Edição 1850 . 21 de abril de 2004

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São Paulo
É partido ou é governo?

Ao apostar tudo em Marta, o Planalto se
confunde com o PT ou o PT se confunde
com o Planalto?


Maiu Gaspar

Juca Varella/Folha Imagem
Ronaldo de Oliveira/CBPress/AE
Lula para Marta (ao lado de Marisa), em São Paulo: "Querida, você tem o apoio e a solidariedade do presidente" Nos gramados do Alvorada, o canteiro em forma de estrela: e se ali houvesse um bando de tucanos?

Fã de uma metáfora, o presidente Lula provavelmente diria que São Paulo é hoje como aquele filho que, às vésperas de prestar vestibular, se vê cercado de mimos e cuidados por parte dos pais, ansiosos para que ele faça bonito no exame. O teste, neste caso, são as eleições municipais de outubro. Para o Palácio do Planalto, a vitória da prefeita Marta Suplicy é tão vital que o empenho oficial já apareceu nos discursos e nos atos. Até agora, dos 145 milhões de reais que o governo federal despachou para as prefeituras das capitais, a parte do leão, 22 milhões, ganhou o endereço dos cofres de São Paulo. Além do dinheiro, a prefeita Marta Suplicy foi, até aqui, o único candidato petista à reeleição a ganhar o apoio público e explícito do presidente da República. "Pode ficar certa, querida, nós não mediremos esforços para ajudar o povo de São Paulo a ter um pouco mais de dignidade. Você tem o apoio e a solidariedade do presidente da República", derramou-se Lula, em discurso feito em abril do ano passado, pouco depois de assumir o governo. É natural que o PT esteja tão empenhado em manter-se no comando da prefeitura paulistana. Afinal, São Paulo é a maior cidade do país e berço do PT. Além disso, pela primeira vez, o partido irá disputar ali uma reeleição estando, ao mesmo tempo, no comando do país. "O PT pode ganhar várias eleições municipais, mas se perder em São Paulo será como se tivesse sofrido só derrota", afirma Silvio Pereira, secretário de organização do partido e responsável pela estratégia petista para o ano eleitoral.

A história recente ensina, porém, que talvez o Palácio do Planalto esteja cometendo um equívoco ao se empenhar de modo tão explícito na reeleição da prefeita de São Paulo. Em primeiro lugar, porque a disputa na cidade, ao contrário do que muitos imaginam, não é um laboratório para a eleição presidencial. Os pleitos mais recentes são a prova mais contundente. Em 1992, por exemplo, os tucanos concorreram à prefeitura com Fábio Feldmann, mas perderam para Paulo Maluf. Dois anos depois, outro tucano, dessa vez Fernando Henrique, teve uma ótima votação na cidade para a Presidência da República. Em 1996, quando FHC trabalhava no Palácio do Planalto, o tucano José Serra não apenas perdeu a disputa para Celso Pitta como amargou o constrangimento de ficar fora do segundo turno. No pleito seguinte, foi Marta Suplicy quem se elegeu, derrotando o tucano Geraldo Alckmin, que, dois anos mais tarde, se elegeria com facilidade ao governo do Estado de São Paulo. Ou seja: a disputa na prefeitura não antecipa nem a sucessão ao governo estadual quanto mais a troca de comando no Palácio do Planalto.

"O PT não pode deixar que a imagem do partido se misture com a imagem do governo", diz o cientista político Marcos Coimbra, dono do instituto de pesquisa Vox Populi. "Isso seria estrategicamente inconveniente porque a vitória de Marta Suplicy é importante para o partido, mas não para o governo", completa ele. A prioridade que Marta Suplicy ganhou, no entanto, é um sintoma de um defeito congênito da turma petista, talvez adquirido pelos longos anos de convívio com outros partidos de esquerda – o de achar que o partido é um prolongamento do governo e que o governo é uma extensão da sigla. Essa simbiose existiu nos regimes revolucionários de esquerda, quando a ascensão de um partido comunista ao poder significava a transformação do poder público num poder partidário. Numa democracia, não é assim que as coisas funcionam. O PT é uma agremiação partidária que, como todas as legendas, tem seu projeto de poder e desfruta de toda a liberdade de lutar por ele. O governo, no entanto, não pode ser submetido aos ditames de um projeto partidário – ainda que esse partido tenha sido eleito. Isso só é admissível em regimes que funcionam à base da ditadura do partido único.

Num regime democrático, que é por princípio pluripartidário, é importante que não haja confusão entre o partido e o governo. A partidarização da máquina pública que o PT promoveu ao chegar a Brasília, trocando milhares de ocupantes de cargos de confiança, é um sintoma eloqüente dessa confusão. Outro, embora menos nefasto, apareceu na semana passada. Descobriu-se que nas duas residências oficiais da Presidência da República, o Palácio da Alvorada e a Granja do Torto, a primeira-dama Marisa Letícia da Silva mandou plantar canteiros de sálvias vermelhas no formato de estrela – a estrela vermelha, o símbolo do PT. As residências oficiais do casal presidencial são patrimônio público, e não partidário. Ainda que – repita-se – o PT tenha sido o eleito. A invenção paisagística é exemplo da confusão partido-governo e, também, da falta de cerimônia por parte dos atuais ocupantes do palácio em relação à coisa pública. Ou não haveria de causar estranheza, à sociedade e ao PT, se Ruth Cardoso tivesse plantado desenhos de tucaninhos pelo Alvorada?

 
 
 
 
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