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Ambiente
A matança dos bebês
O
massacre de 350 000 filhotes de foca
no Canadá é um exemplo de como
o interesse comercial pode levar à
exploração irracional da natureza

José
Eduardo Barella
Fotos AFP
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| Caçador
usa porrete para abater filhote de foca e, à direita, o descarte
da carcaça: 100 reais por cada animal morto |
Com
um porrete na mão, o caçador se aproxima do filhote
de foca. O animal de olhos grandes e negros se assusta com a presença
humana, mas não tem como fugir, pois se movimenta com dificuldade
em terra e ainda não sabe nadar. Uma batida forte, bem atrás
da cabeça, nem sempre é suficiente para matar o filhote.
O caçador, porém, não se preocupa em abreviar
o sofrimento da presa. Enquanto a foca ainda se debate, sua pele
é retirada com a ajuda de um facão. Em apenas dois
dias da semana passada, essas cenas se repetiram a um ritmo alucinante
numa vasta área gelada da costa leste do Canadá. No
total, 247.000 bebês focas, ou noventa por minuto, foram abatidos,
no maior massacre desse tipo de mamífero marinho desde os
anos 50. Um mês antes, outros 100.000 filhotes haviam sido
mortos na província de Quebec. As focas abatidas tinham entre
doze dias e três meses de idade. Foi morto um em cada três
bebês nascidos neste ano.
A
matança é um exemplo de como o homem pode explorar
a natureza de forma irracional. O governo canadense alega razões
econômicas e ecológicas para autorizar o massacre.
O argumento é que a superpopulação de focas
no Atlântico Norte, estimada em 5,2 milhões, está
reduzindo o estoque de bacalhau, peixe que tem na foca seu grande
predador e um dos pilares da economia local. Estudos científicos
culpam o crescimento da indústria pesqueira, e não
as focas, pelo desequilíbrio ecológico da região.
Os 60 milhões de reais movimentados pelo massacre desses
animais são uma quantia irrelevante na economia canadense,
uma das maiores do mundo. Além disso, a temporada de caça
é sazonal e beneficia pouco mais de 10.000 pessoas. Cada
pele de bebê foca é vendida pelo equivalente a 100
reais. Nesta época do ano, início da primavera no
Hemisfério Norte, ocorre a troca de pelagem dos filhotes.
A parte mais valiosa do animal é justamente a lanugem, pele
grossa e felpuda dessa fase da infância. Os caçadores
também lucram com outras partes do corpo. Do óleo
da foca são produzidas cápsulas para combater a artrite.
Os órgãos sexuais são enviados a compradores
asiáticos, que lhes atribuem poderes afrodisíacos.
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| Filhote
de foca: eles são mortos com menos de três meses de vida por
causa da pelagem da infância |
Há
vinte anos, a matança indiscriminada da foca canadense chegou
a colocar a espécie sob risco de extinção.
Na época, fotos do massacre chocaram o mundo. Pressionadas
pela mobilização de ambientalistas e pelo boicote
à comercialização de peles, que recebeu a adesão
dos Estados Unidos e da União Européia, as autoridades
canadenses decidiram reduzir a cota de abate anual para 15.000 animais.
Protegidas, as focas começaram a se multiplicar. A retomada
da venda de peles no mercado internacional, sobretudo com as compras
feitas pela Rússia e pela Polônia, e a pressão
do lobby pesqueiro levaram o governo canadense a rever de forma
gradativa as cotas anuais de abate. Só neste ano, 100.000
focas a mais foram mortas com chancela oficial. O massacre terminou
um dia antes do prazo, quando a cota máxima foi atingida.
A maioria dos caçadores ignorou a exigência do governo
de só abater os filhotes a tiros, para evitar o sofrimento
do animal. No fim, as focas acabaram entregues à própria
sorte. Até mesmo as entidades ambientalistas, como o Greenpeace
e o Fundo Mundial para a Natureza (WWF, da sigla em inglês),
desistiram de mandar ativistas para impedir a matança. Elas
alegaram estar envolvidas em causas mais importantes, como a oposição
aos alimentos geneticamente modificados e o aquecimento global.
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