Edição 1850 . 21 de abril de 2004

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Segurança
Exército em casa

Pesquisa mostra que há três vigilantes
clandestinos para cada profissional regular


Chrystiane Silva

 
Egberto Nogueira
Treinamento: empresas investem só 3% da receita em cursos de reciclagem

Ninguém precisa de estatísticas para saber que a segurança pública é insuficiente para combater a violência nas grandes cidades. Essa deficiência fez nascer um promissor segmento de segurança privada no Brasil. O setor cresce 10% a cada ano e movimenta 7,5 bilhões de reais, o equivalente ao faturamento da Esso no Brasil, uma das maiores distribuidoras de petróleo do país. O que as estatísticas mostram agora é qual o perfil dos profissionais e das empresas desse setor. Em um estudo exclusivo, a Federação Nacional das Empresas de Segurança e Transportes de Valor (Fenavist) analisou minuciosamente a vigilância privada. Os números: existem 2.100 empresas de segurança no país, quase o dobro do que há na Itália. A metade delas não tem mais que 100 funcionários. O que mais chama atenção é a clandestinidade. Para cada um dos 334.000 vigilantes habilitados pela Polícia Federal, há outros três que estão na ilegalidade. Os homens predominam e chegam a 97% dos profissionais na área. A maioria tem entre 30 e 39 anos e concluiu apenas o ensino fundamental. Os salários ficam entre 480 e 960 reais por mês. É pouco. Os 85.000 vigilantes privados da Espanha recebem o equivalente a 3 500 reais mensais. A busca por um salário melhor aumenta a rotatividade dos profissionais nas empresas. Na média, eles ficam apenas dois anos e meio em cada companhia.

A segurança privada inclui os serviços de vigilância patrimonial, pessoal, transporte de valores e escolta. Para exercer a profissão, o candidato precisa ter cursado apenas até a 4ª série do ensino fundamental e feito um curso preparatório. A baixa escolaridade explica o despreparo de muitos profissionais. As companhias também investem pouco em treinamento. Por ano, apenas 3% do faturamento é destinado a atualização e reciclagem. "Os novos cursos de formação acrescentam noções de informática e relacionamento interpessoal", diz Jerfferson Simões, presidente da Fenavist. Essas medidas são importantes, 55% dos serviços de segurança são requisitados por grandes e médias empresas, condomínios e segurança particular. O sistema financeiro demanda 15% e o setor público, 30%. Escolher um bom serviço de segurança é tarefa árdua. A ilegalidade faz com que as empresas tenham preços até 40% mais baixos que os das companhias regulares. "O risco de contratar um profissional desqualificado é grande. É preciso consultar sempre os sindicatos. O setor terá de passar por uma profissionalização nos próximos cinco anos, com a redução do número de empresas e a qualificação dos vigilantes", diz Marcelo Ferlini, consultor em segurança. De todas as armas de fogo legais, 4% pertencem à vigilância privada.

Além das fragilidades inerentes ao segmento, a segurança privada ainda enfrenta a concorrência da tecnologia. A segurança eletrônica movimenta 2,3 bilhões de reais por ano e tem roubado o lugar dos vigias nos condomínios. Em 1996, os condomínios paulistanos contratavam 25% de todos os vigilantes do Estado. Hoje, são apenas 10%, o restante foi substituído pela vigilância eletrônica. "Levantar essas informações foi o primeiro passo para modernizar e adequar o setor", diz o presidente da Fenavist. O Brasil ainda terá muito por fazer até atingir os padrões da Inglaterra, considerada um país-modelo na vigilância privada. Os 315.000 vigilantes particulares ingleses trabalham em parceria e colaboram com os guardas públicos. Muito diferente do que acontece por aqui.

 

 

 
 
 
 
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