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André
Petry
Mil
pecados.
Alguma virtude?
"Tendo
se transformado em um abrigo
de deserdados de todo tipo, o MST não
luta apenas por terra. Seus seguidores
querem terra ou casa ou emprego ou
qualquer coisa que lhes dê um rumo na vida"
É
fácil jogar pedra no MST. Fácil e respeitável.
Só não resolve a doença da qual ele é
apenas o sintoma. Calcula-se que o MST tenha cerca de 150.000 militantes
acampados em todo o país. Entre eles, existem agricultores
que perderam suas terras, outros que perderam seus empregos rurais,
gente que se arruinou nas lides do campo. Mas também existem
deserdados em geral, sem nenhuma ligação com a vida
rural: desempregados urbanos, ex-presidiários, bóias-frias,
favelados, analfabetos, desdentados. Também há, como
escreveu Euclides da Cunha em Os Sertões a propósito
dos seguidores de Antônio Conselheiro, "gente ínfima
e suspeita, avessa ao trabalho, vezada à mândria e
à rapina". O MST é um retrato do amplo espectro da
miséria brasileira.
Onde
essa gente estaria se não existisse o MST? Com certeza, não
estaria levando seus filhos à escola e depois dirigindo-se
aos portões das fábricas onde trabalha. Não
estaria atrás de um balcão do comércio com
seus filhos sob os cuidados da moça da creche do bairro.
Quem sabe estivesse agora engrossando as fileiras da guerra pelo
controle do tráfico na favela da Rocinha. Em vez disso, essas
famílias desenraizadas estão procurando uma saída
quando ficam meses a fio acampadas à beira de uma estrada
sob uma tenda de lona preta. O MST, claramente, oferece-lhes algum
tipo de recompensa aqui e agora. Oferece também uma esperança
forte o suficiente para fazer gente simples e honesta relevar as
práticas violentas e ilegais incentivadas pelos líderes
das invasões.
O
desejo de paz social é legítimo e ela não se
fortalece com ações ilegais. Mas não se pode
esquecer a gênese das coisas: a sociedade brasileira promoveu
a iniqüidade que resultou na produção da massa
de deserdados que, por sua vez, acorreu para o MST. Talvez fosse
útil aos brasileiros mais aquinhoados materialmente tentar
entender o sinal vermelho que ele emite. Esse sinal pode ser buscado
no que escreveu o francês Roger Martin du Gard, autor de Os
Thibault e ganhador do Nobel de Literatura: "Não existe
ordem verdadeira sem justiça".
A
abordagem que privilegia o anacronismo econômico das reivindicações
do MST baseia-se no fato de que o latifúndio improdutivo
nem existe mais e, portanto, é inútil buscar a reforma
agrária nos moldes do passado. Tendo se transformado em um
abrigo de deserdados de todo tipo, o MST não luta apenas
por terra. Seus seguidores querem terra ou casa ou emprego ou qualquer
coisa que lhes dê um rumo na vida.
A
abordagem que foca o anacronismo político do MST se sustenta
na idéia de que a coisa toda se transformou em um movimento
político, revolucionário, que, em vez de reivindicar
justiça fundiária, quer mesmo é empalmar o
poder. Que queira. O PT não conseguiu promover uma guinada
mínima para a esquerda na política econômica.
Com suas marchas e delitos, o MST consegue no máximo chamar
atenção para o drama de seus seguidores. Mas é
um alerta mais eloqüente talvez do que a pesquisa da Fundação
Getúlio Vargas divulgada na semana passada, segundo a qual
um em cada três brasileiros pode ser classificado como miserável.
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