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Em
foco: Sérgio Abranches
Não
há guerra civil
"A
matança da Rocinha não é
questão
social, é
de polícia. As
invasões ilegais
do MST tampouco
são uma questão
social,
mas política e jurídica"
Não
há guerra civil no Brasil, no campo ou na cidade. A matança
na Rocinha é um enfrentamento armado entre grupos bandidos
rivais. As invasões do MST, com destruição
de propriedade produtiva, são ações políticas,
de um grupo minoritário que se coloca para além da
lei. Há muita diferença entre os dois casos e, em
comum, uma crise de autoridade, determinada pela omissão
e falência do poder público.
Guerra
civil é um confronto generalizado entre duas partes da sociedade,
numa disputa pelo seu território e pela constituição
do poder. Não é o caso. Banditismo é banditismo.
Ação política que agride a lei é ação
ilegal.
A
população pobre e trabalhadora está à
mercê de duas fontes de violência: dos bandos rivais
e da polícia. Além disso, é submetida a um
processo de clientelismo bandoleiro, como escrevi em um trabalho
mais acadêmico, já antigo. Essa forma de mandonismo
criminoso explora as carências a seu favor: instala-se nas
comunidades pobres porque elas são mais vulneráveis
e não têm como resistir. Falta-lhes a proteção
pública e elas não têm como obter segurança
privada, senão se submetendo ao mando das quadrilhas. Vivem
prisioneiras no próprio meio, sendo-lhes freqüentemente
negado o direito de ir e vir livremente. A democracia não
mais as alcança. Esse mandonismo, que tiraniza as periferias
urbanas e as favelas, se exerce pelo uso da força armada
em grande escala. Isso significa que se desapropria o Estado do
monopólio legítimo da força física.
Esta só poderia ser usada pela autoridade democraticamente
constituída, para proteger os cidadãos, seu território
e sua liberdade. A autoridade democrática precisa de pulso
para se exercer, e sua omissão derroca a própria democracia.
Ilustração Ale Setti
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Quando se diz que a autoridade democrática deve usar o poder
de polícia que tem, há quem torça o nariz e
diga: "autoritarismo", "desrespeito à cidadania". Ou: "É
questão social, não é de polícia". O
"democratismo" e o "cidadanismo" são deturpações
da democracia. Ampliam demasiadamente o elogio da transgressão
e a denúncia da repressão. Quem me lê aqui sabe
a importância que dou ao combate às desigualdades,
à pobreza e ao racismo. A matança da Rocinha não
é questão social, é de polícia. As invasões
ilegais do MST tampouco são uma questão social, mas
política e jurídica. A ética democrática
contém em seus parâmetros a repressão e, no
limite, o uso da força física. Essa ética exige,
também, um critério social. Nenhum exclui o outro.
No
Rio, o governo do Estado permite que uma força armada de
dezenas ou centenas de pessoas ocupe parte do território
da capital e a transforme em campo de batalha. Finge que não
vê o combate à luz do dia e lhe nega a dimensão
que tem. Mais: espera o desfecho da luta para que o ganhador estabeleça
uma paz armada e tirânica.
O
poder público federal é incapaz de impedir o acesso
civil a armas de uso militar paradoxalmente negadas à polícia
e o contrabando de armas e de tóxicos. Não
são as pessoas assaltadas em sua residência que alimentam
as quadrilhas com fuzis de balas traçantes ou com cocaína.
O
que o MST faz no campo é uma ação tática,
para forçar os limites da autoridade e da lei, com o objetivo
estratégico de deslegitimar a ordem estabelecida. Faz isso
no grito. E, se o presidente da República diz que no grito
não fará, não pode ficar por isso mesmo. O
ministro da Justiça nunca vê a lei sendo desrespeitada
a olho nu pelos aliados do governo. Diz que, se for ilegal, não
deixará. Mas deixa.
Há
quem imagine que isso não é tão grave. Mas
é. O presidente não pode ser desafiado, após
uma advertência pública, e não tomar uma atitude.
O ministro da Justiça tem a obrigação institucional
de ver a ilegalidade e agir para coibi-la. Jamais justificá-la.
Se tiver reservas ao regime de propriedade vigente, às normas
legais para desapropriação de terras e reforma agrária,
que proponha sua revisão pelo Parlamento, que tem autoridade
para fazer e mudar leis. Thomas Hobbes dizia que o cidadão
é livre no silêncio da lei. Não é o caso:
a lei diz que não se pode invadir propriedade alheia, ainda
mais produtiva. A liderança do MST diz que ela define o que
é propriedade produtiva. Tradução: não
existe, no país do MST, autoridade legitimamente constituída
nem poderes Legislativo ou Judiciário.
É
disso que se trata. A atitude dos que receberam do povo a delegação
soberana da autoridade é que determina sua própria
falência. Resultado: desordem por omissão de autoridade.
A desordem privada invade a ordem pública e as autoridades
debocham, se calam ou trocam acusações. Lá
fora os jovens morrem e o país empobrece.
Sérgio
Abranches é cientista político
(sergioabranches@sda.com.br)
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