Roberto Pompeu de Toledo
Os quinze dias do governo
Tancredo
"Especular
sobre o que teria sido seu governo equivale
a indagar: e se Getúlio não
tivesse se suicidado? E se Jânio
não tivesse renunciado? Ainda assim,
a questão incomoda"
Quem quiser se aprofundar em Tancredo Neves tem novo
material disponível. Aos 25 anos de sua morte, a ser completados neste
21 de abril, o livro Diário de Bordo, de autoria do embaixador Rubens
Ricupero, oferece um relato dos bastidores da viagem que, como presidente eleito,
Tancredo fez ao exterior, entre 24 de janeiro e 7 de fevereiro de 1985. O livro
recupera anotações do autor, membro da comitiva, tomadas no calor
da hora. O ex-chanceler Celso Lafer, num apêndice ao livro, chama aqueles
dias de contatos com governantes de Itália, França, Portugal, Espanha,
Estados Unidos, México e Argentina de "o momento presidencial de Tancredo".
Imaginava-se que seria o primeiro de muitos. Acabou sendo o único. O Diário de Ricupero tem o sabor de abertura de uma ópera que não houve.
O Tancredo que surge do livro é um político conservador ("Mais
do que eu imaginava", escreve Ricupero a certa altura), cauteloso para não
ferir as suscetibilidades dos militares, atrapalhado diante dos temas da política
externa, seguro quando se tratava da economia, e sem sinal da doença que,
dois meses e meio depois de encerrado o périplo, o mataria. No avião,
a caminho de Washington, Ricupero notou que Tancredo, refugiado na leitura do Washington Post, manteve-se distante das conversas. Estranhou. Tancredo
não lia bem inglês, por que tanta atenção ao jornal
americano? Depois se soube que lhe caíra uma obturação, o
que lhe dificultava a fala. Já em Washington um dentista foi convocado
ao hotel, o que teria provocado as versões posteriores de que um médico
havia sido chamado com urgência. Ricupero, sempre muito próximo do
presidente eleito, de nada soube, na questão da saúde, senão
da crise do dente.
Tancredo caprichava na retórica,
para conquistar os interlocutores. Em Lisboa, disse que todo brasileiro, ao acordar,
tem dois pensamentos, um para Deus, outro para Portugal. Em Washington, como observa
Ricupero, chegou perto da famosa definição de Juracy Magalhães
("O que é bom para os EUA é bom para o Brasil") ao afirmar,
numa coletiva de imprensa, que "tudo o que se fizer para reforçar
e fortalecer o Brasil estará sendo feito para reforçar e fortalecer
os interesses dos EUA". A declaração prenunciava uma política
externa mais pró-americana do que a dos militares, mas Tancredo era matreiro,
como se sabe. Ele precisava dos americanos para cuidar do problema que, junto
com a inflação, compunha sua dupla herança maldita: a dívida
externa. O compromisso seguinte, naquele dia, foi uma dura cobrança do
secretário de Estado George Shultz. Se o Brasil não cumprisse os
acordos com o FMI, não haveria acordo com os bancos sobre a dívida.
Prenunciava-se um tempestuoso início para a Nova República.
A
teologia da libertação foi tema recorrente na viagem. Dizia Tancredo
que em Roma o papa João Paulo II lhe revelara preocupação
com os padres esquerdistas. Na conversa com o então vice-presidente George
Bush (o pai), o próprio Tancredo condenou o movimento, mas diminuiu-o como
uma "moda" que passaria. No capítulo das gafes, a pior foi dizer
em Lisboa que o império africano de Portugal lhe havia sido "usurpado".
Na política externa, até ser alertado pelos diplomatas, confundia
o conceito de Terceiro Mundo com o Movimento dos Não Alinhados. Quanto
ao regime brasileiro que estava a ponto de suceder, chamava-o de "autoritário",
jamais de ditadura. Numa entrevista em Portugal, ao lhe perguntarem se o ex-chanceler
Azeredo da Silveira, então embaixador em Lisboa, seria confirmado no cargo,
respondeu que outro bom nome era o do general Walter Pires. Pires, ministro do
Exército, era tido como um dos duros do governo Figueiredo. Ao cortejá-lo,
Tancredo atingia o ponto extremo na estratégia de acomodação
com os militares.
Tancredo Neves, figura-chave da redemocratização,
político experimentado e homem sábio, é uma pedra no fluxo
da história recente do Brasil. Especular sobre o que teria sido o seu governo
equivale a perguntar o que teria sido se Getúlio não tivesse se
suicidado, se Jânio não tivesse renunciado, ou mesmo, lá atrás,
se o patriarca José Bonifácio não tivesse sido afastado tão
cedo do poder. Está fora do nosso alcance rebobinar a história.
Ainda assim, a questão incomoda. E se
? Na Argentina, última
escala da viagem, alguém comentou com Tancredo: "Larga gira, presidente",
querendo dizer que fora grande seu giro pela Europa e Américas. Ele entendeu
mal. Achou que o comentário se referia à sua longa e rica carreira.
Respondeu: "É, terei o necrológio mais comprido do Brasil".
Até agora, o necrológio está sendo feito. |