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Ensaio:
Roberto
Pompeu de Toledo
Na Rocinha, como
em
Falluja
As
favelas do Rio vivem entre a dupla
ameaça dos Saddam Hussein locais
e dos "libertadores" incompetentes
Um,
dois, quatro, cinco... É assim que se deve contar. Numa favela
da Zona Oeste carioca as crianças distribuem entre elas a
ordem de participação numa brincadeira. "O primeiro
vai ser você. O segundo você, o quarto ele, o quinto..."
Nada de três, nada de terceiro. "Terceiro" lembra "Terceiro
Comando", a facção criminosa rival daquela que domina
a área, o "Comando Vermelho". Portanto, bico calado. Mesmo
as crianças que brincam na rua sabem que pronunciar uma palavra
que invoque o nome do inimigo pode ocasionar sérias dores
de cabeça.
Uma
reportagem no site Viva Favela (vivafavela.com.br), intitulada "Código
de conduta" e assinada por Carlos Collier, revela as leis a que
estão submetidos os moradores das favelas do Rio de Janeiro.
"Na rotina dos moradores de comunidades", escreve o autor da reportagem,
"as regras de convivência com o tráfico não
precisam estar escritas. Em sua maioria, estão implícitas
no dia-a-dia e são conhecidas por todos. Obedecê-las
é uma questão de sobrevivência não
de cumplicidade." Um adolescente que recentemente tentou visitar
um amigo em território sob o domínio do Comando Vermelho
foi barrado por causa da roupa que usava. A camisa do Real Madrid,
com o nome do jogador Roberto Carlos, exibia o duplo equívoco
de ser azul, a cor do adversário, e de portar nas costas
o número três. Para maior azar, o jovem usava bermudas
da marca TCK, preferida do inimigo, que traduz a sigla por "Terceiro
Comando do Kiko". Em domínios do Comando Vermelho, a cor
de rigor é, evidentemente, o vermelho, e a marca de roupa
aconselhável é "Quebra Vento", que lembraria a sigla
CV.
As
paredes das favelas estampam slogans das facções dominantes
no local. Ordens novas, julgadas necessárias diante de determinadas
situações, às vezes são inscritas em
placas expostas nas ruas, outras vezes são transmitidas pessoalmente.
Uma moradora é sempre a reportagem do Viva Favela
que conta foi avisada pelos integrantes (ou seriam "funcionários"?)
da boca-de-fumo vizinha de que estavam proibidos os cachorros no
local. Cachorros atrapalham, na hora de pular muros para fugir da
polícia ou de bandos rivais, e além disso latem em
situações que recomendam silêncio. A moradora
era convidada a se desfazer de seu cão ou concessão
especial mantê-lo preso na coleira.
Os
donos do poder nas favelas agem em nome do que chamam de "movimento",
como se fossem uma organização política. O
"movimento", na maioria das favelas, só permite a entrada
de carros de não-moradores mediante autorização.
Sejam moradores ou não, a ordem é, à noite,
circular com faróis baixos e luz interna acesa. Os vidros
escurecidos estão proibidos. Também está proibido,
ao contrário das regras de trânsito em vigor no país,
o uso do capacete pelos motoqueiros. Uma vendedora que precisou
visitar uma favela fez tudo como lhe recomendaram. Acertou tudo
com antecedência e entrou na hora marcada, com o carro em
baixa velocidade e os vidros das janelas abaixados. Na hora de estacionar,
porém, trancou o carro. Convidaram-na a destrancar. Aquilo
era uma descortesia para com os traficantes.
As
leis do tráfico não só se imiscuem no jeito
de as pessoas se vestirem, nem se limitam a impor limites ao ir
e vir. Podem também invadir "a privacidade da vida conjugal",
segundo a reportagem do Viva Favela. "Na briga entre polícia
e tráfico ou na disputa das diferentes facções
criminosas", conclui o texto, "só existe uma certeza: os
moradores vivem sob liberdade vigiada." Na Semana Santa, eclodiu
a guerra da Rocinha. As hostilidades entre o bando do tal "Dudu"
e o do tal "Lulu", e a posterior intervenção da polícia,
resultaram em mais de dez mortes e se desdobraram numa brigalhada
que opôs o governo dos Garotinhos a Brasília. Quase
ao mesmo tempo eclodiu a insurreição em Falluja, Najaf
e outras cidades do Iraque contra o invasor americano. No Iraque
os insurretos têm nas mesquitas seu reduto predileto. Na Rocinha,
posicionam-se no cenário igualmente típico de uma
certa cultura, e igualmente complicado de ser atacado, das lajes
que encimam as rudes construções locais.
O
Iraque e o Rio de Janeiro são realidades diferentes, mas
dois fatores os aproximam. Primeiro: os Saddam Hussein não
são estranhos à paisagem carioca. Em cada favela,
reina ditadura semelhante à que antes atormentava os iraquianos.
Segundo: as intervenções de fora, visando à
pacificação nas favelas e o combate às ditaduras
ali instaladas, podem se revelar tão desastradas quanto a
alegada tentativa americana de levar a "democracia" ao Iraque. Em
outra reportagem do Viva Favela, uma moradora da Rocinha confessa
ter "medo de tudo", mas acrescenta que, mais ainda que o confronto
entre facções rivais, teme o confronto da polícia
com os criminosos. Por quê? Ela explica: "Porque os marginais
conhecem o morro inteiro, beco por beco, então é mais
difícil de matar um trabalhador, um inocente. Já quando
a polícia sobe, como não sabe quem é quem,
acaba atirando e matando todo mundo. Morre quem estiver na frente".
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