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Tales
Alvarenga
O
Estado somos nós
É
devido ao estado de pasmo do governo
que as sardinhas aliadas e os tubarões
tucanos estão mordendo a carne da baleia
petista com redobrado entusiasmo. Sentiram
cheiro de animal acuado
O
presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi criticado na semana
passada por ter pedido a ajuda de Deus para "aqueles que estão
desempregados". A frase soou como se Lula, em desespero, estivesse
transferindo a faixa presidencial para alguém mais poderoso.
Como se pode descartar um acesso de fé religiosa no presidente,
cai-se no óbvio. Ele está menos seguro sobre seu poder
de consertar o Brasil. Isso é um bom sinal para o que resta
de seu mandato. Um traço preocupante de Lula no início
do governo era justamente aquela exibição contínua
de onipotência nos discursos que fazia. Lembrava o rei francês
Luís XIV, que deixou como legado uma frase de auto-apreciação:
"O Estado? O Estado sou eu".
O
Lula dos primeiros tempos no Planalto estava embevecido com a transformação
que promoveria no Brasil. Você se lembra. Prometeu 10 milhões
de novos empregos, disse que o país assistiria ao espetáculo
do crescimento e avisou aos instalados na zona da miséria
que chegara, por fim, o dia da redenção. Todos eles,
sem exceção, fariam três refeições
por dia. Vida real: o governo Lula forneceu desemprego maior, estagnação
econômica e corte nos gastos sociais. A máquina de
gestão montada em Brasília simplesmente não
soube responder aos desafios brasileiros. A razão está,
em boa parte, na incompetência e na gana dos quadros governamentais
petistas. "O Estado? O Estado é nosso!" – é o que
eles parecem estar dizendo o tempo todo. Atacaram os cargos disponíveis
com fome de retirantes, enquanto Lula esperava sentado pelas fórmulas
mágicas.
Os
projetos nunca vieram. Quando vieram, como no caso do Fome Zero,
não deram certo. Com exceção da ilha Antonio
Palocci, o ministro da Fazenda, pouca coisa se destaca na ação
das outras três dezenas de ministérios. Lula tomou
posse acreditando encarnar os anseios históricos do povo
brasileiro. Aos poucos, sem conseguir os resultados espetaculares
que imaginava produzir, foi encolhendo sua retórica até
clamar agora pelo auxílio divino. Há uma lição
de humildade e realismo na trajetória percorrida pelo presidente
desde a posse. O caso Waldomiro Diniz foi o divisor de águas.
Se havia ainda alguma dúvida sobre as dificuldades do governo,
ela acabou ali. Além de não ter um projeto decente
para o Brasil, como tiveram Getúlio ou JK, a equipe de Lula
também perdeu a iniciativa no cotidiano. É devido
a esse estado de pasmo que as sardinhas aliadas e os tubarões
tucanos estão mordendo a carne da baleia petista com redobrado
entusiasmo. Sentiram cheiro de animal acuado.
Lula
passou meses no Planalto repetindo bravatas a respeito da incompetência
dos antecessores e da visão superior de sua equipe de ministros,
como se a crendice ideológica do PT fosse suficiente para
produzir mudança na paisagem. O apelo que fez a Deus dias
atrás, mesmo que inócuo e demagógico, indica
que por fim desistiu da idéia de que é ungido pela
infalibilidade de que os socialistas se julgam investidos. É
possível que o novo tom de Lula, uma oitava abaixo, signifique
que o Brasil tem hoje um presidente mais maduro do que aquele que
tomou posse há pouco mais de um ano. Isso seria muito bom
porque, afinal, se o Estado somos nós, o povo, o Planalto
já percebeu que esse povo, de acordo com as pesquisas, está
cada vez querendo mais resultados concretos e menos retórica
oca.
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