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Governo
O capitão ri, o assessor
chora
José
Dirceu, enfim, volta
a ter oxigênio
dentro
do governo, celebra
os elogios
do presidente e o pedido
de desculpas
do
ex-assessor pego pedindo
propina –
mas, apesar de tudo, o
ex-todo-poderoso
não
é mais que um "bedel
de ministros"

Thaís Oyama
Joedson Alves/AE
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Dirceu:
riso de orelha a orelha na melhor semana pós-crise
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Alaor Filho/AE
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Waldomiro,
com olhos marejados: nenhum esclarecimento
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Durante
uma audiência com um grupo de empresários, na semana
passada, o presidente Lula tentou colocar um ponto final oficial
à crise deflagrada pelo escândalo Waldomiro Diniz.
Disse a empresários que José Dirceu, convocado à
última hora para participar da audiência, "está
mais ministro do que antes" do escândalo, ficará no
governo até o último dia de seu mandato e continua
sendo o "capitão do time" do governo. Embora no mundo de
significados de Lula, a maioria tirada do linguajar do futebol,
"estar ministro" possa ser interpretado como uma situação
instável – como a de um treinador de futebol "prestigiado"
–, a fala do presidente foi bem recebida por Dirceu. Desde que veio
a público a fita em que o subprocurador José Roberto
Santoro mantém um desconcertante diálogo com o empresário
do jogo Carlos Cachoeira, José Dirceu achava que já
merecia a reabilitação pública da parte do
presidente. Ela só veio na semana passada. Mas chegou em
dose dupla. No mesmo dia em que Dirceu foi reentronizado, seu ex-assessor
Waldomiro Diniz depôs à CPI da Assembléia Legislativa
do Rio de Janeiro. Não esclareceu nada sobre a propina que
exigiu de Cachoeira, mas, com olhos marejados, pediu desculpas aos
que nele confiaram e que "agora são cobrados como se beneficiários
fossem" de seus atos.
Somando-se
a sentença do presidente ao pedido de perdão do ex-assessor,
José Dirceu experimentou sua semana mais tranqüila desde
que, há dois meses, o escândalo foi divulgado pela
primeira vez. A única nota negativa veio dos irmãos
de Celso Daniel, o prefeito de Santo André assassinado em
janeiro de 2002. Os irmãos da vítima conseguiram derrubar
o segredo de Justiça que fora decretado no processo que investiga
o homicídio. De agora em diante, é possível,
detalhes da apuração do caso devem vir a público
com mais freqüência que antes. Isso significa que poderá
ser amplificada a denúncia dos irmãos do prefeito
assassinado segundo a qual o esquema de corrupção
montado na prefeitura de Santo André arrecadava dinheiro
às campanhas eleitorais do PT – e o destinatário final
seria José Dirceu, então presidente nacional do PT.
Na semana passada, João Francisco Daniel, um dos irmãos
do ex-prefeito, aproveitou o fim do sigilo judicial para repetir
a acusação que vem fazendo há tempos contra
o ministro José Dirceu. A acusação, já
desmentida pelo ministro, foi arquivada pelo Supremo Tribunal Federal.
Por sua gravidade e potencial destrutivo, sempre que reafirmada
em público, como na semana passada, a denúncia causa
apreensão no núcleo do governo.
Com
a crise de Waldomiro Diniz dando ares de esvaziamento, José
Dirceu está voltando à normalidade no governo, mas
sua estatura política continua reduzida. Antes da reforma
ministerial, realizada em janeiro passado, José Dirceu exercia
um poder tão incontrastável que, perguntado se as
mudanças ministeriais poderiam forçá-lo a dividir
o poder, costumava dar a seguinte resposta: "Sim, uma parte do poder
vai ficar com o Zé e a outra parte com o Dirceu". Na reforma
ministerial, porém, o presidente fez questão de encarregá-lo
de coordenar o trabalho interno do governo e deixá-lo longe
da articulação política com o Congresso. O
ministro, pressentindo a perda de influência que sofreria
com a mudança, resistiu o quanto pôde. Agora, dois
meses depois do escândalo, Dirceu pode estar retomando ar,
mas encontra-se mais afastado da articulação política
e acabou transformado naquilo que ele mesmo chama desdenhosamente
de "bedel de ministros". Nas duas últimas semanas, o bedel
visitou três ministérios: Saúde, Cidades e Meio
Ambiente. Nos próximos dois meses, espera já ter visitado
todos os demais.
Ao
voltar à cena com a crista mais baixa e uma missão
mais dura, a de mostrar que o governo está trabalhando e
funcionando, o "capitão do time" exibiu a força que
o PT exerce sobre os destinos do governo. Mesmo no auge da crise
provocada por Waldomiro Diniz, a demissão do ministro da
Casa Civil chegou a ser avaliada pelos assessores mais próximos
do presidente, mas nunca passou de uma possibilidade remota. A hierarquia
petista deu sinais de que não toleraria a demissão
de Dirceu. Em muitas situações, os burocratas do PT,
aqueles que ocupam cargos de direção partidária,
têm mais influência e poder que a bancada de parlamentares,
que enfrentou o escrutínio das urnas e tem dimensão
popular. "Para o PT, o Diretório Nacional, por exemplo, sempre
esteve acima da bancada", comenta um integrante da cúpula
partidária, narrando a genealogia do poder dentro do PT.
José Dirceu foi presidente nacional do partido por quatro
mandatos. Conhece cada parafuso da máquina petista que ajudou
a montar e cada diretório regional do país, assim
como seus dirigentes. É visto com temor e respeito pelas
bases e com admiração pela imensa maioria da militância.
"As
pessoas não têm idéia da importância do
Zé para o PT", diz o dirigente. "Ele é uma referência
quase tão forte como Lula. Se o partido fosse uma família,
eu diria que Lula seria a mãe e o Zé seria o pai."
Foi por essa razão que José Dirceu, quando se sentiu
acuado pela crise dentro do governo, buscou socorro nas velhas bases
petistas – e, para aproximar-se delas, escolheu o caminho mais popular:
o combate surdo à política econômica do ministro
Antonio Palocci, da Fazenda. Essa tática, pelo menos por
enquanto, foi abandonada. Na semana passada, José Dirceu
teve um comportamento atípico durante o anúncio das
novas regras das agências reguladoras, definidas segundo os
desejos de Palocci e contrárias ao que preconizava José
Dirceu. O ministro, no entanto, sentou-se ao lado do colega e manteve
um semblante simpático, como se concordasse com tudo que
ouvia.
Com
o poder de José Dirceu sob um novo formato, o chamado "núcleo
duro" do governo, que viveu dias de tensão nos últimos
tempos, volta com nova roupagem. Luiz Gushiken, a quem Dirceu não
perdoa por ter sido defensor enfático da divisão de
poderes na Casa Civil, também saiu chamuscado. O presidente
Lula vinha atribuindo a Gushiken, na qualidade de titular da Secretaria
de Comunicação, a percepção pública
de que o governo está parado e não faz nada de bom.
Na segunda-feira passada, numa reunião do presidente Lula
com a equipe de comunicação, Gushiken ficou tão
irritado com as críticas que não escondeu estar com
a paciência perto do limite, lançando no ar a sugestão
de que poderia deixar o cargo. Lula baixou o tom. Ficou acertado
que, de agora em diante, todos os ministros, e não só
Gushiken, serão responsáveis por divulgar as ações
do governo. Do trio mais poderoso da cúpula petista quem
atravessou a crise incólume foi o ministro Antonio Palocci.
Impermeável aos ataques, Palocci ainda ganhará o direito
de ser a estrela do programa do PT que vai ao ar no dia 6 de maio.
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