Edição 1850 . 21 de abril de 2004

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Automóveis
Beleza interior

O design é lindo, mas as maiores atrações
dos modelos expostos no Salão de Nova York
estão do lado de dentro


Marcos Buarque de Gusmão


Fotos divulgação
MERCEDES SL65 AMG:
dispositivos de massagem nos bancos, monitor de 8 polegadas para navegação via satélite e o fim dos odores fortes dos plásticos. O modelo começa a ser vendido no segundo semestre e tem preço estimado em 330 000 dólares

Galeria de imagens

Quem vê apenas design e potência nos carros de luxo e esportivos de última geração está perdendo a melhor parte da inovação automobilística. A mais recente fronteira da evolução dessa indústria está no interior dos veículos. É essa parte de dentro do carro, que inclui o painel, os estofamentos e uma parafernália de recursos tecnológicos para aumentar o conforto do motorista e dos passageiros, que virou peça fundamental no desafio de diferenciar os modelos de uma mesma categoria. O que faz sentido, já que, em termos de qualidade da mecânica, os automóveis atuais são muito parecidos uns com os outros. Daí os fabricantes estarem utilizando novos materiais, como tecidos e plásticos antialérgicos, e incrementando os modelos com bancos controlados por circuitos eletrônicos e recursos inesperados de iluminação. "O interior dos carros virou um fator que faz a diferença. O aperfeiçoamento do espaço é o luxo final do produto", diz George Bucher, designer da Ford, nos Estados Unidos.

Uma só espiada no novo Mercedes-Benz SL65 AMG, visto pela primeira vez no Salão do Automóvel de Nova York, encerrado neste fim de semana, resume o que as fábricas andam fazendo. Tudo dentro do carro foi pensado para agradar aos sentidos. Nenhum componente tem odor forte. O recurso é bem-vindo, ainda que signifique um adeus ao famoso cheiro de carro novo. O console está livre de pontas. Os controles de ventilação, as travas das portas e os botões de acionamento dos vidros das janelas foram confeccionados de tal maneira que exijam o mínimo de esforço de quem os manuseia. A grande sensação do modelo, que custará em torno de 330.000 dólares, são os bancos que oferecem massagens na região lombar e nas laterais do corpo do motorista e dos passageiros. Para conseguir o efeito massageador, a Mercedes instalou dez ventiladores dentro dos bancos, movidos por sete motores controlados eletronicamente. São eles que inflam e desinflam pequenas bolsas de ar sob o estofamento, que são os massageadores propriamente ditos.


Divulgação
AP
BUICK VÉLITE:
filtros para purificar o ar e microlâmpadas de alta performance no painel. Será lançado em 2006 e tem preço estimado em 30 000 dólares

Os bancos desse novo Mercedes são tão peculiares que corrigem a inclinação do corpo em curvas acentuadas, aumentando assim o conforto de passageiros e motorista. É uma característica importante para um carro que pode atingir 300 quilômetros por hora graças ao motor duplo turbo. Os alemães da Mercedes também criaram a tecnologia de ventilação que dá maior autonomia aos conversíveis. Uma central eletrônica regula a temperatura automaticamente, mantendo o interior sempre aquecido, mesmo com a capota abaixada. A 350, segunda geração do esportivo SLK, apresentado no mês passado em Genebra, já vem com o novo equipamento. O carro custará cerca de 45.000 dólares quando começar a ser vendido, no segundo semestre deste ano.

Na Ford, o cuidado especial com a parte interna do automóvel levou projetistas da marca a criar um modelo antialérgico. Todos os componentes do protótipo Focus C-Max passaram por testes dermatológicos na Alemanha. Os exames permitiram aperfeiçoar os itens que têm contato prolongado com a pele, como o tecido do estofamento, os cintos de segurança e toda a tapeçaria do carro. Um sistema de filtragem retém o pólen suspenso no ar, providência importante para quem sofre de ataques de alergia na primavera. Esse protótipo não tem data de lançamento para produção em série. Alguns modelos com características semelhantes, como os lançamentos da família GM, por outro lado, devem chegar ao mercado até 2006. O Buick Vélite, o Hummer H3T, o Saturn Curve e o Chevy Nomad foram concebidos dentro da lógica de valorizar a beleza e a funcionalidade do interior.

A GM desenvolveu um tecido com capacidade térmica controlável – em outras palavras, pode aquecer ou refrescar, dependendo da temperatura ambiente. Dá para praticamente dispensar o uso do ar-condicionado. O material é semelhante ao utilizado por fabricantes de roupa e tênis esportivos como a Nike. O sistema de iluminação foi melhorado substituindo as lâmpadas comuns por tipos menores de alto rendimento, capazes de mudar de cor. "O efeito luminoso foi incluído para dar mais sofisticação ao carro", afirma Shuichi Yamashita, chefe de design da Saturn. Outro modelo da família GM capaz de se diferenciar dos concorrentes é o Cadillac STS 2005. Ele chega para substituir o Seville, tornando-se assim o primeiro sedã de luxo da marca em mais de 25 anos. A versão com motor V6 custará cerca de 43 000 dólares, enquanto o V8 sairá em torno de 55 000. Assim como outros recém-chegados, o STS 2005 tem bancos com ventilação e aquecimento, monitor de navegação via satélite de alta definição e sistema de som com quinze alto-falantes. Um capricho extra para os motoristas mais exigentes.

 

Os fascinantes carros-conceito


Divulgação
Y-Job, de 1938 (acima), o primeiro carro-conceito, e o Audi RSQ (abaixo), exibido na semana passada
AFP

Os carros mais espetaculares são os chamados "conceitos". São modelos experimentais que os fabricantes exibem para impressionar os consumidores ou testar idéias inovadoras. São, pode-se dizer, uma tentativa de prognosticar o futuro da indústria automobilística. O primeiro carro-conceito foi o GM Y-Job, de 1938. Projetado por Harley Earl, o papa do design de automóveis, o carro introduziu os faróis retráteis, que influenciaram toda a produção da indústria automobilística dos anos 40. No Salão do Automóvel de Nova York, encerrado neste fim de semana, o esportivo RSQ da Audi fez bater o coração dos apaixonados por carros que fogem ao convencional. Com rodas substituídas por esferas e portas que abrem para cima, o RSQ parece uma espaçonave de filme de ficção científica.

Dificilmente o novo Audi será visto pelas ruas. Motivo: é delirante demais para ser vendido. Contraria a regra atual da indústria, que é a de exibir carros-conceito bem parecidos com as versões que serão colocadas nas concessionárias. A estratégia se deve à competição acirrada e à queda nas vendas mundiais. "O carro-conceito passou a ser o primeiro teste de aceitação do público", diz Wagner Dias, gerente do estúdio de design da GM do Brasil. "Como os compradores estão mais exigentes, não dá mais para apresentar uma idéia sem apelo comercial." Ou seja, se agradou vai logo para a linha de montagem.

 
 
 
 
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