"A ministra comprou uma briga e
tanto e
precisará de todo o apoio dos que querem
ver o custo da renda fixa cair, obrigando os
investidores a virar empreendedores e
a assumir o risco da renda variável"
Dilma Rousseff,
ministra-chefe da Casa Civil, tem apresentado uma tese que
merece os aplausos de todos os administradores de esquerda
deste país. É uma tese que defendemos há
mais de quarenta anos. Dilma propõe reduzir os juros,
não para recuperar a capacidade de investimento do
estado ou para gastar no social, que é o discurso usual
daqueles que se opõem aos juros elevados. Ela quer
reduzir os juros para poder "reduzir o custo do capital social
das empresas". Finalmente alguém se tocou do verdadeiro
problema. O custo do capital no Brasil é alto porque
os juros da dívida interna também são
altos.
Ilustração
Atômica Studio
Se o estado paga 13% ao ano de "renda fixa" para "rolar" a
sua dívida, nenhum projeto empresarial com retorno
abaixo de 13%, 14% ou até 19% será retirado
das gavetas. Nenhum administrador ou empreendedor vai assumir
o risco de quebrar, o risco de perder tudo, o risco de processos
trabalhistas e de consumidores, se o estado oferece 13% ao
ano, e sem risco. A China reduziu o custo da "renda fixa"
para 1%, o que permitiu a empreendedores e engenheiros desengavetar
projetos simples, sem muita tecnologia, em que basta parafusar
duas peças diferentes e nada mais, e por isso rendem
4% ao ano, barateando o preço de venda, que é
tudo de que precisaríamos.
É a "renda
fixa" que eleva a "renda variável e a taxa de retorno"
dos empresários e acionistas. Por isso, no Brasil,
só desengavetamos projetos que rendam no mínimo
19% ao ano, projetos com "elevado valor adicionado", projetos
que exigem subsídios e renúncias fiscais, projetos
com empréstimos subsidiados pelo BNDES, com "zonas
francas fiscais", que requerem câmbio favorável
e elevados investimentos em "ciência e tecnologia".
Essas foram as grandes bandeiras dos nossos empresários
"desenvolvimentistas" e de seus economistas, começando
com Celso Furtado.
Era a única
forma de conciliar o desejo desses economistas de capturar
para o estado a quase totalidade da poupança nacional
o que exige do estado esses juros estratosféricos
para serem renovados e subsídios empresariais para
que haja crescimento. Tudo isso sob os aplausos da direita,
que adora receber juros elevados sem ter de fazer nada, a
risco zero. Com essa aliança diabólica, o juro
real não cairá tão cedo.
Eu evito investir
em "renda fixa" por uma questão ética. Não
me sinto confortável em ganhar sem fazer nada, especialmente
à custa do povo brasileiro. Sempre fiz questão
de investir em ações, gerando crescimento e
empregos, correndo o risco da volatilidade da "renda variável",
o que me faz dormir tranqüilo quando recebo meu merecido
dividendo. A tese de Dilma já foi aplicada com excelentes
resultados no Brasil pelo administrador Raymundo Magliano
Filho, presidente da Bolsa de Valores de São Paulo,
que reduziu pela metade o custo de capital das empresas do
Novo Mercado, do qual me orgulho de ser árbitro. Magliano
foi eleito "administrador do ano de 2006", merecia um Nobel.
Ou seja, a tese
de Dilma é viável, e nem falta vontade política
para aplicá-la. Lula afirmou em seu discurso de posse
que "nenhum país cresce se o custo do capital for alto".
Frase que o jornalismo econômico obviamente ignorou
e o jornalismo administrativo, inexistente neste país,
não noticiou.
Do ponto de vista
ético, chegou a hora de o estado devolver à
sociedade o "capital social" que tomou emprestado, o trilhão
que alguns desenvolvimentistas agora não querem devolver,
o que mantém o juro e o custo do capital deste país
elevado. Se o "capital social" for finalmente devolvido à
sociedade nos próximos cinco anos, os juros da "renda
fixa" cairão para 1%, como no resto do mundo, e deixaremos
de ser os lanterninhas do crescimento.
Dilma comprou uma
briga e tanto ao enfrentar essa aliança diabólica.
Ela precisará de todo o apoio dos engenheiros, administradores,
contadores, advogados, médicos que querem ver o custo
da "renda fixa" cair, obrigando os investidores a virar empreendedores
e a assumir o risco da "renda variável". Ela já
tem o meu total apoio, agora só falta o seu.
Stephen Kanitz é formado pela Harvard
Business School
(www.kanitz.com.br)