O Brasil recebe o conjunto completo das terríveis gravuras de Goya.
Mergulhar nelas é uma experiência inesquecível
Carlos Graieb
Fotos divulgação
LOUCOS
CAPRICHOS A donzela foge de seus pretendentes,
a jovem bruxa aprende com sua "bela professora", corujas e morcegos acossam o
homem que dorme: "O sono da razão produz monstros"
Raramente
os velhos mestres europeus dedicaram à gravura todo o seu talento. Ela
era uma arte "menor" – um apêndice da pintura. Francisco Goya y Lucientes
(1746-1828) foi uma notável exceção. Antes dele, Dürer
e Rembrandt já haviam demonstrado a enorme riqueza expressiva desse gênero.
Goya deu um passo além. Ao longo da vida, ele produziu quatro grandes séries
de gravuras: os Caprichos, os Desastres da Guerra, a Tauromaquia
e os Disparates. Elas formam a parte mais pessoal de sua obra –
aquela que não resultou de nenhuma encomenda ou obrigação
oficial, mas do desejo puro e simples de criar. Cada série tem identidade
própria. Ao mesmo tempo, um fio une todas elas. E é isso o que distingue
Goya: como ninguém mais, ele empunhou o buril para explicitar uma visão
de mundo. Desde sábado, e até o fim de maio, as 218 principais gravuras
desse extraordinário artista espanhol encontram-se expostas no Masp, em
São Paulo. A experiência de observá-las em conjunto é
inesquecível.
Auto-retrato de Goya: olhar duro sobre os homens
A primeira série
de gravuras produzida por Goya foi a dos Caprichos. São oitenta
imagens, uma delas muito célebre. Trata-se daquela intitulada O Sono
da Razão Produz Monstros, na qual um homem adormecido é acossado
por corujas e morcegos, símbolos do obscurantismo. Por algum tempo, Goya
planejou usar essa gravura como apresentação de todo o conjunto.
Depois mudou de idéia e iniciou a série com um curioso auto-retrato
em que aparece de perfil, olhando o mundo de soslaio. Poucas vezes um olhar tão
duro e abrasivo foi lançado sobre os homens. Além de seres fantásticos
como bruxas e duendes, as gravuras mostram "os vícios, extravagâncias
e desacertos comuns a toda sociedade", conforme disse o artista ao anunciar a
venda inicial dos Caprichos num diário de Madri, em fevereiro de
1799. A prostituição, os casamentos arranjados, a vaidade das mulheres,
a hipocrisia do clero, a estupidez dos falsos sábios e a superstição
dos tolos: esses são alguns dos males que Goya ridiculariza. Nem sempre
é fácil decifrar o assunto de cada prancha. As legendas que as acompanham
podem ajudar a resolver a charada, mas às vezes só aumentam o enigma.
Pouco importa. A procissão de figuras grotescas é ininterrupta.
É um horror que não varia, da mesma forma que acontece na série
dos Disparates. Embora tenha sido desenhada trinta anos mais tarde, essa
série guarda um claro parentesco com a dos Caprichos. Lá
estão novamente os monstros e as deformidades, para castigar a tolice e
a superstição.
Ao contrário do que ocorre nos dois casos anteriores, tanto a Tauromaquia
quanto os Desastres da Guerra têm uma dose bem maior de realismo.
Neles, a sátira e a fantasia dão lugar à violência
como assunto principal. As quarenta pranchas sobre touradas são um tour
de force de observação. Homens, touros e cavalos são retratados
nas mais diversas posições: em repouso, em movimento ou com os músculos
enovelados, prestes a iniciar um ataque ou uma fuga. Touros são atravessados
por espadas e lanças e revidam com seus chifres, que rasgam os atacantes.
A morte é a única constante na Tauromaquia – da mesma
forma que ela reina sobre a Espanha nos Desastres da Guerra. Essa série
de oitenta gravuras nasceu da invasão das tropas napoleônicas ao
país de Goya, entre 1807 e 1814. Estupros, assassinatos e mutilações
são sua matéria-prima. Não apenas os invasores são
capazes de maldade. Atrocidades são cometidas de ambos os lados. Nos Desastres
da Guerra, o recurso das legendas é utilizado de forma mais direta
do que nos Caprichos ou nos Disparates. "Não se pode olhar",
escreve Goya sob uma cena de fuzilamento. "Por quê?", pergunta o artista
diante de um enforcado. Numa das gravuras mais perturbadoras do conjunto, um homem
vomita sobre uma pilha de cadáveres. "Para isto vocês nasceram",
diz a legenda.
DESASTRES DA GUERRA Vômito
sobre cadáveres e corpos mutilados: "Para isto vocês nasceram"
Goya parece ter sido um homem
equilibrado. A surdez completa que o acometeu, quando ele tinha 46 anos, talvez
o tenha mergulhado num período de depressão, como seria natural.
Mas não o transformou num homem continuamente amargurado. Até o
fim ele demonstrou um grande apetite pela vida. Era atencioso com a família
e um bom amigo. Por mais de quarenta anos, ele trabalhou para a corte espanhola,
sem que um único traço de bajulação jamais saísse
de seus pincéis. Há quem diga que seus retratos da dinastia Bourbon
beiram a caricatura. Trata-se de um exagero. Sábio o bastante para respeitá-los,
mas sem recorrer à lisonja, ele apenas mostrou os monarcas que lhe davam
emprego em sua notória feiúra. O tato e a diplomacia, e não
o servilismo, permitiram que prosperasse por tanto tempo naquele ambiente de intrigas
palacianas.
Goya era capaz
de correr riscos em nome de suas convicções artísticas. "Não
há regras na pintura", disse ele num discurso aos solenes professores da
Academia de San Fernando. Com palavras como essas, os modernistas causaram escândalo
no começo do século XX. Imagine-se então o espanto que elas
provocaram em 1792. Justamente por ser um artista do rei, Goya tinha muito a perder
com atitudes como essa: competidores e invejosos estavam sempre à procura
de flancos para atacá-lo. Ele era cauteloso, mas sem covardia, o que também
fica patente na maneira como publicou – ou deixou de publicar – suas
gravuras. Ele se cercou de cuidados para que autoridades hostis, fossem da monarquia,
fossem da Inquisição católica, que em seu tempo ainda estava
ativa, não viessem bater à sua porta. Quando as incertezas pareceram
grandes demais, preferiu o silêncio: os Desastres da Guerra e os
Disparates só foram publicados muito depois de sua morte.
ABERRAÇÕES
Na gravura O Bobalhão,
um gigante se posta diante de uma estátua religiosa: crítica à
superstição
As
atitudes de um artista no cotidiano nem sempre coincidem com a visão de
mundo expressa em sua obra. Assim, os intérpretes de Goya se dividem em
dois grupos em relação às suas gravuras: alguns vêem
nelas uma crítica ácida à humanidade, mas na qual existe
espaço para a simpatia e a esperança; outros enxergam ali um niilismo
inelutável. No primeiro grupo encontra-se, por exemplo, o crítico
australiano Robert Hughes. Segundo ele, o poder de compartilhar da dor alheia
seria a distinção de Goya: sua arte exibiria uma espécie
de capacidade de "co-sofrimento". Analogamente, seus trabalhos satíricos
seriam um exemplo típico de fé no poder da razão. Goya, é
bom lembrar, nasceu no "século das luzes" e conheceu bem as obras de alguns
dos principais filósofos iluministas, como Voltaire e Diderot. Seu círculo
de amigos era composto de "ilustrados", para usar a palavra em voga na Espanha
de então. Ao desenhar os seus Caprichos, diz Hughes, o que interessava
a Goya era espalhar, por meio da sátira, uma luz que "dispersaria os duendes
e loucuras".
A esse tipo
de análise contrapõe-se a do filósofo americano Arthur Danto.
Para ele, Goya jamais conseguiu compartilhar de fato da agenda iluminista e de
uma crença esperançosa no poder transformador da arte. "Goya mostra
como somos, numa visão sombria de depravação", afirma Danto.
"Suas gravuras constituem um espelho moral no qual se reflete nossa natureza perversa
e mesquinha. Esse conhecimento nos trará pouca vantagem, pois somos incapazes
de fazer o que quer que seja a esse respeito: não há sequer um Deus
para nos salvar." Quando vistas em conjunto, com seu espetáculo de morte,
feiúra e insensatez, as gravuras de Goya parecem conduzir mais à
segunda do que à primeira conclusão. Escolher entre as duas alternativas,
no entanto, é algo que cada um deve fazer por si. A única promessa
é que a experiência vale a pena.