos, que trabalha na área de construção civil em São Paulo. A outra é seu sócio, Omar Jahic, 42 anos. A terceira é um operador do mercado carioca, Alberto Antunes, 47 anos, velho conhecido de Cacciola. Os três estiveram com Cacciola no dia 9 de fevereiro, na sede do Marka, no Rio de Janeiro. Nessa conversa, ouviram o banqueiro dizer que seu banco foi à lona porque tinha "informação de dentro do Banco Central" de que o câmbio não seria mudado. Mas o câmbio mudou, o banco quebrou e os cotistas do fundo Marka-Nikko levaram um prejuízo quase integral. Leon Sayeg e Omar Jahic perderam mais de 200.000 reais. "Ele disse que tinha informações do Banco Central de que a banda cambial só ia começar a mudar em meados de fevereiro e que a coisa foi antecipada em trinta dias. Por causa dessa antecipação é que ele teria saído prejudicado", afirma Leon Sayeg. "Naquele dia, quando ele falou que tinha informação de dentro do Banco Central, confesso que nem percebi a gravidade da declaração", admite o empresário Omar Jahic. "Mas que ele falou, falou." Alberto Antunes serviu apenas como intermediário do encontro, que Cacciola resistia a aceitar, e não tinha interesse específico na conversa, razão pela qual tem uma lembrança menos precisa do que falaram. Pombo-correio – A quarta fonte de VEJA preferiu continuar no anonimato, um princípio ao qual a revista se mantém sempre fiel. Mas essa quarta fonte, um banqueiro ligado a um grupo estrangeiro, não apenas reafirmou na semana passada tudo o que ouviu de Cacciola como deu alguns novos detalhes. Primeiro: o esquema de informação privilegiada do Marka, segundo ele ouviu de Cacciola, não se restringia à cotação do real, à variação do câmbio, mas também incluía as apostas na taxa de juros. "Ele me disse que tinha informações sobre juro e câmbio. Na época, dei pouca atenção à questão do juro porque o que importava era o câmbio", lembra esse banqueiro. O Banco Marka foi à lona porque errou sua aposta no câmbio, dado o fato de que seu informante no Banco Central não soube, a tempo de avisá-lo, da guinada cambial. Entretanto, na questão dos juros, o Marka sempre teve uma pontaria certeira. Existe outro detalhe enigmático. A esse banqueiro, Cacciola falou que sua ligação com o Banco Central era feita pelo economista carioca Rubens Novaes, que, na última semana, negou ter alguma vez atuado como pombo-correio. Mas disse mais. Contou que havia outro contato, além de Rubens Novaes. "Ele me disse que tratava o outro contato pelo codinome de 'Major'." Na semana passada, para complicar ainda mais a rede de depoimentos sobre as declarações de Cacciola, surgiu um quinto personagem. Trata-se de um banqueiro do Rio de Janeiro. Ele conta a VEJA que, numa conversa ocorrida em março passado, Cacciola reclamou da perda do banco, de perseguições e injustiças, mas foi mais longe do que jamais se soube, fazendo uma acusação explícita contra Chico Lopes. VEJA a reproduz integralmente, inclusive nos seus termos deselegantes e chulos, para que o leitor tenha uma noção exata do alcance da declaração. Eis o que o ex-dono do Marka teria dito: "Esse Chico Lopes tem um esquema muito escroto". Cacciola não explicou o que era o "esquema", mas é a primeira vez que se toma conhecimento de que o banqueiro chegou ao ponto de acusar uma autoridade. Esse banqueiro, ao ouvir a acusação, ficou temeroso do estrago que essa bomba produziria se viesse a explodir em público e fez questão de mandar um recado para o Banco Central, alertando que Cacciola andava fazendo essas acusações a Chico Lopes. A intenção ao dar o recado era deixar o Banco Central preparado de antemão caso a denúncia viesse à tona.
Mesmo com a identificação das pessoas com as quais Cacciola conversou, tratando de esquemas ilegítimos, isso não quer dizer que existam provas cabais de que o banqueiro tenha de fato feito aquilo que ele disse aos interlocutores. Pode ter mentido diante de pessoas que foram financeiramente prejudicadas por sua causa. Há indícios sérios e pistas espalhadas em todas as direções, mas não provas. O próprio comportamento do banqueiro ajuda a aumentar as suspeitas de seu envolvimento em dribles cabeludos. Na semana passada, Cacciola estava na Europa e não informou a ninguém em que país se encontrava – uma atitude curiosa para um inocente. Diz ele que voltaria ao Brasil no fim de semana. Soube-se, ainda, que Cacciola, na virada cambial de janeiro, despachou 17 milhões de reais para o exterior, na mesma época em que recebia uma ajuda financeira do Banco Central. Ou seja: pegou dinheiro público com a mão direita e, com a esquerda, enviou uma parte ao exterior. O BC informa que a operação é legal – mas não deixa de ser um escárnio saber que o banqueiro, auxiliado com dinheiro do contribuinte, aquele dinheiro que Armínio Fraga já definiu como "o meu, o seu, o nosso", estava cuidando das próprias contas no exterior. Com essas atitudes pouco abonadoras, Cacciola é um homem peculiar no mercado financeiro, e não apenas pela leveza com que se dispõe a fazer acusações. Ele circula num helicóptero no Rio de Janeiro desde que passou quatro dias em poder de seqüestradores, num cativeiro improvisado em São Gonçalo, interior do Estado do Rio. O seqüestro ocorreu em outubro de 1993. Cacciola conseguiu fugir dos seus algozes e procurou uma delegacia, de onde ligou para o delegado Hélio Vigio, celebrizado no Rio pelo cheiro de enxofre que deixa por onde passa. Mas até em simples casos de polícia as coisas são mais complicadas quando o envolvido é Salvatore Cacciola: na versão oficial registrou-se – não se sabe por que razão – que Cacciola não fugiu, mas foi libertado pela equipe de Hélio Vigio. Além disso, o banqueiro tem alguns problemas com a Justiça. Tem um processo no qual é acusado de sonegação fiscal e outro em que é suspeito de ter desviado dinheiro do Marka por meio de empréstimo fraudulento.
Dias de cão – O comportamento e a biografia de Chico Lopes são inteiramente diferentes dos de seu acusador. Economista respeitado, que participou da elaboração teórica do Plano Cruzado e do Plano Real, Chico Lopes nunca esteve envolvido em histórias pouco ortodoxas. Na semana passada, durante sua viagem à Europa, o presidente Fernando Henrique Cardoso fez questão de defender seu antigo subordinado, lembrando a lisura de sua biografia e sua capacidade intelectual. O que faz o clima esquentar em torno do ex-presidente do BC é a falta de explicações claras sobre sua saída abrupta do governo. Se Chico Lopes estiver sendo injustamente envolvido no caso, poderá atribuir parte de seu calvário atual à atitude omissa de seus ex-colegas de equipe econômica, que, até agora, não vieram a público esclarecer sua demissão de maneira que pareça convincente, da mesma forma que por enquanto não conseguiram dar uma explicação satisfatória para a operação de socorro ao Marka e ao FonteCindam. Sobre a operação de ajuda a esses dois bancos ainda paira uma série de interrogações. Na sexta-feira passada, Chico Lopes tomou um avião no Rio de Janeiro com destino a Brasília, discretamente, para depor na Polícia Federal. Falou durante quatro horas a um delegado e a um procurador da República. Durante o vôo a Brasília, Chico Lopes conversou com a repórter Roberta Paixão, da sucursal de VEJA no Rio. Calmo, atencioso, o ex-presidente do Banco Central respondeu a todas as perguntas que lhe foram feitas (veja entrevista). Enquanto estava em Brasília, agentes federais foram ao seu apartamento no Rio, no bairro de Copacabana, onde apreenderam quatro caixas de documentos supostamente referentes ao caso Marka e FonteCindam. A mulher de Chico Lopes, Cecília, acompanhou o trabalho com outras duas testemunhas, um vizinho e o advogado do síndico do prédio. Cecília estava abatida e chegou a chorar durante as buscas dos policiais. A operação começou às 11 da manhã e só terminou às 6 e meia.
Na quarta-feira passada, as dúvidas em torno do caso ganharam um local apropriado para ser esclarecidas. Foi instalada a comissão parlamentar de inquérito, CPI, no Senado, destinada a investigar o sistema financeiro e as suspeitas de vazamento de informações do Banco Central. A CPI tem poderes de polícia e pode fazer muito. No seu primeiro dia de vida já pediu a quebra do sigilo bancário, fiscal e telefônico dos controladores e diretores do Marka e do FonteCindam, e também colocou seus bens em regime de indisponibilidade. Em vez se ter no ar "supostos" casos de corrupção, uma investigação separa o joio do trigo, mostra o que existe de consistente e o que não passa de intriga. É educativo para a sociedade brasileira, um processo com o qual o país começou a se habituar recentemente, com a investigação do caso do ex-presidente Fernando Collor de Mello. Os receios de que uma apuração no Banco Central acabe por afetar a credibilidade da instituição e abalar o sistema financeiro não fazem sentido. O que abala um banco e o mercado são as suspeitas, as dúvidas – não a verdade. Além do mais, a CPI não está colocando em xeque a instituição do Banco Central. Se há operação errada, malfeita ou ilegal, deve-se apenas descobrir e punir os responsáveis. Com isso, as instituições saem fortalecidas, engrandecidas e higienizadas. Se não há irregularidades que possam ser comprovadas, afastam-se as suspeitas daninhas e a vida pode retornar à rotina sem maiores problemas. Em função da CPI, o Banco Central entregou um dossiê de 346 páginas aos senadores, explicando os meandros da operação de salvamento do Marka e do FonteCindam. E já surgiram novidades. No caso do FonteCindam, a revelação mais surpreendente é que o Banco Central ajudou os fundos do banco – mas por engano. O dossiê informa que o BC imaginava estar auxiliando fundos em que o FonteCindam era o único cotista, pois, com isso, evitava a falência do banco. Mas depois o Banco Central descobriu que ajudou fundos em que o Fonte não tinha nenhuma participação. Isso quer dizer que o BC deu ajuda a meros clientes do FonteCindam. E, frise-se, por engano. No caso do Marka, o dossiê também traz novidades. Revela que no dia 13 de janeiro, data em que o câmbio mudou, enquanto Cacciola despachava 17 milhões de reais para o exterior, seu banco já estava sendo fiscalizado por técnicos do BC. Até agora, a versão oficial dizia que não havia meios de saber que Cacciola mandara 17 milhões de reais para o exterior, pois os fiscais só desembarcaram no Marka no dia seguinte, 14 de janeiro. O dossiê mostra que o BC tinha condições, sim, de saber da remessa: afinal, seus fiscais estavam dentro do Marka no dia 13. "Caos no sistema" – Apesar das 346 páginas de documentos, o dossiê deixa em aberto a velha pergunta: por que o Banco Central ajudou, a preços camaradas, o Marka e o FonteCindam? A explicação no dossiê é a mesma: para evitar que, quebrando esses bancos, pudesse ocorrer um abalo no sistema financeiro como um todo. Nas palavras do diretor de fiscalização, Luiz Carlos Alvarez, que depôs na CPI na semana passada: "Seria um caos no sistema financeiro". O problema é que, em seu depoimento à CPI, o presidente do Banco Central, Armínio Fraga, usou um tom completamente diferente e parece ter sido mais franco e direto. Ele disse que a ajuda aos dois bancos se deveu ao fato de que, àquela altura, o governo queria manter a banda do dólar, que variava de 1,22 a 1,32 real. Se o socorro não aparecesse, o governo não teria a menor condição de segurar a banda – o que, realmente, aconteceu no dia seguinte. O curioso, aqui, é que a cronologia do Banco Central está desfocada. A ajuda aos bancos foi concretizada na noite do dia 14 de janeiro. Só que, no fim da tarde do dia 14, o governo já tinha decidido que não gastaria mais um tostão para manter a banda porque, àquela altura, já torrara 14 bilhões de dólares para sustentar o sistema. Nesse caso, a dúvida é: se já se tinha a decisão de abandonar a banda (coisa que foi concretizada no dia seguinte), por que o BC ajudou bancos para manter uma banda já falecida? Em seu depoimento de mais de seis horas na CPI dos Bancos, Armínio Fraga surpreendeu. Deixou várias perguntas sem resposta, afirmando que não dirigia o Banco Central na época desses fatos, mas tudo o que respondeu foi de uma franqueza incomum. Com um raciocínio cristalino, disse aos senadores que o fato de o banco Marka ter ido à lona, errando na aposta do dólar, não significa que não tenha recebido informação privilegiada "ainda que equivocada". Sua explicação de que a ajuda aos bancos se deveu à necessidade de manter a banda cambial também faz muito mais sentido do que a outra versão, segundo a qual o socorro foi para evitar um "caos no sistema financeiro". Outro dado de sinceridade ocorreu quando lhe perguntaram se daria a mesma ajuda ao Marka e ao FonteCindam caso fosse presidente do Banco Central na época. "Realmente eu não sei", disse Armínio Fraga. Ele não deu nenhum sinal de que suspeita deste ou daquele, nesta ou naquela operação. Mas também mostrou que não tem compromisso algum com qualquer malfeitoria que eventualmente tenha ocorrido antes de ele tomar posse.
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