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Entrevista:
Hans
Blix
Tudo
foi uma farsa
O
ex-chefe dos inspetores da ONU
diz que não havia armas de destruição
em massa no Iraque, o pretexto que
levou Bush a declarar guerra

Camila
Antunes
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AP

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"Checamos
boa parte dos lugares indicados pela CIA e não
encontramos nada. O trabalho deles foi muito ruim" |
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O
sueco Hans Blix foi um personagem central dos dias que antecederam
a Guerra do Iraque. Ele chefiou a Comissão de Monitoramento,
Verificação e Inspeção para o Iraque,
da Organização das Nações Unidas. Cabia
a ele dizer se Saddam Hussein tinha ou não armas de destruição
em massa. O chefe dos inspetores deu uma resposta dúbia:
não havia encontrado nada, mas queria mais tempo para dizer
se Saddam estava armado. Ressentido por não ter ganho novo
prazo, Blix se demitiu. A imprensa do mundo todo condenou seu relatório,
por não tomar partido dos americanos nem dos iraquianos.
Num livro recém-lançado no Brasil, Desarmando o
Iraque, ele conta a sua versão. Aos 75 anos, Blix voltou
a morar na Suécia e foi contratado pelo governo do seu país
para coordenar um trabalho sobre armas de destruição
em massa. Nesta entrevista a VEJA, feita de Paris, ele lança
acusações contra o governo americano e diz que o presidente
George W. Bush merece perder credibilidade.
Veja
O Iraque está ocupado há um ano e, até
agora, não se encontrou por lá nenhuma arma de destruição
em massa, o maior pretexto para a invasão do país.
Afinal, elas existiam ou não?
Blix
O mais provável é que Saddam Hussein tenha destruído
todo o material químico e biológico que possuía.
Quanto a armas atômicas, ele não tinha condições
de fabricá-las, porque as usinas nucleares iraquianas foram
simplesmente demolidas depois da Guerra do Golfo, em 1991.
Veja
É possível supor que essas armas tenham sido
destruídas pouco antes da invasão comandada pelos
Estados Unidos?
Blix
Não. Já em 1998, quando os inspetores da ONU
deixaram o Iraque, tínhamos certeza de que o grosso das armas
e do programa para a sua confecção havia sido eliminado.
A fiscalização começou assim que terminou a
Guerra do Golfo, quando a Aiea (Agência Internacional de
Energia Atômica) achou documentos, localizou as usinas
nucleares e destruiu tudo o que encontrou. Depois de sete anos de
trabalho, não havia mais nenhum tipo de arsenal ou programa
de desenvolvimento de armamentos desse tipo.
Veja
Não sobrou nada?
Blix Provavelmente, só o conhecimento científico.
Os documentos e arquivos digitais sobre a fabricação
das armas foram confiscados, mas é impossível garantir
que os iraquianos não tenham feito cópias.
Veja
Por que os Estados Unidos se recusaram a acreditar que
as armas haviam sido eliminadas?
Blix
Os iraquianos nunca recuperaram a credibilidade depois da
Guerra do Golfo. A partir desse fato, apesar da falta de evidências,
os americanos tentaram convencer o mundo de que o Iraque havia retomado
o programa nuclear e o de fabricação de armas químicas
e biológicas. Usaram artifícios espetaculares para
provar isso. O tempo mostrou que eram falsos. Um deles foi um suposto
contrato que o Iraque teria feito com Níger para importar
urânio. Uma completa farsa.
Veja
Na sua opinião, qual foi o real motivo da guerra
contra o Iraque?
Blix Os ataques terroristas de 11 de setembro de 2001.
Muitos americanos achavam que acabar com o regime talibã
no Afeganistão, que abrigava a Al Qaeda, não era suficiente
do ponto de vista psicológico. Era preciso derrotar um inimigo
mais vistoso e Saddam Hussein se prestava a esse papel com perfeição.
Ele poderia ter colaborado com os inspetores da ONU que voltaram
ao Iraque, mas fez o contrário: alimentou as suspeitas de
que escondia armas de destruição em massa. Só
resolveu cooperar com a ONU depois que os Estados Unidos ameaçaram
usar a força. Essa pressão militar foi necessária.
Quando começamos a negociar com os iraquianos, no início
de 2002, eles não colaboravam de jeito nenhum. Brincavam
de gato e rato. Nas reuniões, faziam muitas exigências,
eram grosseiros, gritavam palavrões.
Veja
A guerra poderia ter sido evitada se as inspeções
da ONU houvessem continuado?
Blix
Não conseguimos vistoriar todos os locais indicados
pelos serviços de inteligência dos Estados Unidos e
da Inglaterra. Mas, ainda que tivéssemos vistoriado, é
bem provável que não encontrássemos nada. Para
ser franco, acho que haveria guerra de qualquer forma, porque Bush
e seus aliados não acreditariam na ONU se a inspeção
desmentisse seus serviços de inteligência.
Veja
Em que momento o senhor deixou de acreditar que a paz seria
possível?
Blix
Até o último momento alimentei a esperança
de que Bush podia ser convencido de que o Iraque não era
perigoso o suficiente para justificar a guerra. Havia um precedente:
o ex-presidente Bill Clinton retirou suas tropas da fronteira com
o Iraque em 1998, depois que a ONU arrancou concessões de
Saddam. A diferença é que, em 2003, havia 300.000
soldados americanos nas proximidades do país, esperando a
ordem de ataque. Dei-me conta tarde demais de que era impossível
que Bush autorizasse a retirada de tamanho contingente. Se o fizesse,
ele perderia prestígio.
Veja
De alguma forma, o senhor se sente responsável pela
guerra?
Blix
Tenho uma visão modesta do meu papel. Era o Conselho
de Segurança da ONU que tinha de decidir sobre a guerra.
Meu trabalho era apenas fazer inspeções eficientes,
mas me vi forçado a parar depois de um ano. Renunciei ao
posto de chefe dos inspetores porque queria um prazo maior para
realizar o trabalho. Por causa disso, fui criticado pela mídia,
mas não reclamo. Não fui censurado pelo Conselho de
Segurança, a quem eu prestava contas. Só tenho mágoa
de Bush. Ele arruinou o trabalho dos inspetores. Eu sempre disse
que não havia evidências da existência de armas
de destruição em massa no Iraque. Repito que checamos
boa parte dos lugares indicados pela CIA e não encontramos
nada. O trabalho deles foi ruim. Disseram que caminhões eram
usados na limpeza de áreas contaminadas por elementos químicos.
Eram apenas caminhões de água. Avisei o Conselho de
Segurança sobre a fragilidade das provas que os americanos
apresentavam. Fui ignorado.
Veja
Em seu livro, Desarmando o Iraque, há relatos
de conversas suas com o primeiro-ministro inglês Tony Blair.
E com Bush, o senhor chegou a conversar?
Blix
Encontrei-o apenas uma vez. Ele me disse que queria a paz
e que confiava nas inspeções. Disse que não
era um texano selvagem num tom autodepreciativo. Garantiu que os
americanos não estavam obcecados pela guerra. Mas não
acredito que ele realmente pensasse assim meses antes de nossa
conversa, Bush havia declarado que as inspeções da
ONU tinham sido inúteis no passado. De qualquer forma, como
já disse, achei que seria possível fazê-lo mudar
de opinião. Em outra oportunidade, o vice-presidente Dick
Cheney foi bem menos amistoso comigo. Não hesitou em desacreditar
os inspetores e deixou claro que queria intervir militarmente no
Iraque.
Veja
As inspeções da ONU perderam importância?
Blix Se há uma lição nesse episódio,
é que as inspeções funcionam tão bem
ou melhor do que a CIA e outros serviços de inteligência.
O fundamental é que elas sejam independentes. Se não,
os inspetores, que já não são bem-vindos, serão
vistos como espiões. Nenhum país cooperará
com os inspetores da ONU se eles forem considerados instrumentos
da CIA. Em nações com um histórico de altercações
com os Estados Unidos, como Irã e Coréia do Norte,
esse ponto é ainda mais crucial.
Veja
A ONU perdeu poder depois que os Estados Unidos atacaram
o Iraque sem o aval do Conselho de Segurança?
Blix
Pode-se ver a história de duas perspectivas. Essa é
uma delas: Estados Unidos, Inglaterra e Espanha minaram a autoridade
da ONU. A outra é lembrar que a maioria do Conselho negou
a legitimidade da ação americana e que seus integrantes
não se convenceram da existência das armas de destruição
em massa. A realidade demonstrou que o Conselho estava certo. Ou
seja, a partir dessa visão, a ONU ganhou poder.
Veja
Como o senhor vê os políticos que aprovaram
a entrada de seus países nessa guerra?
Blix
Não raro, faz parte do trabalho dos políticos
tomar uma decisão sem que haja 100% de certeza a respeito
dela. Foi o que fizeram dessa vez. Mas acho que exageram na imprudência
ao resolver-se por uma guerra que mobilizou 300 000 homens e pode
custar 80 bilhões de dólares. Isso é que me
irrita.
Veja
Bush e Blair têm enfrentado dificuldades domésticas
cada vez maiores para explicar as razões que os levaram a
invadir o Iraque...
Blix Eles merecem isso. Tanto um como outro perderam
credibilidade.
Veja
Muitos líderes do Terceiro Mundo acreditam que ter
bomba atômica é uma questão de soberania. Qual
é a sua opinião?
Blix
Isso não é argumento. O melhor caminho para
a soberania e legitimidade de uma nação é assinar
o tratado de não-proliferação de armas nucleares.
Veja
O governo brasileiro é acusado de dificultar as
inspeções em usinas nucleares. É um gesto perigoso?
Blix
Não estou a par das complicações mais
recentes envolvendo o Brasil, que é signatário do
tratado de não-proliferação. O que posso dizer
é que transparência significa credibilidade. O Brasil,
portanto, deve ser transparente. Sei que o país tem usinas
de enriquecimento de urânio com fins pacíficos e que
isso é importante para solucionar problemas de energia. Mas,
como a tecnologia para a fabricação de armas é
a mesma, o procedimento pode levantar suspeitas.
Veja
Que país representa hoje a maior ameaça nuclear?
Blix
Todos aqueles que dispõem de arsenais atômicos
são ameaçadores. Mas, sem dúvida, a Coréia
do Norte é o caso mais perigoso. É um país
que não respeita regras internacionais, como demonstra o
fato de ter testado, no ano passado, foguetes de uso bélico
no Mar do Japão. Outro grande problema é o Paquistão,
que vendeu tecnologia e equipamentos à Líbia e ao
Irã.
Veja
Por que alguns países podem ter bomba atômica
e outros não?
Blix
Não é bem assim. O tratado de não-proliferação
de armas nucleares diz que também aqueles que já possuem
arsenal atômico devem se desarmar.
Veja
Quais são as probabilidades de um terrorista usar
uma arma de destruição em massa?
Blix
Acho isso improvável. Requer muita infra-estrutura,
organização e dinheiro. O único caso digno
de nota ocorreu em 1995. Foi o ataque com gás sarin, um gás
paralisante dos mais perigosos, no metrô de Tóquio,
perpetrado por integrantes de uma seita japonesa. Deixou um saldo
de doze mortos. Mas, depois desse episódio, os controles
dos governos aumentaram.
Veja
E ataques com bombas sujas, que espalham radiação
sem explodir?
Blix
O Iraque testou uma delas nos anos 80. Desistiu quando concluiu
que elas não eram tão eficientes, digamos assim. O
mais importante é evitar o desvio dos materiais que são
usados nessas bombas. O Brasil já enfrentou um problema desses
por falta de controle sobre lixo hospitalar radioativo, o vazamento
de césio em Goiânia, em 1987.
Veja
O que o senhor está fazendo atualmente?
Blix
Trabalho para o governo sueco. Chefio uma comissão
internacional que estuda o problema das armas de destruição
em massa. Não é um trabalho prático, como as
inspeções, mas estou feliz. Disponho de um orçamento
de 2 milhões de dólares para preparar um documento
até o fim de 2005. Conto com a ajuda de quinze diplomatas,
entre eles o embaixador brasileiro Marcos Azambuja. Espero que a
ONU e muitos países usem esse trabalho.
Veja
E quanto à vida pessoal?
Blix
Bem, ganhei uns quilos. Voltei a ter uma vida normal de casado
depois de dez anos. Como minha mulher também é diplomata,
moramos por uma década em países diferentes. Só
nos encontrávamos uma vez por mês. Agora moramos juntos,
em Estocolmo.
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