Edição 1850 . 21 de abril de 2004

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Cinema
O sumo sacerdote

Só Quentin Tarantino poderia
ter imaginado Kill Bill – e só os
fiéis de sua seita é que
poderão
decifrá-lo na íntegra


Isabela Boscov

 
Divulgação
AP
Uma Thurman, ou "A Noiva", busca vingança: agora as fantasias do diretor (à dir.) é que estão no comando

Trailer e fotos do filme

Quando Quentin Tarantino fez Cães de Aluguel, em 1992, e Pulp Fiction, em 1994, ele era um cineasta em controle das suas vívidas e copiosas fantasias. Tão em controle, diga-se, que com apenas dois filmes conseguiu incorporá-las ao vocabulário básico do público de cinema. Os gângsteres de terninho preto e codinomes como Mr. Pink de Cães de Aluguel, por exemplo, entraram direto para a cultura pop, assim como tudo o mais que havia em Pulp Fiction: a surf music de segunda linha, o corte de cabelo e os pés descalços de Uma Thurman, a montagem não-linear que vai abrindo história dentro de história – numa estrutura construída com parênteses e colchetes, como uma equação complexa – e, claro, John Travolta, resgatado do limbo para o papel do gângster Vincent Vega e ressuscitado para toda uma nova geração por meio de uma antológica cena de dança, aquela em que ele passa o dedo indicador e o médio em forma de "V" diante dos olhos. São poucos os diretores que podem se gabar não apenas de ter sacudido o cinema assim, de um só golpe, como também de ter transformado sua revolução particular num movimento popular. Talvez o outro caso seja o do suíço Jean-Luc Godard, com quem Tarantino divide o talento inato para formar imagens que arrebatam ou surpreendem pela sua simples existência, independentemente do sentido que elas tenham (ou não tenham, como às vezes acontece). Em 1997, Tarantino continuou sua missão com Jackie Brown – e algo desandou. Jackie Brown ganhou uma recepção fria, e quebrou a comunhão do diretor com o público. Esse mesmo mal parece acometer Kill Bill ­ Volume 1 (Kill Bill ­ Volume 1, Estados Unidos, 2003), que estréia nesta sexta-feira no país. Nenhum outro cineasta que não Tarantino poderia ter imaginado ou realizado Kill Bill. E essa virtude é, sob certos pontos de vista, uma espécie de falha.

Pelo roteiro escrito, Kill Bill deveria ter ficado com algo como 100 minutos. Mas Tarantino filmou tanto que foi preciso dividi-lo em duas partes – a segunda tem estréia prevista no Brasil para outubro. O filme acompanha a vingança de "A Noiva", ou Uma Thurman, cuja festa de casamento foi transformada numa chacina por ordem de Bill (David Carradine), líder do grupo conhecido como Esquadrão de Assassinato das Víboras Mortais. A Noiva perde a filha que esperava e passa quatro anos em coma. Quando acorda, obriga-se a recuperar seus movimentos – numa cena sensacional, em que o diretor mais uma vez dá vazão a sua podolatria – e vai atrás dos ex-companheiros de esquadrão. Em termos muito resumidos, Kill Bill é uma longa enfiada de cenas de luta, com todos os exageros e esguichos de sangue que se esperam de Tarantino. Trocado em miúdos, porém, é a mais densa e extensa fantasia que um rato de videolocadora já concebeu. De seriados antigos como Charlie Chan e O Besouro Verde aos filmes de ação baratos produzidos para o público negro nos anos 70, passando pelos faroestes de Sergio Leone e pelos filmes de artes marciais de Hong Kong, não há referência a que o diretor não recorra. Essa é a parte extensa. A densa está na maneira como ele equilibra seu humor peculiar com drama, na forma como manipula o tempo e na atuação emocional que tira de sua musa Uma Thurman, que engravidou antes de as filmagens começarem e por quem ele esperou quase dois anos até poder retomar o trabalho. Não é que Tarantino tenha uma "mensagem" a transmitir por meio desses recursos que ele domina tão bem. O que ele tem a dar é um recado, o mesmo de sempre: que adora ver filmes e fazer filmes, nessa ordem, e que o cinema é, para ele, um universo que se basta em si mesmo.

Muito já se falou sobre o repertório de Tarantino, o nerd que conhece mais filmes obscuros do que qualquer outro mortal. Mas a convicção com que ele constrói seu mundo particular valida sua filosofia. Um exemplo magistral está na cena em que a vilã O-Ren Ishii (Lucy Liu, de As Panteras) relembra o dia em que seus pais foram assassinados pela máfia japonesa e ela fez de matar o seu credo. A seqüência é toda feita em anime, o estilo japonês de animação, e sublinhada por um tema de Ennio Morricone – aquele que, em Era Uma Vez no Oeste, acompanha a cena em que se vê como Henry Fonda matou o irmão de Charles Bronson e este lhe jurou vingança. Mas há uma pegadinha: quanto da beleza especial dessa cena de Kill Bill o espectador vai registrar se ele não tiver familiaridade com as convenções do anime ou desconhecer a culminação que esse flashback representa na obra de Leone? Ou por que ele acharia divertido os asseclas de O-Ren Ishii usarem máscaras iguais às de Kato, o personagem de Bruce Lee em O Besouro Verde, se nunca assistiu ao seriado? O problema de Kill Bill é que, ao contrário dos primeiros filmes do diretor, que iniciavam a platéia num idioma, este se dirige só a quem já é fluente nele. Agora as fantasias de Tarantino é que estão no comando. E o que elas produziram é um filme feito para uma confraria. Para quem faz parte dela, chega ao fabuloso. Para quem está de fora, só resta desejar boa sorte.

 
 
 
 
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