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Cinema
O
sumo sacerdote
Só
Quentin Tarantino poderia
ter
imaginado Kill Bill e só os
fiéis de sua seita é que poderão
decifrá-lo na íntegra

Isabela
Boscov
Divulgação
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AP
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| Uma
Thurman, ou "A Noiva", busca vingança: agora as fantasias do
diretor (à dir.) é que estão no comando |
Quando
Quentin Tarantino fez Cães de Aluguel, em 1992, e
Pulp Fiction, em 1994, ele era um cineasta em controle das
suas vívidas e copiosas fantasias. Tão em controle,
diga-se, que com apenas dois filmes conseguiu incorporá-las
ao vocabulário básico do público de cinema.
Os gângsteres de terninho preto e codinomes como Mr. Pink
de Cães de Aluguel, por exemplo, entraram direto para
a cultura pop, assim como tudo o mais que havia em Pulp Fiction:
a surf music de segunda linha, o corte de cabelo e os pés
descalços de Uma Thurman, a montagem não-linear que
vai abrindo história dentro de história numa
estrutura construída com parênteses e colchetes, como
uma equação complexa e, claro, John Travolta,
resgatado do limbo para o papel do gângster Vincent Vega e
ressuscitado para toda uma nova geração por meio de
uma antológica cena de dança, aquela em que ele passa
o dedo indicador e o médio em forma de "V" diante dos olhos.
São poucos os diretores que podem se gabar não apenas
de ter sacudido o cinema assim, de um só golpe, como também
de ter transformado sua revolução particular num movimento
popular. Talvez o outro caso seja o do suíço Jean-Luc
Godard, com quem Tarantino divide o talento inato para formar imagens
que arrebatam ou surpreendem pela sua simples existência,
independentemente do sentido que elas tenham (ou não tenham,
como às vezes acontece). Em 1997, Tarantino continuou sua
missão com Jackie Brown e algo desandou. Jackie
Brown ganhou uma recepção fria, e quebrou a comunhão
do diretor com o público. Esse mesmo mal parece acometer
Kill Bill Volume 1 (Kill Bill Volume 1,
Estados Unidos, 2003), que estréia nesta sexta-feira no país.
Nenhum outro cineasta que não Tarantino poderia ter imaginado
ou realizado Kill Bill. E essa virtude é, sob certos
pontos de vista, uma espécie de falha.
Pelo
roteiro escrito, Kill Bill deveria ter ficado com algo como
100 minutos. Mas Tarantino filmou tanto que foi preciso dividi-lo
em duas partes a segunda tem estréia prevista no Brasil
para outubro. O filme acompanha a vingança de "A Noiva",
ou Uma Thurman, cuja festa de casamento foi transformada numa chacina
por ordem de Bill (David Carradine), líder do grupo conhecido
como Esquadrão de Assassinato das Víboras Mortais.
A Noiva perde a filha que esperava e passa quatro anos em coma.
Quando acorda, obriga-se a recuperar seus movimentos numa
cena sensacional, em que o diretor mais uma vez dá vazão
a sua podolatria e vai atrás dos ex-companheiros de
esquadrão. Em termos muito resumidos, Kill Bill é
uma longa enfiada de cenas de luta, com todos os exageros e esguichos
de sangue que se esperam de Tarantino. Trocado em miúdos,
porém, é a mais densa e extensa fantasia que um rato
de videolocadora já concebeu. De seriados antigos como Charlie
Chan e O Besouro Verde aos filmes de ação
baratos produzidos para o público negro nos anos 70, passando
pelos faroestes de Sergio Leone e pelos filmes de artes marciais
de Hong Kong, não há referência a que o diretor
não recorra. Essa é a parte extensa. A densa está
na maneira como ele equilibra seu humor peculiar com drama, na forma
como manipula o tempo e na atuação emocional que tira
de sua musa Uma Thurman, que engravidou antes de as filmagens começarem
e por quem ele esperou quase dois anos até poder retomar
o trabalho. Não é que Tarantino tenha uma "mensagem"
a transmitir por meio desses recursos que ele domina tão
bem. O que ele tem a dar é um recado, o mesmo de sempre:
que adora ver filmes e fazer filmes, nessa ordem, e que o cinema
é, para ele, um universo que se basta em si mesmo.
Muito
já se falou sobre o repertório de Tarantino, o nerd
que conhece mais filmes obscuros do que qualquer outro mortal. Mas
a convicção com que ele constrói seu mundo
particular valida sua filosofia. Um exemplo magistral está
na cena em que a vilã O-Ren Ishii (Lucy Liu, de As Panteras)
relembra o dia em que seus pais foram assassinados pela máfia
japonesa e ela fez de matar o seu credo. A seqüência
é toda feita em anime, o estilo japonês de animação,
e sublinhada por um tema de Ennio Morricone aquele que, em
Era Uma Vez no Oeste, acompanha a cena em que se vê
como Henry Fonda matou o irmão de Charles Bronson e este
lhe jurou vingança. Mas há uma pegadinha: quanto da
beleza especial dessa cena de Kill Bill o espectador vai
registrar se ele não tiver familiaridade com as convenções
do anime ou desconhecer a culminação que esse
flashback representa na obra de Leone? Ou por que ele acharia divertido
os asseclas de O-Ren Ishii usarem máscaras iguais às
de Kato, o personagem de Bruce Lee em O Besouro Verde, se
nunca assistiu ao seriado? O problema de Kill Bill é
que, ao contrário dos primeiros filmes do diretor, que iniciavam
a platéia num idioma, este se dirige só a quem já
é fluente nele. Agora as fantasias de Tarantino é
que estão no comando. E o que elas produziram é um
filme feito para uma confraria. Para quem faz parte dela, chega
ao fabuloso. Para quem está de fora, só resta desejar
boa sorte.
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