Edição 1850 . 21 de abril de 2004

Índice
Brasil
Internacional
Geral
Economia e Negócios
Guia
Artes e Espetáculos
Stephen Kanitz
Sérgio Abranches
Diogo Mainardi
Tales Alvarenga
André Petry
Roberto Pompeu de Toledo
Carta do Editor
Entrevista
Cartas
Radar
Holofote
Contexto
VEJA on-line
Veja essa
Gente
Datas
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos
 
 

Televisão
A evolução das séries

Talentos, dinheiro e um processo implacável de
seleção natural tornam os seriados da televisão
americana cada vez mais atraentes


Marcelo Marthe, de Nova York

 
Divulgação/ABC

Jennifer Garner, de Alias: séries tiveram um salto qualitativo



Divulgação
Os elementos de Friends: negócio bilionário


Tempos atrás, era comum chamar de "enlatados" os seriados da TV americana. Essa expressão pejorativa, no entanto, perdeu muito de sua razão de ser. Comédias ou dramas, esses programas hoje são frutos de uma indústria que vive uma fase de efervescência sem precedentes. O investimento em produção, dos cenários aos efeitos especiais, é cada vez maior, e pode chegar a 6 milhões de dólares em um único episódio. Uma nova e talentosa geração de roteiristas despontou e foi acolhida pelos canais de TV. Ela tem produzido atrações tão originais quanto Família Soprano, que revira pelo avesso os clichês dos dramas de família e filmes de gângsteres, Scrubs, comédia ambientada num hospital, 24 Horas, thriller em que cada hora de programa corresponde a uma hora de tempo real na trama, ou Sex and the City, que aborda a vida sexual de mulheres na faixa dos 30 anos com franqueza e humor desconcertantes. "As melhores revelações da dramaturgia americana sonham hoje em trabalhar nos seriados", diz Fred Berner, produtor executivo de um sucesso do gênero policial, a série Lei & Ordem: Criminal Intent. Algo parecido vale para os atores. Houve época em que a televisão era considerada um refúgio onde as estrelas caídas de Hollywood esperavam pela aposentadoria. Agora, ocorre o inverso: suas comédias e dramas tornaram-se um veículo poderoso para lançar carreiras. Atrizes como Jennifer Aniston, da comédia Friends, e Jennifer Garner, a heroína de Alias, viraram celebridades mundiais sem nunca ter feito um filme digno de nota. Nos Estados Unidos, os seriados ocupam cerca de 50% do horário nobre das redes de televisão e, a cada semana, atraem mais de 150 milhões de espectadores (veja quadro). O resultado se repete ao redor do mundo. As séries estão entre as principais atrações da TV a cabo brasileira e, em alguns casos, fazem bonito também nas emissoras abertas. 24 Horas, por exemplo, obteve recentemente a média de 11 pontos no Ibope nos fins de noite da Rede Globo.

VEJA teve acesso aos bastidores de uma das séries de maior audiência dos Estados Unidos. Durante três dias, a reportagem acompanhou as filmagens e entrevistou atores, produtores e roteiristas do drama criminal Lei & Ordem e de um "filhote" do programa, Lei & Ordem: Criminal Intent. Junto com uma terceira variante, Lei & Ordem: Special Victims Unit, eles formam o franchising mais lucrativo da TV americana. Os três programas encontram-se entre as vinte maiores audiências do país e recentemente estiveram no centro de um meganegócio. Seus criadores, o produtor Dick Wolf e o estúdio Universal, pediram à rede NBC 1,6 bilhão de dólares para renovar seus direitos por três anos. Feitas as contas, a General Electric, dona da emissora, concluiu que era mais vantajoso comprar a Universal – e assim o fez. A maioria das locações de Lei & Ordem, que é exibida no Brasil pelos canais USA e Sony e figura entre as séries mais populares da TV paga nacional, não é em estúdio, e sim nas ruas e prédios de Nova York. Numa das gravações, a sede da liga atlética da polícia nova-iorquina serviu de cenário para simular uma delegacia. Mais de 100 pessoas estão envolvidas numa filmagem desse tipo, dos cinegrafistas às dezenas de atores que embolsam 200 dólares por dia para fazer figuração. Para gravar uma cena que na versão final não terá mais que quatro minutos, gasta-se metade de um dia. Cada episódio custa 3 milhões de dólares e consome uma semana de filmagem, mais outra para edição e pós-produção.

A nova ordem na TV americana começou a se delinear há cerca de quinze anos, quando as emissoras e os estúdios resolveram cortar o poder excessivo de alguns produtores e passaram a ir direto às fontes de idéias: os roteiristas. Esses profissionais acabaram se tornando tão influentes que surgiu até mesmo a figura do roteirista-celebridade – da qual o maior expoente é David Kelley, autor de séries como Ally McBeal e marido da atriz Michelle Pfeiffer. Os roteiristas sentem-se atraídos não só pelos cachês polpudos como também pela possibilidade de ver seus trabalhos serem produzidos rapidamente. A trajetória de Rene Balcer, criador de Lei & Ordem: Criminal Intent, mostra como esse detalhe pode fazer diferença. Durante dez anos de trabalho em Hollywood, ele produziu mais de cinqüenta roteiros de longas-metragens, inclusive dois para um diretor como Francis Ford Coppola. "Embolsei cachês excepcionais, mas me sentia frustrado. Até hoje, nenhum de meus roteiros virou filme", diz Balcer. Para os atores, o trabalho na televisão também oferece vantagens que, freqüentemente, são maiores do que as que eles obteriam em Hollywood. "Gosto de fazer cinema, mas nem sempre aparecem bons papéis quando você não é Tom Cruise. E o que ganho aqui é irrecusável", diz o ator Vincent D'Onofrio, protagonista de Criminal Intent. Estima-se que seu salário gire em torno de 300.000 dólares por episódio.

O negócio dos seriados ganhou um dinamismo impressionante: as emissoras estão sempre investindo em novas fórmulas e são rápidas no gatilho para trocar um programa que não emplaca por outro. "Quem fala que trabalhar em Hollywood é dureza precisa conhecer os bastidores da televisão. A qualquer derrapagem nos índices de audiência, seu programa é extinto", diz o produtor executivo Matthew Penn. Essas execuções sumárias têm seu lado negativo. As duas séries criminais de maior sucesso da TV americana – Lei & Ordem e C.S.I. – não teriam vingado se o pragmatismo da indústria fosse sempre levado a ferro e fogo. Dick Wolf criou Lei & Ordem para a rede CBS, mas esta não quis comprar o programa. Ele só conseguiu repassá-lo à concorrente NBC porque a emissora tinha interesse por outra série sua e Wolf forçou uma venda casada. Em seus primeiros tempos, o seriado quase foi cancelado por causa dos índices de audiência. C.S.I., um suspense criminal que consegue tornar instigantes os aspectos mais técnicos e mórbidos da medicina legal, foi desenvolvido para a Disney. Ao ver o piloto, a companhia ponderou que o programa era caro e não faria sucesso, e pulou fora do projeto. O Alliance Atlantis, um obscuro estúdio canadense, topou bancar a série e deu a tacada mais formidável de sua existência. A dinâmica da indústria dos seriados também tem, contudo, uma função importante. Ela força os estúdios e emissoras a não se acomodar: para manter-se em dia na guerra pela audiência, eles precisam criar sempre programas novos e atraentes. Com alguma sorte, às vezes trazem à tona atrações que conseguem chegar aos dez anos de idade, como Lei & Ordem e Friends. Mas isso é como ganhar na loto. Na seleção natural dos seriados, só um em mil alcança esse feito.

 

A linha de montagem

Divulgação

Há catorze anos no ar, o seriado Lei & Ordem (foto acima) é um dos dramas criminais de maior sucesso da TV americana. Confira passos da filmagem de um programa do gênero


Fotos divulgação
gação
Numa primeira etapa, atores substitutos (à esq.), usando os mesmos figurinos dos protagonistas, posam para as câmeras acertarem a luz e o enquadramento. Só depois de cerca de duas horas de pré-produção o elenco verdadeiro entra em cena (à dir.)

 

Uma indústria a todo o vapor

Os seriados americanos preenchem metade do horário nobre das redes de televisão dos Estados Unidos e são vistos a cada semana por mais de 150 milhões de espectadores. Veja como é a luta por um lugar ao sol nesse mercado ultracompetitivo

O leilão de idéias
Mais de 1 000 projetos de novos seriados surgem a cada ano. Estúdios, produtores e roteiristas apresentam suas propostas às redes de TV. Às vezes, desenvolvem séries sob encomenda – quando a emissora deseja, por exemplo, um programa para um público específico, como as mulheres ou os jovens.

A seleção
Cerca de 90% dos projetos são descartados. Os que sobram ganham pilotos – episódios produzidos a título de teste. Em 2003, as redes americanas investiram em 138 pilotos (cada um não sai por menos de 1 milhão de dólares). Apenas cinqüenta tornaram-se programas.

O teste da audiência
Sete em cada dez novos seriados são acometidos pela morte súbita. Saem do ar pouco depois da estréia, em razão da audiência fraca. Há casos ainda mais drásticos: na rede ABC, por exemplo, todas as séries dramáticas que estrearam nos últimos dois anos foram canceladas em sua primeira temporada.

Aos que resistem, os lucros
Os seriados que sobrevivem mais de duas temporadas são raros. Mesmo com o sucesso, o grosso dos lucros só vem depois de dois ou três anos, com a venda dos episódios antigos para reexibição em centenas de emissoras regionais. Mais raros ainda são aqueles que chegam aos dez anos no ar, como Friends e Lei & Ordem: só um em cada 1 000 realiza essa façanha.

 

 

 
 
 
 
topo voltar