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Televisão
A
evolução das séries
Talentos,
dinheiro e um processo implacável de
seleção natural tornam os seriados da televisão
americana cada vez mais atraentes

Marcelo Marthe, de Nova York
Divulgação/ABC
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Jennifer
Garner, de Alias: séries tiveram um salto qualitativo
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Divulgação
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| Os
elementos de Friends: negócio bilionário
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Tempos atrás, era comum chamar de "enlatados" os seriados
da TV americana. Essa expressão pejorativa, no entanto, perdeu
muito de sua razão de ser. Comédias ou dramas, esses
programas hoje são frutos de uma indústria que vive
uma fase de efervescência sem precedentes. O investimento
em produção, dos cenários aos efeitos especiais,
é cada vez maior, e pode chegar a 6 milhões de dólares
em um único episódio. Uma nova e talentosa geração
de roteiristas despontou e foi acolhida pelos canais de TV. Ela
tem produzido atrações tão originais quanto
Família Soprano, que revira pelo avesso os clichês
dos dramas de família e filmes de gângsteres, Scrubs,
comédia ambientada num hospital, 24 Horas, thriller
em que cada hora de programa corresponde a uma hora de tempo real
na trama, ou Sex and the City, que aborda a vida sexual de
mulheres na faixa dos 30 anos com franqueza e humor desconcertantes.
"As melhores revelações da dramaturgia americana sonham
hoje em trabalhar nos seriados", diz Fred Berner, produtor executivo
de um sucesso do gênero policial, a série Lei &
Ordem: Criminal Intent. Algo parecido vale para os atores. Houve
época em que a televisão era considerada um refúgio
onde as estrelas caídas de Hollywood esperavam pela aposentadoria.
Agora, ocorre o inverso: suas comédias e dramas tornaram-se
um veículo poderoso para lançar carreiras. Atrizes
como Jennifer Aniston, da comédia Friends, e Jennifer
Garner, a heroína de Alias, viraram celebridades mundiais
sem nunca ter feito um filme digno de nota. Nos Estados Unidos,
os seriados ocupam cerca de 50% do horário nobre das redes
de televisão e, a cada semana, atraem mais de 150 milhões
de espectadores (veja
quadro). O resultado se repete ao redor do mundo.
As séries estão entre as principais atrações
da TV a cabo brasileira e, em alguns casos, fazem bonito também
nas emissoras abertas. 24 Horas, por exemplo, obteve recentemente
a média de 11 pontos no Ibope nos fins de noite da Rede Globo.
VEJA
teve acesso aos bastidores de uma das séries de maior audiência
dos Estados Unidos. Durante três dias, a reportagem acompanhou
as filmagens e entrevistou atores, produtores e roteiristas do drama
criminal Lei & Ordem e de um "filhote" do programa, Lei
& Ordem: Criminal Intent. Junto com uma terceira variante,
Lei & Ordem: Special Victims Unit, eles formam o franchising
mais lucrativo da TV americana. Os três programas encontram-se
entre as vinte maiores audiências do país e recentemente
estiveram no centro de um meganegócio. Seus criadores, o
produtor Dick Wolf e o estúdio Universal, pediram à
rede NBC 1,6 bilhão de dólares para renovar seus direitos
por três anos. Feitas as contas, a General Electric, dona
da emissora, concluiu que era mais vantajoso comprar a Universal
– e assim o fez. A maioria das locações de Lei
& Ordem, que é exibida no Brasil pelos canais USA
e Sony e figura entre as séries mais populares da TV paga
nacional, não é em estúdio, e sim nas ruas
e prédios de Nova York. Numa das gravações,
a sede da liga atlética da polícia nova-iorquina serviu
de cenário para simular uma delegacia. Mais de 100 pessoas
estão envolvidas numa filmagem desse tipo, dos cinegrafistas
às dezenas de atores que embolsam 200 dólares por
dia para fazer figuração. Para gravar uma cena que
na versão final não terá mais que quatro minutos,
gasta-se metade de um dia. Cada episódio custa 3 milhões
de dólares e consome uma semana de filmagem, mais outra para
edição e pós-produção.
A
nova ordem na TV americana começou a se delinear há
cerca de quinze anos, quando as emissoras e os estúdios resolveram
cortar o poder excessivo de alguns produtores e passaram a ir direto
às fontes de idéias: os roteiristas. Esses profissionais
acabaram se tornando tão influentes que surgiu até
mesmo a figura do roteirista-celebridade – da qual o maior expoente
é David Kelley, autor de séries como Ally McBeal
e marido da atriz Michelle Pfeiffer. Os roteiristas sentem-se atraídos
não só pelos cachês polpudos como também
pela possibilidade de ver seus trabalhos serem produzidos rapidamente.
A trajetória de Rene Balcer, criador de Lei & Ordem:
Criminal Intent, mostra como esse detalhe pode fazer diferença.
Durante dez anos de trabalho em Hollywood, ele produziu mais de
cinqüenta roteiros de longas-metragens, inclusive dois para
um diretor como Francis Ford Coppola. "Embolsei cachês excepcionais,
mas me sentia frustrado. Até hoje, nenhum de meus roteiros
virou filme", diz Balcer. Para os atores, o trabalho na televisão
também oferece vantagens que, freqüentemente, são
maiores do que as que eles obteriam em Hollywood. "Gosto de fazer
cinema, mas nem sempre aparecem bons papéis quando você
não é Tom Cruise. E o que ganho aqui é irrecusável",
diz o ator Vincent D'Onofrio, protagonista de Criminal Intent.
Estima-se que seu salário gire em torno de 300.000 dólares
por episódio.
O
negócio dos seriados ganhou um dinamismo impressionante:
as emissoras estão sempre investindo em novas fórmulas
e são rápidas no gatilho para trocar um programa que
não emplaca por outro. "Quem fala que trabalhar em Hollywood
é dureza precisa conhecer os bastidores da televisão.
A qualquer derrapagem nos índices de audiência, seu
programa é extinto", diz o produtor executivo Matthew Penn.
Essas execuções sumárias têm seu lado
negativo. As duas séries criminais de maior sucesso da TV
americana – Lei & Ordem e C.S.I. – não
teriam vingado se o pragmatismo da indústria fosse sempre
levado a ferro e fogo. Dick Wolf criou Lei & Ordem para
a rede CBS, mas esta não quis comprar o programa. Ele só
conseguiu repassá-lo à concorrente NBC porque a emissora
tinha interesse por outra série sua e Wolf forçou
uma venda casada. Em seus primeiros tempos, o seriado quase foi
cancelado por causa dos índices de audiência. C.S.I.,
um suspense criminal que consegue tornar instigantes os aspectos
mais técnicos e mórbidos da medicina legal, foi desenvolvido
para a Disney. Ao ver o piloto, a companhia ponderou que o programa
era caro e não faria sucesso, e pulou fora do projeto. O
Alliance Atlantis, um obscuro estúdio canadense, topou bancar
a série e deu a tacada mais formidável de sua existência.
A dinâmica da indústria dos seriados também
tem, contudo, uma função importante. Ela força
os estúdios e emissoras a não se acomodar: para manter-se
em dia na guerra pela audiência, eles precisam criar sempre
programas novos e atraentes. Com alguma sorte, às vezes trazem
à tona atrações que conseguem chegar aos dez
anos de idade, como Lei & Ordem e Friends. Mas
isso é como ganhar na loto. Na seleção natural
dos seriados, só um em mil alcança esse feito.
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A
linha de montagem
Divulgação
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Há
catorze anos no ar, o seriado Lei & Ordem (foto
acima) é um dos dramas criminais de maior
sucesso da TV americana. Confira passos da filmagem
de um programa do gênero
Fotos divulgação
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gação
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| Numa
primeira etapa, atores substitutos (à esq.),
usando os mesmos figurinos dos protagonistas, posam
para as câmeras acertarem a luz e o enquadramento.
Só depois de cerca de duas horas de pré-produção
o elenco verdadeiro entra em cena (à dir.) |
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Uma
indústria a todo o vapor
Os
seriados americanos preenchem metade do horário
nobre das redes de televisão dos Estados Unidos
e são vistos a cada semana por mais de 150 milhões
de espectadores. Veja como é a luta por um lugar
ao sol nesse mercado ultracompetitivo
O
leilão de idéias
Mais
de 1 000 projetos de novos seriados surgem a cada ano.
Estúdios, produtores e roteiristas apresentam
suas propostas às redes de TV. Às vezes,
desenvolvem séries sob encomenda – quando a emissora
deseja, por exemplo, um programa para um público
específico, como as mulheres ou os jovens.
A
seleção
Cerca
de 90% dos projetos são descartados. Os que sobram
ganham pilotos – episódios produzidos a título
de teste. Em 2003, as redes americanas investiram em
138 pilotos (cada um não sai por menos de 1 milhão
de dólares). Apenas cinqüenta tornaram-se
programas.
O
teste da audiência
Sete
em cada dez novos seriados são acometidos pela
morte súbita. Saem do ar pouco depois da estréia,
em razão da audiência fraca. Há
casos ainda mais drásticos: na rede ABC, por
exemplo, todas as séries dramáticas que
estrearam nos últimos dois anos foram canceladas
em sua primeira temporada.
Aos
que resistem, os lucros
Os
seriados que sobrevivem mais de duas temporadas são
raros. Mesmo com o sucesso, o grosso dos lucros só
vem depois de dois ou três anos, com a venda dos
episódios antigos para reexibição
em centenas de emissoras regionais. Mais raros ainda
são aqueles que chegam aos dez anos no ar, como
Friends e Lei & Ordem: só um
em cada 1 000 realiza essa façanha.
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