Em
dezembro passado, a modelo capixaba Bia Furtado, 30 anos, acordou no meio da noite
com barulho de tiros. Estava num ônibus, voltando para São Paulo,
depois de passar o Natal com a família no Espírito Santo. O veículo,
da viação Itapemirim, tinha passado pelo Rio de Janeiro para trocar
de motorista. De sua poltrona, a modelo viu o ônibus parar na pista e um
bandido subir para saquear os passageiros. Ao seu lado, uma senhora tentou tranqüilizá-la
dizendo que tudo iria acabar bem. Ela estava errada. Um segundo homem entrou com
um galão de gasolina nas mãos e espalhou o combustível pelo
corredor, molhando quem estava nas primeiras poltronas. Depois riscou um fósforo
e viu a chama arder com 28 pessoas lá dentro. O ônibus, com ar-condicionado,
tinha as janelas travadas. "Começou a pegar fogo em todo mundo, e me vi
desesperada porque não conseguia abrir a janela. A fumaça estava
sufocando", diz Bia. Com socos e pontapés, alguns passageiros tentavam
em vão quebrar os vidros. É um daqueles momentos em que a vida toda
passa pela cabeça. Bia iniciou a carreira ainda criança, quando
ia de ônibus da cidadezinha de Muqui, onde morava no sul do Espírito
Santo, até a capital, Vitória, fazer um curso de modelo e manequim.
Mudou-se para São Paulo, onde conseguiu ser uma das 150 modelos da agência
Mega. Acabara de comprar um apartamento novo junto com o namorado, o estilista
Roberto Bacellar, e tinha planos de se casar em setembro. Quando saiu daquele
ônibus, com 35% do corpo queimado, incluindo rosto, braços e mãos,
viu a carreira ser interrompida de forma brutal.
O veículo foi abordado por vinte traficantes armados. Eles estavam em guerra
com a polícia. Até hoje, três meses depois, ninguém
sabe ao certo o motivo do ataque. O fogo se alastrou em poucos minutos, sem dar
chance para nenhuma reação, a não ser o pavor. Um passageiro
da última poltrona conseguiu quebrar duas janelas, pelas quais escapou
a maioria dos sobreviventes, inclusive a modelo. "Meu corpo começou a melar,
e eu pensei: 'Meu Deus, estou derretendo'", diz. Do lado de fora, a polícia
havia chegado ao local e trocava tiros com os traficantes. Quem conseguia escapar
do incêndio entrava no meio do fogo cruzado. Bia se atirou pela janela e
permaneceu no chão, ferida, mas fingindo-se de morta com medo de ser atingida
pelos bandidos. Arrastou-se até uma casa, onde dois moradores a socorreram
e levaram ao hospital. O resultado do ataque foi deplorável: sete corpos
carbonizados e catorze passageiros hospitalizados, quatro deles em estado grave.
Dois acabaram morrendo. Bia teve queimaduras de terceiro grau no rosto, nos ombros,
nas costas, no braço direito e nas duas mãos. Uma delas ficou com
os tendões à mostra. Ao chegar ao hospital, o prognóstico
era aterrador: ela podia morrer ou, se sobrevivesse, perder as mãos.
Foram quinze dias no CTI. Quando
recobrou a consciência, demorou um pouco a acreditar na barbaridade de que
tinha sido vítima. Por uma defesa natural do cérebro, passou mais
de uma semana tendo alucinações. Pensava estar num cruzeiro marítimo.
Ela só voltou à realidade no meio do tratamento, com a ajuda de
psicólogos e da família. O esforço para recompor as partes
queimadas do corpo foi árduo. Dez cirurgias no total, as primeiras para
remover tecidos mortos, depois para enxertar pele, retirada do couro cabeludo
e de outras partes do corpo. "Queimadura é a situação mais
grave que o corpo pode suportar", diz o cirurgião plástico Marco
Aurélio Pellon, que acompanhou o caso. Ela não sentiu dor na hora
do ataque por causa da adrenalina. Dolorosos foram o tratamento de recuperação,
principalmente nas sessões de fisioterapia, e as trocas de curativo. Bia
pediu que retirassem os espelhos do quarto, não queria se ver. Só
começou a se olhar aos poucos, quando os médicos incentivavam: "No
começo eu não me reconhecia com aquele rosto todo inchado. Lembrava
das minhas fotos e a referência que tinha de mim era essa. Até hoje
ainda choro muito".
Do estado
em que chegou ao hospital até receber alta, no último sábado,
depois de 72 dias internada, a modelo teve um sensível avanço. Ainda
caminha com dificuldade e não movimenta a mão direita. Mas as feridas
do rosto começam a cicatrizar e ela já consegue falar sobre o que
aconteceu, embora com os olhos marejados. O tratamento ainda deve durar dois anos,
e nos próximos seis meses ela terá de usar uma máscara no
rosto 24 horas por dia para ajudar na cicatrização. "Eu não
culpo os bandidos. O culpado é o estado, que deixou uma barbaridade como
essa acontecer", diz Bia. As vítimas do ataque não receberam amparo
algum, nem do estado nem da empresa de ônibus. Nem sequer foram ressarcidas
pelas malas que se perderam no incêndio. A modelo, por sorte, tinha um plano
de saúde que cobriu parte das despesas, mas não recebeu auxílio
nem da agência de modelos onde trabalhava sem carteira assinada. Seu capital
era a bela aparência. Por isso, mantinha o peso na casa dos 56 quilos, trazia
o cabelo e a pele bem-cuidados e tinha grandes expectativas para o futuro. Agora,
só tem um objetivo em mente: "Quero ficar boa, voltar para casa e ter uma
vida normal".