Edição 1850 . 21 de abril de 2004

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Tales Alvarenga
O Estado somos nós

É devido ao estado de pasmo do governo
que as sardinhas aliadas e os tubarões
tucanos estão mordendo a carne da baleia
petista com redobrado entusiasmo. Sentiram
cheiro de animal acuado

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi criticado na semana passada por ter pedido a ajuda de Deus para "aqueles que estão desempregados". A frase soou como se Lula, em desespero, estivesse transferindo a faixa presidencial para alguém mais poderoso. Como se pode descartar um acesso de fé religiosa no presidente, cai-se no óbvio. Ele está menos seguro sobre seu poder de consertar o Brasil. Isso é um bom sinal para o que resta de seu mandato. Um traço preocupante de Lula no início do governo era justamente aquela exibição contínua de onipotência nos discursos que fazia. Lembrava o rei francês Luís XIV, que deixou como legado uma frase de auto-apreciação: "O Estado? O Estado sou eu".

O Lula dos primeiros tempos no Planalto estava embevecido com a transformação que promoveria no Brasil. Você se lembra. Prometeu 10 milhões de novos empregos, disse que o país assistiria ao espetáculo do crescimento e avisou aos instalados na zona da miséria que chegara, por fim, o dia da redenção. Todos eles, sem exceção, fariam três refeições por dia. Vida real: o governo Lula forneceu desemprego maior, estagnação econômica e corte nos gastos sociais. A máquina de gestão montada em Brasília simplesmente não soube responder aos desafios brasileiros. A razão está, em boa parte, na incompetência e na gana dos quadros governamentais petistas. "O Estado? O Estado é nosso!" – é o que eles parecem estar dizendo o tempo todo. Atacaram os cargos disponíveis com fome de retirantes, enquanto Lula esperava sentado pelas fórmulas mágicas.

Os projetos nunca vieram. Quando vieram, como no caso do Fome Zero, não deram certo. Com exceção da ilha Antonio Palocci, o ministro da Fazenda, pouca coisa se destaca na ação das outras três dezenas de ministérios. Lula tomou posse acreditando encarnar os anseios históricos do povo brasileiro. Aos poucos, sem conseguir os resultados espetaculares que imaginava produzir, foi encolhendo sua retórica até clamar agora pelo auxílio divino. Há uma lição de humildade e realismo na trajetória percorrida pelo presidente desde a posse. O caso Waldomiro Diniz foi o divisor de águas. Se havia ainda alguma dúvida sobre as dificuldades do governo, ela acabou ali. Além de não ter um projeto decente para o Brasil, como tiveram Getúlio ou JK, a equipe de Lula também perdeu a iniciativa no cotidiano. É devido a esse estado de pasmo que as sardinhas aliadas e os tubarões tucanos estão mordendo a carne da baleia petista com redobrado entusiasmo. Sentiram cheiro de animal acuado.

Lula passou meses no Planalto repetindo bravatas a respeito da incompetência dos antecessores e da visão superior de sua equipe de ministros, como se a crendice ideológica do PT fosse suficiente para produzir mudança na paisagem. O apelo que fez a Deus dias atrás, mesmo que inócuo e demagógico, indica que por fim desistiu da idéia de que é ungido pela infalibilidade de que os socialistas se julgam investidos. É possível que o novo tom de Lula, uma oitava abaixo, signifique que o Brasil tem hoje um presidente mais maduro do que aquele que tomou posse há pouco mais de um ano. Isso seria muito bom porque, afinal, se o Estado somos nós, o povo, o Planalto já percebeu que esse povo, de acordo com as pesquisas, está cada vez querendo mais resultados concretos e menos retórica oca.

 
 
 
 
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