Edição 1850 . 21 de abril de 2004

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Reforma agrária

Como na guerra

Os sem-terra continuam agitando o campo, e
o governo lança um pacote para acalmá-los


Alexandre Oltramari

 
Jonne Roriz/AE
Coelho Júnior fiscaliza sua barricada com 1 000 sacos de areia: estado de beligerância

Em Profundidade: Reforma Agrária

O fazendeiro que aparece na fotografia acima é um sobrevivente. Há quatro meses, membros do MST invadiram sua fazenda no Pontal do Paranapanema, epicentro dos conflitos rurais no interior de São Paulo, e submeteram-no a uma experiência dramática. Renderam seus funcionários, incendiaram um trator e atearam fogo à casa do caseiro. O fazendeiro Luiz Antonio de Barros Coelho Júnior, 35 anos, ficou uma hora deitado dentro da casa-sede, enquanto balas de calibre 12 e coquetéis Molotov explodiam na parede. Seu drama terminou por um golpe de sorte. Assustados com as explosões da rede elétrica, que entrou em curto-circuito, os sem-terra abandonaram a propriedade às pressas temendo a chegada da polícia. Agora, quatro meses depois, Coelho Júnior está de volta às lides bélicas de ser fazendeiro no Pontal do Paranapanema. Desta vez, blindou a parede de seu quarto com chapas de concreto e ergueu uma barricada com cerca de 1 000 sacos de areia. Sua imagem, à frente de seu bunker privado, à espera de um novo ataque, é uma cena emblemática do estado de beligerância em que vive o campo brasileiro.

Espanta, no entanto, um certo ar de normalidade que perpassa a faina de Coelho Júnior, ali percorrendo sua propriedade quase como quem se encarrega da tarefa trivial de pastorear o gado. Diferentemente de muitos fazendeiros da região, que montam milícias privadas e se armam até os dentes, Coelho Júnior preocupou-se apenas em defender-se de um eventual ataque de sem-terra. Faz sentido sua precaução. Em abril, os sem-terra sempre organizam manifestações de norte a sul do país, entre outras razões para lembrar o massacre de dezenove sem-terra em Eldorado dos Carajás, no Pará, em abril de 1996. Desta vez, porém, o MST está fazendo uma das maiores operações de invasão de terra de seus vinte anos de existência. Na semana passada, a empreitada registrava 81 fazendas invadidas em quinze Estados do país, e o MST prometia ainda mais. Organização para isso não lhe falta. Ainda na semana passada, apenas a chegada de sem-terra a Curitiba, ordeiramente enfileirados para um encontro nacional do MST na capital paranaense, mostra o grau de disciplina de seus seguidores: todos de boné, bandeira em punho, sacolas ao ombro, crachás ao peito.

 
Orlando Kissner/AFP
Os sem-terra chegam a Curitiba para um encontro: tudo igual, no boné e no passo

Um dos melhores combustíveis para as explosões do MST é o comportamento vacilante do governo em Brasília, que, sem pressão, nada ou pouco faz. Sob pressão, porém, ganha impressionante agilidade. É um comportamento que só reforça o discurso de João Pedro Stedile, o gaúcho que lidera nacionalmente o MST, segundo o qual os sem-terra precisam fazer barulho, gritar, brigar e invadir -- pois, se ficarem quietos, a reforma agrária não anda. Na semana passada, fiel a seu modo reativo de ser, o governo anunciou um pacote de boas notícias aos sem-terra, sempre com o propósito de aplacar a fúria emessetista. O pacote é feito da mesma matéria de que são feitos todos os pacotes de última hora: dinheiro e promessas de reduzir a burocracia, os prazos, as distâncias. No plano do dinheiro, muita coisa aumentou, com a verba extra de 1,7 bilhão de reais que o governo destinou à reforma agrária. O crédito pago às famílias na hora em que são assentadas passará de 7.700 para 16.100 reais. Os recursos para a compra de material de construção aumentarão de 4.500 para 7.400 reais. A verba para assessoria técnica sobe de 100 para 400 reais.

No terreno das promessas, o governo disse que vai reduzir o tempo médio para a desapropriação de imóveis rurais. A espera, que hoje gira em torno de catorze meses, cairá para a metade, graças a um processo de descentralização no qual as superintendências do Incra ganharão mais autonomia. É bom mesmo que o governo se mexa. No primeiro ano do governo petista, as invasões dobraram e os assentamentos diminuíram 20% em comparação com o ano anterior, quando o país era comandado pelos tucanos. A única coisa que fica difícil de entender é por que o governo espera que o campo fique convulsionado, ou sob ameaça de convulsão, para fazer alguma coisa, sabendo-se que tem um ministério, o do Desenvolvimento Agrário, só para evitar esse tipo de tensão.

 
 
 
 
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