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Home  »  Revistas  »  Edição 2161 / 21 de abril de 2010


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Brasil

Ele agora cobra 12 milhões

Réu por lavagem de dinheiro e evasão de divisas, o marqueteiro
Duda Mendonça retorna à arena eleitoral assediado por todos
e mais valorizado do que nunca


Alexandre Oltramari

Cristina Gallo/Bg Press
BRUXO DAS URNAS
Duda Mendonça elegeu 2010 como o ano de sua volta ao marketing político:
depois do escândalo do mensalão, ele disse que se afastaria das campanhas



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Desde que ajudou a eleger o presidente Lula, em 2002, uma maldição se abateu sobre o publicitário baiano José Eduardo Cavalcanti de Mendonça, o Duda Mendonça. Supersticioso e excêntrico, mas celebrado como um mago das urnas até pelos adversários mais críticos, Duda foi preso dois anos depois da eleição acusado de participar de um campeonato de briga de galos – hobby ilegal que ele praticava no Rio de Janeiro, mas que era pinto diante do que estava por vir. Em 2005, em depoimento à CPI que investigou o escândalo do mensalão, Duda admitiu a participação em um crime muito mais grave. Ele confessou ter recebido 10,5 milhões de reais do PT em uma conta clandestina nas Bahamas, como parte do pagamento pelo trabalho na campanha do presidente Lula. Supostamente decepcionado com a sujeira na política e réu por lavagem de dinheiro e evasão de divisas, Duda, na época, prometeu abandonar as campanhas eleitorais, mas logo mudou de ideia. Após ensaiar um retorno como consultor em 2006, o marqueteiro elegeu 2010 o ano de sua volta ao mundo das refregas eleitorais. Duda já se insinuou para dois presidenciáveis (Dilma Rousseff e Ciro Gomes), negocia com sete candidatos a governador e já está trabalhando para um deles. Entre os que pagarão pelos seus talentos deve figurar até mesmo o presidente da CPI que o investigou, o senador petista Delcídio Amaral.

O marqueteiro só não voltará na crista da onda porque foi vetado pelo presidente Lula para comandar a campanha de Dilma Rousseff, com quem chegou a se encontrar no fim do ano passado. Sua área de influência, porém, está longe de ser desprezível, e seu passe, apesar de todos os problemas, parece que só se valorizou depois do escândalo. O pacote de campanha estadual está sendo oferecido por 12 milhões de reais – o dobro do que cobram outras estrelas do ramo e muito mais do que custou oficialmente a campanha presidencial de 2002 (7 milhões de reais). Há duas semanas, Duda esteve no Maranhão gravando os comerciais regionais do PMDB. O trabalho já é parte do pacote negociado com a governadora Roseana Sarney, que disputará a eleição em outubro. Caro? "Não conheço os valores porque a contratação foi negociada pelo partido. O governo não tem nenhuma relação com essa negociação", garante o secretário de Comunicação de Roseana, Sergio Macedo. Ninguém disse que tinha, mas, numa de suas idas ao Maranhão para acertar detalhes da contratação, Duda foi recebido pelo próprio Sergio no palácio do governo. Explica o secretário, que, por alguns segundos, sofreu de um lapso de memória: "Reunião?... Ah!, É verdade. Mas ele veio aqui por outros motivos. Duda tem amigos no Maranhão, e nos encontramos só para bater papo".

O processo de fusão entre a política e a polícia tem atrapalhado um pouco o retorno de Duda Medonça ao Olimpo das campanhas eleitorais. Um dos primeiros clientes a fechar com o marqueteiro, o ex-governador do Distrito Federal José Roberto Arruda, foi preso em fevereiro passado. Com o mandato cassado, ele não poderá concorrer à reeleição. Outro empecilho é o valor de seus honorários. No Pará, a governadora Ana Júlia Carepa, que disputará a reeleição em outubro, tentou contratar Duda, mas desistiu quando viu a conta salgada. O senador Marconi Perillo, do PSDB, candidato ao governo de Goiás, tomou um susto quando Duda lhe apresentou o custo de seus préstimos. Os dois almoçaram recentemente em Brasília. "Ele tem ideias muito interessantes, mas ainda não há nada definido", explica o tucano. Duda também está negociando com os candidatos ao governo Zeca do PT, de Mato Grosso do Sul, João Alves, de Sergipe, Gim Argello, do Distrito Federal, Paulo Skaf, de São Paulo, e José Fogaça, do Rio Grande do Sul. Se for bem-sucedido, espera faturar 84 milhões de reais em sete eleições para governador.

A campanha mais curiosa que Duda está prestes a comandar é a do senador Delcídio Amaral, do PT de Mato Grosso do Sul. Em 2005, quando Duda revelou ao país que recebeu dinheiro ilegal do PT, Delcídio Amaral estava sentado ao seu lado. O senador era o presidente da CPI dos Correios, cuja investigação levou ao indiciamento de Duda por sonegação fiscal e lavagem de dinheiro. "Há uma negociação para o Duda ser o marqueteiro de uma chapa que inclui governador e senador. Como eu sou o candidato ao Senado, ele inevitavelmente seria o marqueteiro da minha campanha também", explica Delcídio Amaral. Algum constrangimento em razão das proezas de Duda Mendonça reveladas pela CPI, senador? "Absolutamente. Apesar do que aconteceu, Duda é reconhecidamente um publicitário brilhante. Além disso, nas reuniões que já tive com ele, Duda sempre fez questão de deixar claro que as coisas serão feitas com a mais absoluta transparência."

Fotos Sergio Lima/Folha Imagem/Folhapress, Titular Ag. Fotográfica e Dida Sampaio/AE
FÃS DE TODAS AS CORES
O marqueteiro é admirado por Delcídio Amaral (à esq.), o comandante da investigação que
o incriminou, já acertou com a governadora Roseana Sarney e negocia com outros
seis candidatos a governador, entre eles o tucano Marconi Perillo (à dir.)

 

 
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