Edição 1850 . 21 de abril de 2004

Índice
Brasil
Internacional
Geral
Economia e Negócios
Guia
Artes e Espetáculos
Stephen Kanitz
Sérgio Abranches
Diogo Mainardi
Tales Alvarenga
André Petry
Roberto Pompeu de Toledo
Carta do Editor
Entrevista
Cartas
Radar
Holofote
Contexto
VEJA on-line
Veja essa
Gente
Datas
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos
 
 

Entrevista: Hans Blix
Tudo foi uma farsa

O ex-chefe dos inspetores da ONU
diz que não havia armas de destruição
em massa no Iraque, o pretexto que
levou Bush a declarar guerra


Camila Antunes

 

AP

"Checamos boa parte dos lugares indicados pela CIA e não encontramos nada. O trabalho deles foi muito ruim"

O sueco Hans Blix foi um personagem central dos dias que antecederam a Guerra do Iraque. Ele chefiou a Comissão de Monitoramento, Verificação e Inspeção para o Iraque, da Organização das Nações Unidas. Cabia a ele dizer se Saddam Hussein tinha ou não armas de destruição em massa. O chefe dos inspetores deu uma resposta dúbia: não havia encontrado nada, mas queria mais tempo para dizer se Saddam estava armado. Ressentido por não ter ganho novo prazo, Blix se demitiu. A imprensa do mundo todo condenou seu relatório, por não tomar partido dos americanos nem dos iraquianos. Num livro recém-lançado no Brasil, Desarmando o Iraque, ele conta a sua versão. Aos 75 anos, Blix voltou a morar na Suécia e foi contratado pelo governo do seu país para coordenar um trabalho sobre armas de destruição em massa. Nesta entrevista a VEJA, feita de Paris, ele lança acusações contra o governo americano e diz que o presidente George W. Bush merece perder credibilidade.

Veja – O Iraque está ocupado há um ano e, até agora, não se encontrou por lá nenhuma arma de destruição em massa, o maior pretexto para a invasão do país. Afinal, elas existiam ou não?
Blix – O mais provável é que Saddam Hussein tenha destruído todo o material químico e biológico que possuía. Quanto a armas atômicas, ele não tinha condições de fabricá-las, porque as usinas nucleares iraquianas foram simplesmente demolidas depois da Guerra do Golfo, em 1991.  

Veja – É possível supor que essas armas tenham sido destruídas pouco antes da invasão comandada pelos Estados Unidos?
Blix – Não. Já em 1998, quando os inspetores da ONU deixaram o Iraque, tínhamos certeza de que o grosso das armas e do programa para a sua confecção havia sido eliminado. A fiscalização começou assim que terminou a Guerra do Golfo, quando a Aiea (Agência Internacional de Energia Atômica) achou documentos, localizou as usinas nucleares e destruiu tudo o que encontrou. Depois de sete anos de trabalho, não havia mais nenhum tipo de arsenal ou programa de desenvolvimento de armamentos desse tipo.

Veja – Não sobrou nada?
Blix – Provavelmente, só o conhecimento científico. Os documentos e arquivos digitais sobre a fabricação das armas foram confiscados, mas é impossível garantir que os iraquianos não tenham feito cópias.

Veja – Por que os Estados Unidos se recusaram a acreditar que as armas haviam sido eliminadas?
Blix – Os iraquianos nunca recuperaram a credibilidade depois da Guerra do Golfo. A partir desse fato, apesar da falta de evidências, os americanos tentaram convencer o mundo de que o Iraque havia retomado o programa nuclear e o de fabricação de armas químicas e biológicas. Usaram artifícios espetaculares para provar isso. O tempo mostrou que eram falsos. Um deles foi um suposto contrato que o Iraque teria feito com Níger para importar urânio. Uma completa farsa.  

Veja – Na sua opinião, qual foi o real motivo da guerra contra o Iraque?
Blix – Os ataques terroristas de 11 de setembro de 2001. Muitos americanos achavam que acabar com o regime talibã no Afeganistão, que abrigava a Al Qaeda, não era suficiente do ponto de vista psicológico. Era preciso derrotar um inimigo mais vistoso – e Saddam Hussein se prestava a esse papel com perfeição. Ele poderia ter colaborado com os inspetores da ONU que voltaram ao Iraque, mas fez o contrário: alimentou as suspeitas de que escondia armas de destruição em massa. Só resolveu cooperar com a ONU depois que os Estados Unidos ameaçaram usar a força. Essa pressão militar foi necessária. Quando começamos a negociar com os iraquianos, no início de 2002, eles não colaboravam de jeito nenhum. Brincavam de gato e rato. Nas reuniões, faziam muitas exigências, eram grosseiros, gritavam palavrões.
 

Veja – A guerra poderia ter sido evitada se as inspeções da ONU houvessem continuado?
Blix – Não conseguimos vistoriar todos os locais indicados pelos serviços de inteligência dos Estados Unidos e da Inglaterra. Mas, ainda que tivéssemos vistoriado, é bem provável que não encontrássemos nada. Para ser franco, acho que haveria guerra de qualquer forma, porque Bush e seus aliados não acreditariam na ONU se a inspeção desmentisse seus serviços de inteligência.

Veja – Em que momento o senhor deixou de acreditar que a paz seria possível?
Blix – Até o último momento alimentei a esperança de que Bush podia ser convencido de que o Iraque não era perigoso o suficiente para justificar a guerra. Havia um precedente: o ex-presidente Bill Clinton retirou suas tropas da fronteira com o Iraque em 1998, depois que a ONU arrancou concessões de Saddam. A diferença é que, em 2003, havia 300.000 soldados americanos nas proximidades do país, esperando a ordem de ataque. Dei-me conta tarde demais de que era impossível que Bush autorizasse a retirada de tamanho contingente. Se o fizesse, ele perderia prestígio.  

Veja – De alguma forma, o senhor se sente responsável pela guerra?
Blix – Tenho uma visão modesta do meu papel. Era o Conselho de Segurança da ONU que tinha de decidir sobre a guerra. Meu trabalho era apenas fazer inspeções eficientes, mas me vi forçado a parar depois de um ano. Renunciei ao posto de chefe dos inspetores porque queria um prazo maior para realizar o trabalho. Por causa disso, fui criticado pela mídia, mas não reclamo. Não fui censurado pelo Conselho de Segurança, a quem eu prestava contas. Só tenho mágoa de Bush. Ele arruinou o trabalho dos inspetores. Eu sempre disse que não havia evidências da existência de armas de destruição em massa no Iraque. Repito que checamos boa parte dos lugares indicados pela CIA e não encontramos nada. O trabalho deles foi ruim. Disseram que caminhões eram usados na limpeza de áreas contaminadas por elementos químicos. Eram apenas caminhões de água. Avisei o Conselho de Segurança sobre a fragilidade das provas que os americanos apresentavam. Fui ignorado.  

Veja – Em seu livro, Desarmando o Iraque, há relatos de conversas suas com o primeiro-ministro inglês Tony Blair. E com Bush, o senhor chegou a conversar?
Blix – Encontrei-o apenas uma vez. Ele me disse que queria a paz e que confiava nas inspeções. Disse que não era um texano selvagem num tom autodepreciativo. Garantiu que os americanos não estavam obcecados pela guerra. Mas não acredito que ele realmente pensasse assim – meses antes de nossa conversa, Bush havia declarado que as inspeções da ONU tinham sido inúteis no passado. De qualquer forma, como já disse, achei que seria possível fazê-lo mudar de opinião. Em outra oportunidade, o vice-presidente Dick Cheney foi bem menos amistoso comigo. Não hesitou em desacreditar os inspetores e deixou claro que queria intervir militarmente no Iraque.  

Veja – As inspeções da ONU perderam importância?
Blix – Se há uma lição nesse episódio, é que as inspeções funcionam tão bem ou melhor do que a CIA e outros serviços de inteligência. O fundamental é que elas sejam independentes. Se não, os inspetores, que já não são bem-vindos, serão vistos como espiões. Nenhum país cooperará com os inspetores da ONU se eles forem considerados instrumentos da CIA. Em nações com um histórico de altercações com os Estados Unidos, como Irã e Coréia do Norte, esse ponto é ainda mais crucial.

Veja – A ONU perdeu poder depois que os Estados Unidos atacaram o Iraque sem o aval do Conselho de Segurança?
Blix – Pode-se ver a história de duas perspectivas. Essa é uma delas: Estados Unidos, Inglaterra e Espanha minaram a autoridade da ONU. A outra é lembrar que a maioria do Conselho negou a legitimidade da ação americana e que seus integrantes não se convenceram da existência das armas de destruição em massa. A realidade demonstrou que o Conselho estava certo. Ou seja, a partir dessa visão, a ONU ganhou poder.  

Veja – Como o senhor vê os políticos que aprovaram a entrada de seus países nessa guerra?
Blix – Não raro, faz parte do trabalho dos políticos tomar uma decisão sem que haja 100% de certeza a respeito dela. Foi o que fizeram dessa vez. Mas acho que exageram na imprudência ao resolver-se por uma guerra que mobilizou 300 000 homens e pode custar 80 bilhões de dólares. Isso é que me irrita.  

Veja – Bush e Blair têm enfrentado dificuldades domésticas cada vez maiores para explicar as razões que os levaram a invadir o Iraque...
Blix – Eles merecem isso. Tanto um como outro perderam credibilidade.
 

Veja – Muitos líderes do Terceiro Mundo acreditam que ter bomba atômica é uma questão de soberania. Qual é a sua opinião?
Blix – Isso não é argumento. O melhor caminho para a soberania e legitimidade de uma nação é assinar o tratado de não-proliferação de armas nucleares.  

Veja – O governo brasileiro é acusado de dificultar as inspeções em usinas nucleares. É um gesto perigoso?
Blix – Não estou a par das complicações mais recentes envolvendo o Brasil, que é signatário do tratado de não-proliferação. O que posso dizer é que transparência significa credibilidade. O Brasil, portanto, deve ser transparente. Sei que o país tem usinas de enriquecimento de urânio com fins pacíficos e que isso é importante para solucionar problemas de energia. Mas, como a tecnologia para a fabricação de armas é a mesma, o procedimento pode levantar suspeitas.

Veja – Que país representa hoje a maior ameaça nuclear?
Blix – Todos aqueles que dispõem de arsenais atômicos são ameaçadores. Mas, sem dúvida, a Coréia do Norte é o caso mais perigoso. É um país que não respeita regras internacionais, como demonstra o fato de ter testado, no ano passado, foguetes de uso bélico no Mar do Japão. Outro grande problema é o Paquistão, que vendeu tecnologia e equipamentos à Líbia e ao Irã.

Veja – Por que alguns países podem ter bomba atômica e outros não?
Blix – Não é bem assim. O tratado de não-proliferação de armas nucleares diz que também aqueles que já possuem arsenal atômico devem se desarmar.

Veja – Quais são as probabilidades de um terrorista usar uma arma de destruição em massa?
Blix – Acho isso improvável. Requer muita infra-estrutura, organização e dinheiro. O único caso digno de nota ocorreu em 1995. Foi o ataque com gás sarin, um gás paralisante dos mais perigosos, no metrô de Tóquio, perpetrado por integrantes de uma seita japonesa. Deixou um saldo de doze mortos. Mas, depois desse episódio, os controles dos governos aumentaram.

Veja – E ataques com bombas sujas, que espalham radiação sem explodir?
Blix – O Iraque testou uma delas nos anos 80. Desistiu quando concluiu que elas não eram tão eficientes, digamos assim. O mais importante é evitar o desvio dos materiais que são usados nessas bombas. O Brasil já enfrentou um problema desses por falta de controle sobre lixo hospitalar radioativo, o vazamento de césio em Goiânia, em 1987.  

Veja – O que o senhor está fazendo atualmente?
Blix – Trabalho para o governo sueco. Chefio uma comissão internacional que estuda o problema das armas de destruição em massa. Não é um trabalho prático, como as inspeções, mas estou feliz. Disponho de um orçamento de 2 milhões de dólares para preparar um documento até o fim de 2005. Conto com a ajuda de quinze diplomatas, entre eles o embaixador brasileiro Marcos Azambuja. Espero que a ONU e muitos países usem esse trabalho.  

Veja – E quanto à vida pessoal?
Blix – Bem, ganhei uns quilos. Voltei a ter uma vida normal de casado depois de dez anos. Como minha mulher também é diplomata, moramos por uma década em países diferentes. Só nos encontrávamos uma vez por mês. Agora moramos juntos, em Estocolmo.

 
 
 
 
topo voltar