Edição 1850 . 21 de abril de 2004

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Ensaio: Roberto Pompeu de Toledo
Na Rocinha, como
em Falluja

As favelas do Rio vivem entre a dupla
ameaça dos Saddam Hussein locais
e dos "libertadores" incompetentes

Um, dois, quatro, cinco... É assim que se deve contar. Numa favela da Zona Oeste carioca as crianças distribuem entre elas a ordem de participação numa brincadeira. "O primeiro vai ser você. O segundo você, o quarto ele, o quinto..." Nada de três, nada de terceiro. "Terceiro" lembra "Terceiro Comando", a facção criminosa rival daquela que domina a área, o "Comando Vermelho". Portanto, bico calado. Mesmo as crianças que brincam na rua sabem que pronunciar uma palavra que invoque o nome do inimigo pode ocasionar sérias dores de cabeça.

Uma reportagem no site Viva Favela (vivafavela.com.br), intitulada "Código de conduta" e assinada por Carlos Collier, revela as leis a que estão submetidos os moradores das favelas do Rio de Janeiro. "Na rotina dos moradores de comunidades", escreve o autor da reportagem, "as regras de convivência com o tráfico não precisam estar escritas. Em sua maioria, estão implícitas no dia-a-dia e são conhecidas por todos. Obedecê-las é uma questão de sobrevivência – não de cumplicidade." Um adolescente que recentemente tentou visitar um amigo em território sob o domínio do Comando Vermelho foi barrado por causa da roupa que usava. A camisa do Real Madrid, com o nome do jogador Roberto Carlos, exibia o duplo equívoco de ser azul, a cor do adversário, e de portar nas costas o número três. Para maior azar, o jovem usava bermudas da marca TCK, preferida do inimigo, que traduz a sigla por "Terceiro Comando do Kiko". Em domínios do Comando Vermelho, a cor de rigor é, evidentemente, o vermelho, e a marca de roupa aconselhável é "Quebra Vento", que lembraria a sigla CV.

As paredes das favelas estampam slogans das facções dominantes no local. Ordens novas, julgadas necessárias diante de determinadas situações, às vezes são inscritas em placas expostas nas ruas, outras vezes são transmitidas pessoalmente. Uma moradora – é sempre a reportagem do Viva Favela que conta – foi avisada pelos integrantes (ou seriam "funcionários"?) da boca-de-fumo vizinha de que estavam proibidos os cachorros no local. Cachorros atrapalham, na hora de pular muros para fugir da polícia ou de bandos rivais, e além disso latem em situações que recomendam silêncio. A moradora era convidada a se desfazer de seu cão ou – concessão especial – mantê-lo preso na coleira.

Os donos do poder nas favelas agem em nome do que chamam de "movimento", como se fossem uma organização política. O "movimento", na maioria das favelas, só permite a entrada de carros de não-moradores mediante autorização. Sejam moradores ou não, a ordem é, à noite, circular com faróis baixos e luz interna acesa. Os vidros escurecidos estão proibidos. Também está proibido, ao contrário das regras de trânsito em vigor no país, o uso do capacete pelos motoqueiros. Uma vendedora que precisou visitar uma favela fez tudo como lhe recomendaram. Acertou tudo com antecedência e entrou na hora marcada, com o carro em baixa velocidade e os vidros das janelas abaixados. Na hora de estacionar, porém, trancou o carro. Convidaram-na a destrancar. Aquilo era uma descortesia para com os traficantes.

As leis do tráfico não só se imiscuem no jeito de as pessoas se vestirem, nem se limitam a impor limites ao ir e vir. Podem também invadir "a privacidade da vida conjugal", segundo a reportagem do Viva Favela. "Na briga entre polícia e tráfico ou na disputa das diferentes facções criminosas", conclui o texto, "só existe uma certeza: os moradores vivem sob liberdade vigiada." Na Semana Santa, eclodiu a guerra da Rocinha. As hostilidades entre o bando do tal "Dudu" e o do tal "Lulu", e a posterior intervenção da polícia, resultaram em mais de dez mortes e se desdobraram numa brigalhada que opôs o governo dos Garotinhos a Brasília. Quase ao mesmo tempo eclodiu a insurreição em Falluja, Najaf e outras cidades do Iraque contra o invasor americano. No Iraque os insurretos têm nas mesquitas seu reduto predileto. Na Rocinha, posicionam-se no cenário igualmente típico de uma certa cultura, e igualmente complicado de ser atacado, das lajes que encimam as rudes construções locais.

O Iraque e o Rio de Janeiro são realidades diferentes, mas dois fatores os aproximam. Primeiro: os Saddam Hussein não são estranhos à paisagem carioca. Em cada favela, reina ditadura semelhante à que antes atormentava os iraquianos. Segundo: as intervenções de fora, visando à pacificação nas favelas e o combate às ditaduras ali instaladas, podem se revelar tão desastradas quanto a alegada tentativa americana de levar a "democracia" ao Iraque. Em outra reportagem do Viva Favela, uma moradora da Rocinha confessa ter "medo de tudo", mas acrescenta que, mais ainda que o confronto entre facções rivais, teme o confronto da polícia com os criminosos. Por quê? Ela explica: "Porque os marginais conhecem o morro inteiro, beco por beco, então é mais difícil de matar um trabalhador, um inocente. Já quando a polícia sobe, como não sabe quem é quem, acaba atirando e matando todo mundo. Morre quem estiver na frente".

 
 
 
 
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