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Brasil"Eu me preparei a vida inteira
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Lunaé Parracho/Ag. A Tarde
/O Globo![]() |
| Figurino
de candidato Com fita do Senhor do Bonfim e chapéu na cabeça, Serra visita Salvador: em Roma, como os romanos |
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| • Nesta edição: Com a casa em ordem,
Serra vai à luta |
Por que o senhor quer ser presidente da República?
Porque eu creio que o Brasil pode avançar mais, o Brasil pode mais, e eu
me sinto preparado para isso. Eu me preparei a vida inteira para ser presidente.
O
senhor sempre teve vontade de ser presidente?
Evidentemente, ser ou não
presidente não é uma escolha sua, não depende apenas
de uma decisão. Mas, desde a primeira adolescência, sempre tive vontade
de me envolver na vida pública. Eu me lembro de um episódio
curioso e não quero aqui parecer pretensioso. Na 4a série
do ginásio, eu tinha um professor de latim que se incomodava e, ao mesmo
tempo, se divertia com o fato de eu ser muito barulhento nas aulas. Um dia, ele
olhou para mim e disse aos colegas: "Esse aqui, o senhor Serra, vai ser político
no futuro, e ele é quem vai mandar. Ele vai mandar em todos vocês
aqui". Eu tinha uns 14 anos. Os colegas, claro, ficaram me caçoando,
e eu mesmo fiquei embaraçado. Mas o fato é que foi uma observação
que eu guardei para o resto da vida.
Desde que o senhor entrou
para a vida pública, há alguma convicção que a experiência
tenha modificado?
A minha experiência de governo, nos vários governos,
me possibilitou conhecer o essencial de diversas áreas e também
me ajudou a entender por que, algumas vezes, as coisas não acontecem. Por
exemplo: se você deixar a rédea solta, elas não acontecem.
O senhor tem fama de centralizador. De onde ela vem?
Ela é errada. Uma coisa que eu aprendi ao longo das minhas experiências
foi descentralizar: formar boas equipes, permitir que os diferentes integrantes
tenham liberdade para trabalhar na formação das suas próprias
subequipes e também evitar antagonismos. Para mim, é inconcebível
a ideia de colocar um sujeito que pensa "x" e trazer outro que pensa
"y" para, nessa divisão, eu arbitrar. Isso não existe
comigo. Mas eu cobro muito, até porque tenho uma memória praticamente
impecável em matéria de ações, de trabalho. E o computador
acrescentou uma agilidade à cobrança que antes não dava para
ter. Quando eu era ministro da Saúde, durante a noite eu escrevia bilhetes,
a mão mesmo, com cobranças para A, B e C. No fim, dava um volume
que tinha de ir dentro de uma caixa. Eu grampeava tudo, mandava para a secretária,
e ela despachava. Hoje, com o e-mail, você escreve a um secretário:
"E aí?". Ou: "E a ciclovia?", por exemplo. Com
três palavras você se faz entender. Basta mandar um e-mail desses
dia sim, dia não para que, dessa forma, as coisas andem.
Como
o senhor pretende orientar a formação de sua equipe ministerial,
caso seja eleito?
Eu consegui, na prefeitura e no estado, formar equipes sem indicações
de vereadores, de deputados ou de partidos. As pessoas que vieram de outros partidos
foram pessoas escolhidas por mim. Não existe isso de "tal setor nomeia
tal cargo". Essa vai ser a orientação. Não é
que não vai ter político, mas tem de ser um político
apto para aquela função.
E como, então,
o senhor fará o jogo político? Como fará para ter uma base
forte no Congresso?
Através do Orçamento. Ao contrário do
que se acredita, 90% das emendas que os parlamentares apresentam são boas.
E você pode inclusive orientar. Dizer, por exemplo: "Quem fizer emendas
para concluir obras terá prioridade sobre os que fizerem emendas para começar
obras". Isso funciona, porque o que o parlamentar quer é aprovar a
emenda e satisfazer sua base eleitoral. Não é só no Brasil
que é assim, é no mundo inteiro até nos países
mais arrumadinhos. E esse é o melhor caminho para formar a unidade com
o Legislativo. Outra coisa importante: nenhum grupo de deputados nomeia diretor
de empresa pública. Nenhum. Isso porque, para um deputado, a pior coisa
que pode acontecer não é ele não nomear: é o
outro nomear e ele não. Tem de ter isonomia.
Quais serão
suas prioridades na economia?
Eu tenho claríssima a prioridade que deve
ser dada à área produtiva, à indústria. Até
algum tempo atrás, vigorou o pensamento de que se deveria estimular só
o setor de serviços. Isso é uma bobagem. O Brasil não
pode voltar a ser uma economia primária exportadora. Isso não criaria
empregos para 200 milhões de pessoas.
Por que os banqueiros
gostam de falar mal do senhor?
Se falam, não chegou a mim. Eu acho que
é importante para o Brasil ter um sistema financeiro sólido, e batalhei
muito por isso. Na Constituinte, havia propostas de proibir bancos com capital
estrangeiro de operar no Brasil e até de proibir bancos nacionais
ou seja, queriam liberar apenas os bancos locais. Eu ajudei a derrubar as duas
propostas. E estava no governo quando foi feito o Proer, que realmente deu solidez
ao sistema financeiro solidez que permitiu, inclusive,
o enfrentamento
da crise atual. Agora, quanto a custos, taxas de juros, essas são questões
operacionais de um governo. E aí eu tenho uma visão de que
é essencial para o Brasil ter um sistema financeiro que empreste bastante,
e empreste a custos suportáveis para as pessoas e para a área privada.
Isso é uma meta. Em suma, quero dizer o seguinte: como ajudei a erguer
a mesa, jamais a viraria. As pessoas do sistema financeiro que realmente
me conhecem sabem disso.
O senhor, caso seja eleito, vai encontrar
um Brasil que avançou na área social, mas que ainda tem carências
sérias...
Eu acho que o Brasil avançou muito nos últimos
25 anos. Nós afirmamos uma democracia de massas, com uma Constituição
que pode ter os seus problemas, mas que enfatizou como nunca as liberdades civis
e políticas. Conseguimos acabar com a superinflação,
avançar no combate à pobreza, consolidar o SUS, a inclusão
educacional e até retomar o crescimento econômico. Não foi
um desempenho brilhante, se você o comparar com o da Índia ou o da
China, mas foi um desempenho razoável em relação ao dos países
desenvolvidos. Agora, isso significa que as coisas estão resolvidas? Não.
No que se refere ao crescimento, nós precisamos de infraestrutura. As carências
nessa área são dramáticas e representam um gargalo para o
nosso desenvolvimento.
E do ponto de vista da economia?
Há,
nesse sentido, um desequilíbrio externo que vem se agravando pelo lado
da balança comercial e do déficit em conta-corrente. Claro, nós
temos reservas e temos tido entrada de capital, mas nove entre dez economistas
se preocupariam com esse crescimento rápido do déficit externo.
A eficiência da ação governamental, ou seja, a capacidade
de fixar metas e de cumpri-las, é outro dado que preocupa. Ela ainda é
baixa no Brasil. O grande loteamento político que foi feito resultou no
aparelhamento de toda a esfera do setor público. Em relação
às áreas sociais, há uma necessidade desesperada de avançar
no campo educacional, no campo da saúde, que semiestagnou, e no campo da
segurança uma área em que, indiscutivelmente, o governo federal
tem de se envolver mais. Até porque boa parte do crime organizado no
Brasil se alimenta de armas e drogas que vêm sob a forma de contrabando,
e combater isso é uma tarefa essencialmente federal.
No
governo estadual, o senhor conseguiu aumentar o investimento e reduzir a relação
entre a dívida e a receita, sem elevar impostos. E no governo federal,
dá para aplicar a mesma receita?
Não só dá como será
feito. O enfrentamento dessa questão se dá, como se deu em São
Paulo, pelo aumento da arrecadação via combate à sonegação, e não pelo aumento da carga nominal de impostos. O corte de custos e de desperdícios aqui também teve um papel imenso.
Como
é possível cortar gastos no governo federal?
Você revisa o
preço de todos os contratos, para começo de conversa. Mas é
preciso também ter novas formas de gestão. É crucial introduzir
o fator mérito nas remunerações, por exemplo. Isso tem dado
certo em São Paulo. A ideia geral é cortar desperdícios,
reduzir custos e selecionar
as prioridades. Com isso, você faz mais
e melhores investimentos.
O PT tentará transformar
esta eleição numa comparação dos governos Lula e Fernando
Henrique. Como o senhor vê essa estratégia?
Eu acho que a eleição
tem a ver com o futuro, não com o passado. É assim que a população
vai julgar. De toda forma, o governo FHC acabou, e agora será julgado pelos
historiadores. Assim como os governos anteriores. Assim como o de Lula será
julgado um dia, quando o peso do poder dele não mais puder interferir. E aí veremos o que a história dirá de cada um. É
espantosa a quantidade de energia que o PT gasta para falar mal do Fernando Henrique.
Quando são aliados deles, como o Sarney e o Collor, só elogiam.
Quando são adversários, atacam sem limites. Ou seja, não
é uma avaliação honesta. É enviesada. Eu fui ministro
de FHC e fui aprovado na função. Tanto que depois disso me elegi
prefeito de São Paulo e governador de São Paulo. Agora, todos sabem
que eu não sou FHC, sou José Serra. Isso parece incomodar o PT,
mas é a realidade.
E quanto à reeleição?
O senhor é mesmo contrário a ela? Eu sou contrário. A minha proposta de reforma política incluirá o fim da reeleição
no Brasil.
Qual será a prioridade zero do seu governo?
A essência do governo, como orientação para o Brasil, precisa
ser a de oferecer uma maior abertura de oportunidades para a população.
O povo brasileiro quer é ter oportunidade na vida: estudo, boa saúde,
emprego para os jovens, acesso a bens culturais e de lazer. Nasci e fui criado
num bairro operário de São Paulo. Eu me lembro de todos os meus
amigos, de criancinha ou de adolescente, que não puderam estudar porque
tinham de sustentar a família, ou que não tinham ambiente familiar
porque o pai era alcoólatra ou eles tinham muitos irmãos... Por
que eu consegui estudar e chegar ao que sou, estudando em escola pública?
A explicação é muito simples: porque eu era filho único.
Se eu tivesse quatro irmãos, como a maioria, quando chegasse ao ginásio,
teria de trabalhar para eles poderem ir à escola. Então, o que o
povo brasileiro quer não é muito, é oportunidade.
Qual
seria a frase que o definiria?
"Na vida, ninguém fracassa tanto
quanto acredita nem tem todo o sucesso que imagina", de Joseph Rudyard
Kipling, via Jorge Luis Borges. Trata-se de uma reflexão que levo muito
em conta minha vida, aliás, é uma ilustração
disso. Tê-la em mente permite que sejamos mais humildes nas vitórias
e mais altivos nas derrotas. E há uma frase que complementa essa: "O
único limite às nossas realizações futuras são
as nossas dúvidas no presente. Vamos adiante com fé", do
presidente americano Franklin Delano Roosevelt. Para mim, a política
não é a arte do possível, mas a arte de ampliar os limites conhecidos do possível.
Ed
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