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Reforma
agrária
Como
na guerra
Os
sem-terra continuam agitando o campo, e
o governo lança um pacote para acalmá-los

Alexandre Oltramari
Jonne Roriz/AE
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| Coelho
Júnior fiscaliza sua barricada com 1 000 sacos de areia:
estado de beligerância |
O
fazendeiro que aparece na fotografia acima é um sobrevivente.
Há quatro meses, membros do MST invadiram sua fazenda no
Pontal do Paranapanema, epicentro dos conflitos rurais no interior
de São Paulo, e submeteram-no a uma experiência dramática.
Renderam seus funcionários, incendiaram um trator e atearam
fogo à casa do caseiro. O fazendeiro Luiz Antonio de Barros
Coelho Júnior, 35 anos, ficou uma hora deitado dentro da
casa-sede, enquanto balas de calibre 12 e coquetéis Molotov
explodiam na parede. Seu drama terminou por um golpe de sorte. Assustados
com as explosões da rede elétrica, que entrou em curto-circuito,
os sem-terra abandonaram a propriedade às pressas temendo
a chegada da polícia. Agora, quatro meses depois, Coelho
Júnior está de volta às lides bélicas
de ser fazendeiro no Pontal do Paranapanema. Desta vez, blindou
a parede de seu quarto com chapas de concreto e ergueu uma barricada
com cerca de 1 000 sacos de areia. Sua imagem, à frente de
seu bunker privado, à espera de um novo ataque, é
uma cena emblemática do estado de beligerância em que
vive o campo brasileiro.
Espanta,
no entanto, um certo ar de normalidade que perpassa a faina de Coelho
Júnior, ali percorrendo sua propriedade quase como quem se
encarrega da tarefa trivial de pastorear o gado. Diferentemente
de muitos fazendeiros da região, que montam milícias
privadas e se armam até os dentes, Coelho Júnior preocupou-se
apenas em defender-se de um eventual ataque de sem-terra. Faz sentido
sua precaução. Em abril, os sem-terra sempre organizam
manifestações de norte a sul do país, entre
outras razões para lembrar o massacre de dezenove sem-terra
em Eldorado dos Carajás, no Pará, em abril de 1996.
Desta vez, porém, o MST está fazendo uma das maiores
operações de invasão de terra de seus vinte
anos de existência. Na semana passada, a empreitada registrava
81 fazendas invadidas em quinze Estados do país, e o MST
prometia ainda mais. Organização para isso não
lhe falta. Ainda na semana passada, apenas a chegada de sem-terra
a Curitiba, ordeiramente enfileirados para um encontro nacional
do MST na capital paranaense, mostra o grau de disciplina de seus
seguidores: todos de boné, bandeira em punho, sacolas ao
ombro, crachás ao peito.
Orlando Kissner/AFP
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| Os
sem-terra chegam a
Curitiba para um encontro:
tudo igual, no
boné e no passo |
Um
dos melhores combustíveis para as explosões do MST
é o comportamento vacilante do governo em Brasília,
que, sem pressão, nada ou pouco faz. Sob pressão,
porém, ganha impressionante agilidade. É um comportamento
que só reforça o discurso de João Pedro Stedile,
o gaúcho que lidera nacionalmente o MST, segundo o qual os
sem-terra precisam fazer barulho, gritar, brigar e invadir -- pois,
se ficarem quietos, a reforma agrária não anda. Na
semana passada, fiel a seu modo reativo de ser, o governo anunciou
um pacote de boas notícias aos sem-terra, sempre com o propósito
de aplacar a fúria emessetista. O pacote é feito da
mesma matéria de que são feitos todos os pacotes de
última hora: dinheiro e promessas de reduzir a burocracia,
os prazos, as distâncias. No plano do dinheiro, muita coisa
aumentou, com a verba extra de 1,7 bilhão de reais que o
governo destinou à reforma agrária. O crédito
pago às famílias na hora em que são assentadas
passará de 7.700 para 16.100 reais. Os recursos para a compra
de material de construção aumentarão de 4.500
para 7.400 reais. A verba para assessoria técnica sobe de
100 para 400 reais.
No
terreno das promessas, o governo disse que vai reduzir o tempo médio
para a desapropriação de imóveis rurais. A
espera, que hoje gira em torno de catorze meses, cairá para
a metade, graças a um processo de descentralização
no qual as superintendências do Incra ganharão mais
autonomia. É bom mesmo que o governo se mexa. No primeiro
ano do governo petista, as invasões dobraram e os assentamentos
diminuíram 20% em comparação com o ano anterior,
quando o país era comandado pelos tucanos. A única
coisa que fica difícil de entender é por que o governo
espera que o campo fique convulsionado, ou sob ameaça de
convulsão, para fazer alguma coisa, sabendo-se que tem um
ministério, o do Desenvolvimento Agrário, só
para evitar esse tipo de tensão.
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