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Educação
Retrato em preto-e-branco
Cota
para negros na UnB põe
fogo na
discussão sobre o
acesso ao ensino superior

Lucila
Soares
Fotos Ed Ferreira/AE
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Zanchet
(acima), que tentou passar por negro, e Edimarcia Ramos
(abaixo): dúvidas sobre a
eficácia do sistema para democratizar a
universidade
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Na
semana passada, a Universidade de Brasília (UnB) foi palco
de mais um animado capítulo da discussão sobre os
caminhos para democratizar o acesso ao ensino superior. Depois de
três anos de debate, a UnB adotou em seu vestibular uma cota
de 20% para estudantes negros. Durante as inscrições,
estudantes que disputarão os 80% restantes das vagas protestaram,
temendo ser prejudicados na disputa. Ricardo Zanchet, 19 anos e
nenhum traço que lembre a raça negra, alegou que existem
"mais de 200 tipos de negros" e inscreveu-se na cota. Zanchet fez
isso como um protesto debochado. Mas na inscrição
para o vestibular de 2003, na Universidade do Estado do Rio de Janeiro
(Uerj), a primeira do país a adotar cotas, vários
estudantes brancos prevaleceram-se do princípio da autodeclaração
para se beneficiar do sistema. Na tentativa de evitar o mesmo problema,
a UnB criou uma comissão que, com base em fotografias, dará
a palavra final em casos como o de Zanchet. Acabou criando uma espécie
de tribunal de pureza racial – algo, no mínimo, contraditório
tanto do ponto de vista moral quanto científico.
O
calor do debate sobre episódios como esse, que beiram o folclórico,
muitas vezes se sobrepõe a um tema sobre o qual praticamente
existe consenso. Na escala social, os universitários brasileiros
situam-se a partir da classe média baixa e formam um grupo
quase que integralmente branco num país onde a maioria da
população é pobre, parda e negra. Mas, na hora
de buscar os caminhos para reduzir uma exclusão que se aproxima
do apartheid social (veja quadro na pág. 76), o debate
pega fogo. Há os que são contra e os que são
a favor das cotas e, entre estes, os que as querem para negros,
para pobres, para egressos de escolas públicas, além
dos que defendem combinações entre essas situações.
A
questão preocupante é que o tema "inclusão
social" presta-se como poucos outros a medidas populistas, que podem
acabar prejudicando exatamente os potenciais beneficiados pelo sistema
de cotas. O exemplo do Rio de Janeiro é emblemático.
No afogadilho politiqueiro, a Assembléia Legislativa aprovou
há dois anos duas leis que instituíram nas universidades
do Estado cotas de 40% para negros e 50% para alunos de escolas
públicas, mais 10% para portadores de necessidades especiais.
Acabou havendo superposição de critérios e,
no curso de medicina da Uerj, 76% dos aprovados no vestibular de
2003 foram cotistas. Para tentar corrigir a distorção,
veio uma nova lei. Há uma cota de 20% para negros, uma de
20% para a escola pública e uma terceira de 5% para deficientes
físicos e indígenas. Todos têm de comprovar
renda individual inferior a 300 reais. Só que a solução
do desvio jogou a universidade numa sinuca financeira. Neste ano,
entrarão pelo vestibular 5.000 novos alunos – sendo 45% cotistas.
Mas a lei não prevê recursos para dar conta das necessidades
de alunos que não têm computador em casa, dinheiro
para comprar livros e, muitas vezes, nem como chegar à escola.
Outra experiência, portanto, fadada ao fracasso. "Não
basta garantir o acesso, é preciso dar condições
de permanência na universidade. Senão, é perversidade",
diz o reitor da Uerj, Nival Nunes de Almeida.
Perversidade
com os alunos cotistas e irresponsabilidade com a qualidade do ensino.
Nos Estados Unidos, por exemplo, onde as escolas secundárias
garantem critérios mínimos de qualidade e as universidades
têm recursos para promover as compensações eventualmente
necessárias, as cotas não baixaram o nível
do ensino superior. Aqui tem tudo para ser diferente. Os cotistas
fazem a mesma prova e são eliminados pelos mesmos critérios
do vestibular geral. Mas a disputa acontece entre estudantes que
cursaram a escola fundamental e média em condições
desfavoráveis, o que permite que eles passem com notas inferiores
às de seus colegas do vestibular geral. Existem muitas dúvidas
sobre a eficácia de compensações acadêmicas
ao longo do curso universitário para sanar essas deficiências
– afinal, não existe experiência anterior para fazer
uma análise mais consistente da medida. Sem essas compensações,
no entanto, a queda de qualidade é inevitável. É
nessa tecla que bate o economista Jonas Zoninsein, da Universidade
de Michigan, estudioso e defensor da adoção de cotas,
que considera um importante mecanismo de inclusão social.
Para Zoninsein, um processo mal administrado terá uma série
de conseqüências negativas. Queda na qualidade, perda
de prestígio da universidade pública e discriminação
dos cotistas estão entre elas. "Será uma ação
afirmativa com risco de produzir retornos negativos para toda a
população", alerta.
O
grande desafio brasileiro nesse campo é que os problemas
são imensos em todas as frentes, e têm de ser enfrentados
simultaneamente. É claro que a solução definitiva
para democratizar o acesso à universidade é garantir
ensino público de boa qualidade nos níveis fundamental
e médio. Isso não entra necessariamente em contradição
com medidas dirigidas a grupos menos favorecidos. Que grupos são
esses é algo que pode variar de região para região,
ou de universidade para universidade. O grau de acerto e erro dessas
escolhas só poderá ser avaliado na prática.
O recuo do ministro da Educação, Tarso Genro, na idéia
de estabelecer cotas em todas as universidades por medida provisória
foi, por esse motivo, do maior bom senso. É importante dar
tempo para que apareçam os resultados das experiências
em andamento no país. E, principalmente, ter em mente que
as cotas, como qualquer medida compensatória, são
mecanismos destinados a uma vida breve. O que se deseja é
que, no menor tempo possível, essa discussão deixe
de fazer sentido.
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