Edição 1850 . 21 de abril de 2004

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CINEMA


Divulgação
As Bicicletas: originalidade


As Bicicletas de Belleville
(Les Triplettes de Belleville,
França/Bélgica, 2003. Desde sexta-feira em cartaz) – O neto órfão de Madame Souza tem uma paixão: o ciclismo. Madame tem outra: seu neto. Complementares em sua solidão, eles vivem numa rotina monótona e silenciosa que transcorre em treinamentos e nos cuidados que Madame dispensa ao seu atleta – sinais discretos de sua profunda afeição por ele. Quando o rapaz é raptado e levado para Belleville – uma versão grotesca de Nova York, onde todos são imensamente obesos –, Madame enfrenta os piores perigos para reencontrá-lo. A única ajuda que recebe vem de três irmãs gêmeas, velhas artistas de vaudeville. Não é só pela excelência do traço, pelo pendor para o bizarro ou pela originalidade que não cessa de surpreender que o filme do diretor Sylvain Chomet se destaca mesmo entre a melhor produção recente do desenho animado. É, acima de tudo, pela riqueza dos personagens e pela pungência da ligação de Madame Souza com seu neto.

 

LIVROS

Comida – Uma História, de Felipe Fernández-Armesto (tradução de Vera Joscelyn; Record; 364 páginas; 52,90 reais) – Historiador da Universidade de Oxford, na Inglaterra, Fernández-Armesto revisa um dos aspectos centrais da cultura humana: a culinária. Do surgimento da espécie humana, quando a agricultura e a criação de rebanhos deram ao homem vantagens evolutivas, ao moderno fast food e suas técnicas de produção e armazenamento, o livro aborda nossos variados e muitas vezes curiosos hábitos alimentares e seus impactos na ecologia, na economia, nas artes. É a obra de um historiador hábil, que examina o canibalismo e a nouvelle cuisine com a mesma verve e sagacidade.

 
Divulgação
Lehane: sem meios-tons  

Sagrado, de Dennis Lehane (tradução de Luciano Vieira Machado; Companhia das Letras; 358 páginas, 39,50 reais) – Um dos melhores escritores policiais da atualidade, Dennis Lehane é conhecido principalmente por Sobre Meninos e Lobos, romance adaptado para o cinema por Clint Eastwood. Ao lado de Um Drink Antes da Guerra e Apelo às Trevas, Sagrado faz parte da série protagonizada pelos detetives Patrick Kenzie e Angela Gennaro. Desta vez, a dupla investiga o misterioso desaparecimento da filha de um milionário – e o sumiço do detetive que havia sido contratado para encontrá-la. O cenário mais uma vez é Boston, cidade natal do autor, cujo submundo é retratado em toda sua violência, sem meios-tons.

A Rosa das Línguas, de Michel Deguy (tradução de Paula Glenadel e Marcos Siscar; Cosac & Naify/7Letras; 296 páginas; 39,80 reais) – Aos 74 anos e com dezenas de livros publicados, entre poesia e ensaio, Deguy é uma das vozes mais expressivas da poesia francesa contemporânea. Já esteve no Brasil, participando de colóquios de filosofia e literatura, e poemas seus têm aparecido em antologias e revistas literárias brasileiras. Este, porém, é o primeiro livro individual do poeta publicado no Brasil. A seleção inclui poemas de vários períodos da produção de Deguy. Sua técnica vai do verso de medida tradicional à poesia em prosa, mostrando sempre um olho acurado para o mundo contemporâneo.

 

DVD

Agora ou Nunca (All or Nothing, Inglaterra/França, 2003. Fox) – Nenhum outro diretor hoje se aventura com tanta sensibilidade pelo mundo da classe operária inglesa quanto Mike Leigh, ganhador do Festival de Cannes com Segredos e Mentiras. Em Agora ou Nunca, Leigh coloca em cena os dramas de um punhado de moradores de um conjunto habitacional londrino – a moça que cobiça o namorado truculento da vizinha, o casal que afunda junto na bebedeira, o taxista que se sente um zero à esquerda, a mãe que só ouve insultos, e por aí vai. O que há de especial no trabalho do diretor é como ele refuta o determinismo: o que destrói seus personagens não é a falta de dinheiro ou o emprego ruim, mas a dificuldade de concretizar seus desejos mais inefáveis – amor, conexão ou um sentido para a vida.

 

DISCOS

 
Divulgação/TV Globo
Thalma: boa também no canto  

Thalma de Freitas, Thalma de Freitas (Cardume) – Conhecida do grande público pelas participações em novelas como O Clone e Kubanacan, Thalma de Freitas revela ser também uma cantora de talento. Neste seu segundo disco, ela se fez acompanhar por um dream team da música instrumental brasileira. A banda de apoio traz Laércio de Freitas (pai de Thalma) no piano elétrico, o baterista Wilson das Neves e o baixista Bebeto, ex-integrante do Tamba Trio. O repertório, variado, traz sambas, baladas e uma saborosa salsa do jovem compositor Kassin (Tranqüilo). O disco é parte de uma coleção de "mini-CDs" do selo Cardume: eles têm apenas seis músicas, mas são vendidos a preço camarada.

Vagabundo, Ney Matogrosso & Pedro Luís e A Parede (Universal) – A carreira recente de Ney Matogrosso, hoje com 62 anos, tem duas vertentes: a recuperação de canções históricas da MPB (ele tem discos dedicados às obras de Villa-Lobos, Ângela Maria e Cartola) e a aposta em sangue novo do pop nacional. Vagabundo vai na segunda direção. Ney une forças com o compositor Pedro Luís, de 43 anos, e seu grupo, A Parede, formado por ases da percussão. Fãs do Secos & Molhados, grupo que Ney integrou nos anos 70, são premiados com uma versão remoçada do sucesso Assim Assado. O disco atira – e acerta – em outros alvos, entre eles regravações de músicas de Itamar Assumpção (Transpiração) e do repertório de Pedro Luís (Seres Tupy).

 
Divulgação
Vive la Fête: elegância  

Nuit Blanche, Vive la Fête (ST2) – A elegante dupla belga Vive la Fête, que tem como padrinho o estilista alemão Karl Lagerfeld, é expoente do electro – uma vertente da música eletrônica que estourou nas pistas de dança há cerca de dois anos e de lá para cá vem se firmando como um dos gêneros mais interessantes dessa cena. Assim como ocorre com outros artistas do ramo, o esquisitão Danny Mommens e a insinuante Els Pynoo – que respondem pelo instrumental e pelos vocais, respectivamente – buscam inspiração no passado. Mais precisamente, na música robótica do grupo alemão Kraftwerk e no tecnopop dos anos 80. Nuit Blanche, seu quarto álbum, é recheado de faixas dançantes, cantadas em francês, e capazes de dar um toque moderno a qualquer festa. Ouça o disco.

 

 

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