O
inglês Julian Barnes é um devoto do culto profano ao francês
Gustave Flaubert. O autor de Madame Bovary já foi tema de um dos
melhores romances de Barnes, O Papagaio de Flaubert. "Ele é o escritor
para escritores por excelência", disse Barnes a VEJA. Arthur &
George (tradução de Léa Viveiros de Castro; Rocco;
448 páginas; 53,50 reais), o mais recente livro de Barnes, centra-se em
um personagem que quase poderia ser considerado um antípoda de Flaubert:
Arthur Conan Doyle (1859-1930). Criador do ainda hoje popularíssimo detetive
Sherlock Holmes, o autor escocês estava longe de ser um refinado artesão
da palavra. Era antes um escritor para as massas, um pop star da era vitoriana.
No romance de Barnes, porém, o homem público importa mais do que
o escritor. Arthur & George centra-se em um episódio no qual
Conan Doyle teve a oportunidade de bancar o detetive na vida real: sua campanha
para inocentar o advogado George Edalji, inglês de origem indiana injustamente
condenado pelo crime de mutilar um cavalo na aldeia de Great Wyrley, no início
do século XX. A obra de Barnes é uma reconstituição
ficcional minuciosa e envolvente dessa história verídica.
Aos
61 anos – um pouco mais velho e menos badalado do que seus compatriotas
Ian McEwan e Martin Amis –, Barnes diz que não tinha o menor desejo
de escrever outro livro sobre um escritor. Seu interesse inicial recaiu
sobre o calvário jurídico de Edalji. Mas não havia como tratar
do tema sem incluir também o empenho justiceiro de Conan Doyle. "Teria
preferido que ele fosse um dentista ou um mecânico de carros, não
um escritor", diz Barnes – que, no entanto, acabou descobrindo uma até
então insuspeita admiração pelo autor de O Cão
dos Baskerville. Arthur & George é um retrato às
vezes até demasiadamente lisonjeiro de Conan Doyle e seus ecléticos
interesses – que iam do críquete à mediunidade (sim, o criador
de Sherlock Holmes professava um esquisito irracionalismo no terreno espiritual).
Mas, da dupla de personagens anunciada no título, George é o mais
fascinante. Filho de uma escocesa e de um parse convertido em pastor anglicano,
Edalji não tinha a mínima inclinação ao que hoje se
chamaria "multiculturalismo". Desejava ser visto como o cidadão inglês
que era por nascimento. Míope, tímido, o jovem advogado mantinha
uma fé inabalável na infalibilidade da lei até que, em 1903,
o preconceito da polícia e a obtusidade do tribunal o jogaram na cadeia
por um crime que não cometeu. O caso Edalji, aliás, tem importância
fundamental na história jurídica da Inglaterra, que se viu obrigada
a instituir tribunais de apelação para prevenir que escândalos
do gênero voltassem a acontecer.
Contra todas as evidências, Edalji recusava-se a crer que a perseguição
policial de que caiu vítima fora motivada por questões raciais.
Sua dramática história, porém, levanta um problema antigo
(e atual) de todas as nações liberais: como acolher o "outro" sem
comprometer a identidade nacional? Barnes às vezes cai nas armadilhas do
romance histórico, recheando a narrativa de referências a acontecimentos
e personagens de época para compor um cenário mais colorido (o elenco
de figurantes literários, aliás, é extenso: inclui Oscar
Wilde, J.M. Barrie, Rudyard Kipling e H.G. Wells). Mas Arthur & George
consegue um feito raro: dá corpo ao espírito de uma era passada
– o final do longo reinado da rainha Vitória e o início do
breve reinado de Edward VII – e ao mesmo tempo tem o que dizer ao leitor
de hoje.