Maílson da Nóbrega
Brasília:
epopeica,
cara e esbanjadora
"No
cinquentenário da capital, valeria refletir sobre
os seus privilégios.
Seria a oportunidade para discutir
como melhor financiar todos os estados e municípios"
Nos seus cinquenta anos, Brasília
acumulou feitos e defeitos. Nos feitos, realça-se a epopeia de sua construção.
O Brasil edificou do nada uma cidade com avançada concepção
urbanística. Vencemos, aos olhos do mundo, o imenso desafio de planejar,
construir e inaugurar uma cidade complexa e moderna em menos de quatro anos.
A
transferência da capital para o Planalto Central constou da primeira Constituição
da República (1891), que reservou à União uma área
de 14 400 quilômetros quadrados "para nela estabelecer-se a futura
capital federal" (art. 3º). Juscelino Kubitschek, o grande presidente,
elegeu Brasília como meta, que cumpriu com liderança e determinação.
A medida tinha a ver com segurança. No interior do
país, a capital ficaria mais protegida do que no litoral. Invasões
por mar eram mais difíceis de rechaçar, pois permitiam o bombardeio
ainda no oceano, minando resistências. A aviação militar e
a tecnologia de foguetes de longo alcance envelheceram essa ideia.
Brasília
seria um polo irradiador de progresso. Reproduziria, no coração
do país, o dinamismo das áreas litorâneas. Muito lógico,
particularmente depois que o estado se tornou central no processo de desenvolvimento.
Uma inspiração teria sido a capital americana, transferida de Filadélfia
para Washington em 1800.
Havíamos imitado os EUA na
organização política (federação) e no nome
do país (Estados Unidos do Brasil, hoje República Federativa do
Brasil). Era natural imitá-los na localização da capital.
Acontece que Washington e sua posição geográfica tiveram
motivação distinta daquela da capital do Brasil.
A
Constituição americana (1787) estabeleceu que seria privilégio
da União o poder de tributar, possuir Forças Armadas e ter território
próprio. Acordo político fixou a capital no sul. Lei de 1790 deu
ao presidente o poder de eleger o local do Distrito de Colúmbia, onde está
a capital. Ele a situou entre os estados de Virgínia e Maryland.
Brasília
contribuiu para o desenvolvimento regional, mas isso viria naturalmente com as
rodovias, a queda dos custos de transporte e comunicações e a ocupação
produtiva dos cerrados, impulsionada pela tecnologia da Embrapa e pela imigração
de produtores da Região Sul.
A Constituição
de 1988 deu privilégios e autonomia política a Brasília (que
Washington não tem). À União cabe "organizar e manter
a polícia civil, a polícia militar e o corpo de bombeiros do Distrito
Federal, bem como prestar assistência financeira ao Distrito Federal para
a execução de serviços públicos, por meio de fundo
próprio" (inciso XIV, art. 21).
Pelo Fundo Constitucional
do Distrito Federal (2002), a União transfere à capital recursos
ao ritmo de crescimento das receitas federais. Brasília arrecada os tributos
atribuídos aos estados e municípios. Com despesas de segurança,
saúde e educação custeadas pela União, a capital pode
expandir os demais gastos de pessoal sem ferir a Lei de Responsabilidade Fiscal.
Os salários de seus funcionários são generosos.
Brasília
tem a maior receita pública per capita, quase o dobro da média nacional.
Seus policiais têm os melhores salários entre seus pares. As taxas
de homicídio estão, todavia, entre as piores do país. Outras
mazelas podem ser vistas em estudo de Oliveira Alves Pereira Filho (www.stn.gov.br/Premio_TN/XIVPremio/corpo_mono_prem_pr14_temas2.html).
O
autor assinala que a abundância de recursos criou uma situação
na qual "o governo local se une à burocracia, concedendo
a esta maiores ganhos, viabilizados pelo restante da nação, em troca
de benefícios político-eleitorais que permitam a esses gestores
a permanência no poder".
Fernanda Brollo e outros
pesquisadores mostram que um acréscimo de 10% nas transferências
federais aos estados e municípios acarreta uma elevação de
12 pontos porcentuais na corrupção (www.nber.org/papers/w15705).
Dá para entender por que Brasília é palco de grandes escândalos.
Estudos
provam que os contribuintes do restante do país não precisam continuar
a financiar Brasília nem suas elevadas despesas. No cinquentenário
da capital, valeria refletir sobre os seus privilégios. Seria a oportunidade
para discutir como melhor financiar todos os estados e municípios.
Maílson da Nóbrega é economista |