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São
Paulo
É partido ou é governo?
Ao
apostar tudo em Marta, o Planalto se
confunde com o PT ou o PT se confunde
com o Planalto?

Maiu
Gaspar
Juca Varella/Folha Imagem
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Ronaldo de Oliveira/CBPress/AE
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| Lula
para Marta (ao lado de Marisa), em São Paulo:
"Querida, você tem o apoio e a
solidariedade do
presidente" |
Nos
gramados do
Alvorada, o canteiro
em forma de
estrela: e se ali houvesse um bando de
tucanos? |
Fã
de uma metáfora, o presidente Lula provavelmente diria que
São Paulo é hoje como aquele filho que, às
vésperas de prestar vestibular, se vê cercado de mimos
e cuidados por parte dos pais, ansiosos para que ele faça
bonito no exame. O teste, neste caso, são as eleições
municipais de outubro. Para o Palácio do Planalto, a vitória
da prefeita Marta Suplicy é tão vital que o empenho
oficial já apareceu nos discursos e nos atos. Até
agora, dos 145 milhões de reais que o governo federal despachou
para as prefeituras das capitais, a parte do leão, 22 milhões,
ganhou o endereço dos cofres de São Paulo. Além
do dinheiro, a prefeita Marta Suplicy foi, até aqui, o único
candidato petista à reeleição a ganhar o apoio
público e explícito do presidente da República.
"Pode ficar certa, querida, nós não mediremos esforços
para ajudar o povo de São Paulo a ter um pouco mais de dignidade.
Você tem o apoio e a solidariedade do presidente da República",
derramou-se Lula, em discurso feito em abril do ano passado, pouco
depois de assumir o governo. É natural que o PT esteja tão
empenhado em manter-se no comando da prefeitura paulistana. Afinal,
São Paulo é a maior cidade do país e berço
do PT. Além disso, pela primeira vez, o partido irá
disputar ali uma reeleição estando, ao mesmo tempo,
no comando do país. "O PT pode ganhar várias eleições
municipais, mas se perder em São Paulo será como se
tivesse sofrido só derrota", afirma Silvio Pereira, secretário
de organização do partido e responsável pela
estratégia petista para o ano eleitoral.
A
história recente ensina, porém, que talvez o Palácio
do Planalto esteja cometendo um equívoco ao se empenhar de
modo tão explícito na reeleição da prefeita
de São Paulo. Em primeiro lugar, porque a disputa na cidade,
ao contrário do que muitos imaginam, não é
um laboratório para a eleição presidencial.
Os pleitos mais recentes são a prova mais contundente. Em
1992, por exemplo, os tucanos concorreram à prefeitura com
Fábio Feldmann, mas perderam para Paulo Maluf. Dois anos
depois, outro tucano, dessa vez Fernando Henrique, teve uma ótima
votação na cidade para a Presidência da República.
Em 1996, quando FHC trabalhava no Palácio do Planalto, o
tucano José Serra não apenas perdeu a disputa para
Celso Pitta como amargou o constrangimento de ficar fora do segundo
turno. No pleito seguinte, foi Marta Suplicy quem se elegeu, derrotando
o tucano Geraldo Alckmin, que, dois anos mais tarde, se elegeria
com facilidade ao governo do Estado de São Paulo. Ou seja:
a disputa na prefeitura não antecipa nem a sucessão
ao governo estadual quanto mais a troca de comando no Palácio
do Planalto.
"O
PT não pode deixar que a imagem do partido se misture com
a imagem do governo", diz o cientista político Marcos Coimbra,
dono do instituto de pesquisa Vox Populi. "Isso seria estrategicamente
inconveniente porque a vitória de Marta Suplicy é
importante para o partido, mas não para o governo", completa
ele. A prioridade que Marta Suplicy ganhou, no entanto, é
um sintoma de um defeito congênito da turma petista, talvez
adquirido pelos longos anos de convívio com outros partidos
de esquerda – o de achar que o partido é um prolongamento
do governo e que o governo é uma extensão da sigla.
Essa simbiose existiu nos regimes revolucionários de esquerda,
quando a ascensão de um partido comunista ao poder significava
a transformação do poder público num poder
partidário. Numa democracia, não é assim que
as coisas funcionam. O PT é uma agremiação
partidária que, como todas as legendas, tem seu projeto de
poder e desfruta de toda a liberdade de lutar por ele. O governo,
no entanto, não pode ser submetido aos ditames de um projeto
partidário – ainda que esse partido tenha sido eleito. Isso
só é admissível em regimes que funcionam à
base da ditadura do partido único.
Num
regime democrático, que é por princípio pluripartidário,
é importante que não haja confusão entre o
partido e o governo. A partidarização da máquina
pública que o PT promoveu ao chegar a Brasília, trocando
milhares de ocupantes de cargos de confiança, é um
sintoma eloqüente dessa confusão. Outro, embora menos
nefasto, apareceu na semana passada. Descobriu-se que nas duas residências
oficiais da Presidência da República, o Palácio
da Alvorada e a Granja do Torto, a primeira-dama Marisa Letícia
da Silva mandou plantar canteiros de sálvias vermelhas no
formato de estrela – a estrela vermelha, o símbolo do PT.
As residências oficiais do casal presidencial são patrimônio
público, e não partidário. Ainda que – repita-se
– o PT tenha sido o eleito. A invenção paisagística
é exemplo da confusão partido-governo e, também,
da falta de cerimônia por parte dos atuais ocupantes do palácio
em relação à coisa pública. Ou não
haveria de causar estranheza, à sociedade e ao PT, se Ruth
Cardoso tivesse plantado desenhos de tucaninhos pelo Alvorada?
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