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Edição 2000

21 de março de 2007
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Cinema
Ode ao fetiche

Ancorado numa atuação matadora de Selton Mello,
O Cheiro do Ralo é um filme barato – e muito bom


Isabela Boscov

Marcos Camargo

Selton Mello como Lourenço: fixação num ralo, num derrière, e na humilhação do próximo


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O Cheiro do Ralo (Brasil, 2006), que estréia nesta sexta-feira no país, é, da direção de arte à música, um filme calculado para se tornar objeto de culto – mas é tão inteligente, mordaz, bem estruturado e bem realizado que pode se dar plenamente ao luxo dessa pretensão. Selton Mello é, aqui, Lourenço, que toca um negócio de compra de objetos usados. As pessoas que o procuram estão invariavelmente em dificuldades financeiras, e aceitam sempre o menor preço pelo que têm a vender: um violino, um baralho erótico, jóias de proveniência duvidosa, um olho de vidro. Não parece faltar dinheiro ao protagonista, mas em nenhum momento o filme o mostra executando o que seria a outra parte essencial de seu negócio – o passar adiante, com lucro, esses itens. Todos eles vão parar num depósito, trancado a chave. A questão é que Lourenço se enamorou de seu poder, e todas as suas negociações têm um objetivo primordial em vista: não o de enriquecer, mas o de infligir o máximo de humilhação e degradação.

Lourenço tem, ainda, duas outras obsessões. Uma, o fabuloso derrière da garçonete (Paula Braun) que o atende na lanchonete em que ele almoça, e que intoxica seus pensamentos. (Em algumas cenas de cinismo supremo, vê-se que Lourenço nunca vai aprender o nome dela, e é incapaz de reconhecê-la se ela estiver de frente.) Sua outra fixação é o cheiro desagradável que vem do ralo de um banheiro nos fundos de seu escritório. De início, Lourenço se explica para os clientes, com medo de que pensem ser ele a origem do bodum. Depois, numa guinada que não convém descrever, ele como que abraça esse cheiro ruim, e passa a sorvê-lo. De tanto corromper, ele próprio se degradou a ponto de só se sentir bem em companhia do esgoto.

O primeiro e decisivo sinal de inteligência do filme é tratar essa metáfora como a obviedade que ela é, o que o deixa livre para exercitar seu humor perverso. O outro está na interpretação contundente, irredutível e muito divertida de Selton Mello. Tudo em O Cheiro do Ralo é de qualidade: a história homônima em que se baseia, de Lourenço Mutarelli (ótimo, aliás, no papel do segurança da loja), o roteiro de Marçal Aquino, a trilha do one man band Apollo 9, a direção de Heitor Dhalia. Mas é Mello, em grande medida o idealizador do projeto, que dá liga a todos esses elementos. Seu empenho para que ele se concretizasse, aliás, acabou resultando num modelo de produção dos mais interessantes. Diante da dificuldade em captar por meio das leis de incentivo os 2,5 milhões de reais em que o filme fora orçado, ator e colaboradores juntaram recursos do próprio bolso, replanejaram o roteiro e o rodaram com 315.000 reais – sem nenhum prejuízo aos aspectos técnicos e criativos, e talvez até alguma vantagem. O Cheiro do Ralo, enfim, é um filme pelo qual o espectador só paga uma vez, quando vai vê-lo. E que vale o que cobra.

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