Edição 1850 . 21 de abril de 2004

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Governo
O capitão ri, o assessor chora

José Dirceu, enfim, volta a ter oxigênio
dentro do governo, celebra os elogios
do presidente e o
pedido de desculpas
do ex-assessor pego pedindo propina –
mas, apesar de tudo,
o ex-todo-poderoso
não é mais que um "bedel de ministros"


Thaís Oyama

 
Joedson Alves/AE

Dirceu: riso de orelha a orelha na melhor semana pós-crise

Alaor Filho/AE

Waldomiro, com olhos marejados: nenhum esclarecimento

Durante uma audiência com um grupo de empresários, na semana passada, o presidente Lula tentou colocar um ponto final oficial à crise deflagrada pelo escândalo Waldomiro Diniz. Disse a empresários que José Dirceu, convocado à última hora para participar da audiência, "está mais ministro do que antes" do escândalo, ficará no governo até o último dia de seu mandato e continua sendo o "capitão do time" do governo. Embora no mundo de significados de Lula, a maioria tirada do linguajar do futebol, "estar ministro" possa ser interpretado como uma situação instável – como a de um treinador de futebol "prestigiado" –, a fala do presidente foi bem recebida por Dirceu. Desde que veio a público a fita em que o subprocurador José Roberto Santoro mantém um desconcertante diálogo com o empresário do jogo Carlos Cachoeira, José Dirceu achava que já merecia a reabilitação pública da parte do presidente. Ela só veio na semana passada. Mas chegou em dose dupla. No mesmo dia em que Dirceu foi reentronizado, seu ex-assessor Waldomiro Diniz depôs à CPI da Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro. Não esclareceu nada sobre a propina que exigiu de Cachoeira, mas, com olhos marejados, pediu desculpas aos que nele confiaram e que "agora são cobrados como se beneficiários fossem" de seus atos.

Somando-se a sentença do presidente ao pedido de perdão do ex-assessor, José Dirceu experimentou sua semana mais tranqüila desde que, há dois meses, o escândalo foi divulgado pela primeira vez. A única nota negativa veio dos irmãos de Celso Daniel, o prefeito de Santo André assassinado em janeiro de 2002. Os irmãos da vítima conseguiram derrubar o segredo de Justiça que fora decretado no processo que investiga o homicídio. De agora em diante, é possível, detalhes da apuração do caso devem vir a público com mais freqüência que antes. Isso significa que poderá ser amplificada a denúncia dos irmãos do prefeito assassinado segundo a qual o esquema de corrupção montado na prefeitura de Santo André arrecadava dinheiro às campanhas eleitorais do PT – e o destinatário final seria José Dirceu, então presidente nacional do PT. Na semana passada, João Francisco Daniel, um dos irmãos do ex-prefeito, aproveitou o fim do sigilo judicial para repetir a acusação que vem fazendo há tempos contra o ministro José Dirceu. A acusação, já desmentida pelo ministro, foi arquivada pelo Supremo Tribunal Federal. Por sua gravidade e potencial destrutivo, sempre que reafirmada em público, como na semana passada, a denúncia causa apreensão no núcleo do governo.

Com a crise de Waldomiro Diniz dando ares de esvaziamento, José Dirceu está voltando à normalidade no governo, mas sua estatura política continua reduzida. Antes da reforma ministerial, realizada em janeiro passado, José Dirceu exercia um poder tão incontrastável que, perguntado se as mudanças ministeriais poderiam forçá-lo a dividir o poder, costumava dar a seguinte resposta: "Sim, uma parte do poder vai ficar com o Zé e a outra parte com o Dirceu". Na reforma ministerial, porém, o presidente fez questão de encarregá-lo de coordenar o trabalho interno do governo e deixá-lo longe da articulação política com o Congresso. O ministro, pressentindo a perda de influência que sofreria com a mudança, resistiu o quanto pôde. Agora, dois meses depois do escândalo, Dirceu pode estar retomando ar, mas encontra-se mais afastado da articulação política e acabou transformado naquilo que ele mesmo chama desdenhosamente de "bedel de ministros". Nas duas últimas semanas, o bedel visitou três ministérios: Saúde, Cidades e Meio Ambiente. Nos próximos dois meses, espera já ter visitado todos os demais.

Ao voltar à cena com a crista mais baixa e uma missão mais dura, a de mostrar que o governo está trabalhando e funcionando, o "capitão do time" exibiu a força que o PT exerce sobre os destinos do governo. Mesmo no auge da crise provocada por Waldomiro Diniz, a demissão do ministro da Casa Civil chegou a ser avaliada pelos assessores mais próximos do presidente, mas nunca passou de uma possibilidade remota. A hierarquia petista deu sinais de que não toleraria a demissão de Dirceu. Em muitas situações, os burocratas do PT, aqueles que ocupam cargos de direção partidária, têm mais influência e poder que a bancada de parlamentares, que enfrentou o escrutínio das urnas e tem dimensão popular. "Para o PT, o Diretório Nacional, por exemplo, sempre esteve acima da bancada", comenta um integrante da cúpula partidária, narrando a genealogia do poder dentro do PT. José Dirceu foi presidente nacional do partido por quatro mandatos. Conhece cada parafuso da máquina petista que ajudou a montar e cada diretório regional do país, assim como seus dirigentes. É visto com temor e respeito pelas bases e com admiração pela imensa maioria da militância.

"As pessoas não têm idéia da importância do Zé para o PT", diz o dirigente. "Ele é uma referência quase tão forte como Lula. Se o partido fosse uma família, eu diria que Lula seria a mãe e o Zé seria o pai." Foi por essa razão que José Dirceu, quando se sentiu acuado pela crise dentro do governo, buscou socorro nas velhas bases petistas – e, para aproximar-se delas, escolheu o caminho mais popular: o combate surdo à política econômica do ministro Antonio Palocci, da Fazenda. Essa tática, pelo menos por enquanto, foi abandonada. Na semana passada, José Dirceu teve um comportamento atípico durante o anúncio das novas regras das agências reguladoras, definidas segundo os desejos de Palocci e contrárias ao que preconizava José Dirceu. O ministro, no entanto, sentou-se ao lado do colega e manteve um semblante simpático, como se concordasse com tudo que ouvia.

Com o poder de José Dirceu sob um novo formato, o chamado "núcleo duro" do governo, que viveu dias de tensão nos últimos tempos, volta com nova roupagem. Luiz Gushiken, a quem Dirceu não perdoa por ter sido defensor enfático da divisão de poderes na Casa Civil, também saiu chamuscado. O presidente Lula vinha atribuindo a Gushiken, na qualidade de titular da Secretaria de Comunicação, a percepção pública de que o governo está parado e não faz nada de bom. Na segunda-feira passada, numa reunião do presidente Lula com a equipe de comunicação, Gushiken ficou tão irritado com as críticas que não escondeu estar com a paciência perto do limite, lançando no ar a sugestão de que poderia deixar o cargo. Lula baixou o tom. Ficou acertado que, de agora em diante, todos os ministros, e não só Gushiken, serão responsáveis por divulgar as ações do governo. Do trio mais poderoso da cúpula petista quem atravessou a crise incólume foi o ministro Antonio Palocci. Impermeável aos ataques, Palocci ainda ganhará o direito de ser a estrela do programa do PT que vai ao ar no dia 6 de maio.

 
 
 
 
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