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Rio
de Janeiro
A
cidade que o medo construiu
A
guerra de traficantes na Rocinha parou
o Rio de Janeiro e expôs a tragédia urbana
produzida pela proliferação de favelas nas
grandes cidades brasileiras. O banditismo é
apenas a parte mais visível

Ronaldo
França
"Tiroteio
lá no morro, que tristeza." Angenor de Oliveira, o grande
compositor Cartola, morto em 1980, talvez se sentisse, na semana
passada, tentado a reescrever os versos de sua famosa canção
que fazia passear por uma melodia inebriante os versos "Alvorada
lá no morro que beleza / ninguém chora não
há tristeza / ninguém sente dissabor". Os morros do
Rio de Janeiro foram infernizados mais uma vez por um de seus espasmos
de banditismo explícito cada vez mais freqüentes e incontroláveis.
Passada a fase crítica da guerra entre dois bandos de traficantes
de droga rivais na Favela da Rocinha, ocupada ainda por centenas
de policiais militares, o ideal seria que o pouco de bom senso que
sobrou às autoridades responsáveis pela segurança
na cidade e no país fosse usado para entender as causas do
crescente poder e ousadia dos bandidos. VEJA oferece algumas linhas
de ação. Elas começam com a definição
clara do problema a ser enfrentado, de modo que concepções
românticas e antiquadas não possam interferir no dimensionamento
do desafio a ser enfrentado.
Reuters
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CENAS
DE GUERRA URBANA
A Polícia Militar chegou com atraso para impedir que
a Rocinha fosse palco de um confronto: ineficiência |
Em
primeiro lugar é preciso chamar as coisas por seus nomes
próprios. Banditismo é a causa principal dos problemas
nas favelas. É desviar a atenção da questão
central chamar de violência a ação de bandos
armados dedicados ao tráfico de drogas e ao assassinato dos
rivais e dos inocentes que se colocarem no seu caminho. Violência
é a do trânsito e a da natureza quando a maré
e os ventos assolam as orlas ou quando as chuvas torrenciais provocam
enchentes. Não existe, portanto, uma luta contra a violência.
Contra os bandidos, sim, é possível e urgente não
apenas lutar como ganhar a batalha. Bandidos rivais da Rocinha e
de um morro vizinho disputavam um comércio que, segundo estimativas
da polícia, movimenta até 40 milhões de reais
por mês e abastece 30% do mercado de drogas da cidade.
Definir
os moradores de favelas e bairros pobres como "comunidades" é
uma fraude. Comunidade implica a existência de uma comunhão
e de uma identidade compartilhada. Não existe identidade
entre os 56.000 moradores da favela ou
entre os proprietários das 2.600
empresas ali instaladas, e os traficantes que os impedem de trabalhar
e abrir as portas de suas lojas. O que existe é medo por
parte dos pequenos empresários e impunidade dos traficantes.
Há mais identidade entre os moradores do Leblon ou de Copacabana
do que entre os habitantes da Rocinha. Não ocorre a ninguém,
porém, chamar esses bairros chiques de comunidades.
O
termo, aliás, é uma maneira de afastar as favelas
e sua problemática do cotidiano da cidade. Esse tipo de fraude
não é invenção brasileira. O urbanista
americano Fred Siegel, em seu livro The Future Once Happened
Here (O Futuro um Dia Existiu Aqui), lembra que a expressão
sem-teto, o famoso "homeless", nasceu de um truque mental semelhante.
Antes da década de 80, as pessoas miseráveis que vagavam
pelas ruas das metrópoles americanas eram definidas por seus
problemas específicos. Havia os loucos, os drogados e os
migrantes. "O termo 'homeless' foi cunhado por assessores do prefeito
David Dinkins, de Nova York. O que se conseguiu com isso foi criar
uma névoa em torno da questão: na maioria dos casos,
não ter um teto era o menor dos problemas dos moradores de
rua. Eles foram parar nas ruas por ter tido antes problemas de drogas
ou desajustes mentais. E não o contrário."
Reuters
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NO
VÁCUO DO ESTADO
Luciano Barbosa, o "Lulu", chefe do tráfico morto em
confronto com a polícia: no dia do enterro, simpatizantes
do bandido tumultuaram a Zona Sul do Rio |
Gangues
urbanas como as dos traficantes de drogas dos morros cariocas são
mais eficazmente neutralizadas quando se corta sua fonte de receita.
As pesquisas mostram que 80% do que os traficantes arrecadam com
a venda de drogas no Rio de Janeiro é reinvestido na organização
criminosa. De onde vem o dinheiro? Da venda de droga a consumidores
das "comunidades" de Ipanema, Leblon, Copacabana, Barra da Tijuca
e outros bairros nobres. Portanto, a idéia, revestida de
medida humanitária, de tratar legalmente os consumidores
de modo bem mais brando do que o empregado para os fornecedores
pode fazer todo o sentido quando se imagina que as leis são
feitas por pessoas da mesma classe social dos consumidores. Mas
essa diferenciação é um desastre quando se
trata de sufocar economicamente o tráfico. A visão
de que os consumidores são vítimas também não
se justifica. Do ponto de vista médico, cocaína é
uma droga de entretenimento. É um composto poderoso, mas
o vício que ela produz é menos forte do que o do álcool
ou do cigarro. Para alguns especialistas, não se pode sequer
falar em pessoas viciadas em cocaína. O mais certo seria
descrevê-las como pessoas habituadas ao uso de cocaína.
As
autoridades cariocas precisam decidir logo se a polícia do
Estado é parte da solução ou do problema. Para
alguns estudiosos da criminalidade no Rio de Janeiro, esperar que
a polícia seja capaz de dissolver as quadrilhas de traficantes
é o mesmo que admitir que um homem possa erguer-se do chão
puxando pelos cadarços dos próprios sapatos.
O
choque de realismo proposto acima seria de utilidade para abordar
com mais sucesso a questão do crime urbano, que se tornou
um fator perturbador da vida não apenas do Rio de Janeiro
mas de quase todas as capitais e grandes cidades brasileiras. O
problema tem sua origem na incompetência, oportunismo político,
tolerância com a indisciplina e pura falta de responsabilidade.
No Brasil, políticos à direita e à esquerda
podem ser diferentes em muitas coisas, mas unem-se na omissão
em relação ao crescimento das favelas e à desordem
urbana. Talvez com medo de perder votos, preferem fechar os olhos
às favelas que proliferam diante de seu nariz. Mas no Rio
a crise guarda uma especificidade agravante. Durante muitos anos
o carioca cultivou certo prazer em estetizar a pobreza e exaltar
a malandragem, como se essas fossem virtudes a ser cantadas ao mundo.
Não são. No início da década de 80,
o antropólogo Darcy Ribeiro, então vice-governador
do Estado, chegou a declarar que favelas não eram um problema,
e sim uma solução mais uma de suas grandiloqüentes
frases ocas. Não por acaso foi esse o período de maior
favelização da cidade. O governo de Leonel Brizola
adotou uma política de liberalidade em relação
às construções irregulares e mesmo à
segurança pública. A estratégia foi feita na
base do "deixa eles lá que eles não nos incomodam
aqui", o que refletiu não apenas a falta de visão
do problema a longo prazo mas uma malandragem política que
visava à criação de clientelas eleitorais.
A imensa pobreza é um prato cheio para os governos populistas
se fartarem em votos.
Na
outra ponta das soluções urbanísticas, houve
outro equívoco a malsucedida tentativa de erradicação
das favelas. As experiências de remoção, adotadas
durante o governo de Carlos Lacerda e o de Francisco Negrão
de Lima, na década de 60, fracassaram. Foram feitas sem intervenções
que viabilizassem condições de vida minimamente decentes
para a população removida. O resultado é que
os conjuntos habitacionais construídos como se fossem a solução
tornaram-se favelas horizontais onde as condições
de vida são igualmente precárias e o banditismo explode.
O premiado Cidade de Deus, de Fernando Meirelles, que retrata
a evolução de um dos conjuntos habitacionais criados
com a remoção de favelas, é um testemunho eloqüente
da tragédia urbana carioca. Hoje, o que se discute são
apenas soluções de longo prazo. "Precisamos ter coragem
de dizer que estamos longe de estancar o crescimento das favelas,
o que já seria uma vitória", afirma Hermínia
Maricato, secretária executiva do Ministério das Cidades.
"Ficamos anos patinando nessa questão, mas o Brasil tem larga
experiência em urbanização. O trabalho agora
é árduo."
O
que é inegável é a existência de uma
indisciplina individual que se disseminou como praga nas cidades.
Ricos e pobres, sem distinção, fazem o que querem
sem ser importunados. Os pobres constroem barracos em áreas
proibidas. Os ricos fazem de suas coberturas o que bem entendem
sem passar pela porta da prefeitura, a responsável por qualquer
alteração na planta de uma edificação.
Estima-se que nas duas maiores cidades do Brasil, São Paulo
e Rio de Janeiro, a proporção de imóveis em
situação irregular esteja entre 40% e 50%. Incluem-se
aí aqueles construídos em locais proibidos, caso das
encostas de morros, e os que fizeram obras sem o aval da prefeitura,
sejam coberturas ilegais, sejam condomínios de luxo construídos
em meio a reservas ambientais. A farra é geral. "A construção
ilegal acaba fazendo parte de uma cultura em que a transgressão
é valorizada. É a porta de entrada para outros delitos,
entre eles o tráfico de drogas", afirma o economista e cientista
social Sérgio Besserman, ex-presidente do IBGE. O adensamento
das favelas é atualmente um dos maiores problemas com os
quais deparam os moradores das capitais brasileiras. Ele provoca
a piora das condições sanitárias, a dificuldade
na realização dos serviços públicos
e a impossibilidade de garantir a segurança diante da presença
de grupos armados. O problema até hoje, no entanto, foi encarado
no Brasil com base em premissas erradas e falsas soluções.
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